Revital Poleg
Em uma das maiores noites de protesto desde 7 de outubro, mais de 100 mil cidadãos saíram às ruas no último sábado à noite, ocupando praças centrais e vias principais por todo o país.
O movimento de protesto reacendeu-se diante de uma recente série de ações extremamente preocupantes e sem precedentes por parte do governo Netanyahu, que colocam em risco real e imediato o futuro democrático de Israel. Em apenas uma semana, os cidadãos israelenses testemunharam a retomada dos combates em Gaza, violando unilateralmente o acordo para a libertação dos 59 reféns restantes — sem qualquer previsão de libertação ou negociações em andamento. Assistiram também ao retorno de Itamar Ben-Gvir, da extrema-direita, ao governo; à demissão do chefe do Serviço Geral de Segurança (Shin Bet); à declaração sem precedentes do primeiro-ministro de que não acatará uma decisão da Suprema Corte caso esta determine a anulação da demissão de Ronen Bar — criando assim uma crise constitucional de dimensões inéditas; e, por fim, à decisão do governo, aprovada no domingo, 23 de março, de demitir a Procuradora-Geral do Estado.
Vale ressaltar que esses eventos representam apenas o ápice de uma longa série de ações perigosas lideradas por Netanyahu num ritmo vertiginoso — cujo fim ainda não está à vista.
Mais de 60% da população israelense, segundo pesquisa recente divulgada pelo Canal 12, demonstra uma profunda inquietação diante dessa realidade e teme seriamente suas possíveis consequências. Como reflexo disso, a voz das ruas voltou a se fazer ouvir com intensidade nos últimos dias. Trata-se de um momento decisivo para Israel, que enfrenta a mais crucial de suas batalhas: a defesa de seu caráter democrático frente a um governo que busca redefinir o país em flagrante e alarmante afronta aos fundamentos constitucionais do Estado.
Diante da gravidade dos acontecimentos, os movimentos de protesto anunciaram a continuidade das manifestações ao longo de toda a semana — pelo menos. Desde a noite da última quinta-feira, quando o governo aprovou a demissão do chefe do Shin Bet, cidadãos já vinham mantendo vigílias ininterruptas. À mobilização popular, já declararam seu apoio e adesão importantes entidades dos setores público e privado — entre elas, cerca de 60 prefeitos municipais, a Histadrut (central sindical nacional), representantes da indústria de tecnologia avançada e dos principais fundos de investimento de risco, reitores das maiores universidades do país e o Fórum Empresarial, que reúne os líderes das 200 maiores empresas de Israel.
A sensação do público é que Netanyahu declarou guerra contra seu próprio povo — colocando seus interesses pessoais e sua permanência no poder acima de qualquer outra consideração. A legalidade deixou de ser um princípio orientador; o serviço público, já não uma prioridade. O que importa é sua sobrevivência política pessoal.
Sim, são palavras duras — e a mão treme ao escrevê-las — mas os atos e declarações do primeiro-ministro falam por si só. Na prática, Netanyahu iniciou um ataque frontal ao Estado de Direito, sem poupar esforços e sem assumir responsabilidade pelas possíveis consequências de suas ações e retórica incendiária e tóxica.
Na prática, ele dissemina teorias da conspiração sobre um suposto “deep state” que estaria agindo contra ele, divide e incita a população com uma habilidade afiada para a propaganda e lança acusações graves, nem sempre alinhadas com os dados oficiais — como infelizmente já foi comprovado. Faz isso contra os guardiões da democracia, contra “a esquerda” e contra uma parcela imensa da sociedade — entre eles, dezenas de milhares de pessoas que arriscaram suas vidas na guerra que já dura um ano e meio e que agora são, mais uma vez, convocadas ao serviço de reserva. Infelizmente, a represa foi rompida, e Netanyahu escolheu avançar sem freios nem contrapesos.
A expressão perturbadora “guerra civil” — que, apesar de todas as divergências já vividas pela sociedade israelense, jamais ousamos sequer mencionar — tornou-se agora parte do vocabulário cotidiano. “A principal ameaça à sociedade israelense é a oitava frente — o profundo racha interno entre os próprios israelenses”, alertou o ex-presidente da Suprema Corte, Prof. Aharon Barak, logo após a demissão de Ronen Bar, enquanto o Shin Bet conduz investigações sobre o escândalo conhecido como “Catargate”. Segundo Barak, “esse racha está se agravando, e temo que seu desfecho seja como o de um trem descarrilado, precipitando-se rumo ao abismo e arrastando o país a uma guerra civil”.
Pouparei aqui as palavras que lhe foram dirigidas após tais declarações, provenientes da claque dos membros da coalizão — todos, sem exceção, alinhados a uma única opinião: a de Netanyahu. Palavras lançadas contra um dos juristas mais respeitados de Israel e do mundo. Um homem de 88 anos que, ironicamente, foi convocado pelo próprio Netanyahu para representar Israel no Tribunal Penal Internacional de Haia, em resposta à denúncia apresentada contra ele.
“A independência do Judiciário é algo essencial e intrínseco. Em Israel, o Judiciário foi, é e continuará sendo independente. Toda tentativa de prejudicar essa independência falhará. Arquivei toda proposta que visasse a reduzir ou ferir, de qualquer forma, a autonomia da Suprema Corte.” Essas foram palavras do próprio Netanyahu, em 2012, ao lado da então presidente da Suprema Corte, Dorit Beinisch, pouco antes do fim de seu mandato.
No entanto, após a apresentação da acusação formal contra ele em 2019, por suspeitas de suborno, fraude e quebra de confiança, ele passou a agir sem limites. Isso se manifestou com a chamada “reforma judicial”, que irrompeu em nossa realidade em janeiro de 2023, com o retorno de Netanyahu ao poder, e teve como objetivo declarado reduzir os poderes da Suprema Corte e da Procuradoria-Geral, modificando profundamente o sistema de freios e contrapesos.
Esse movimento gerou uma onda de protestos públicos sem precedentes até então em Israel — uma onda interrompida apenas pela tragédia do dia 7 de outubro, que abalou o país e virou sua agenda política de cabeça para baixo.
Desde então, Netanyahu quebrou todos os recordes em sua luta contra o Estado de Direito em Israel, movido pelo temor de que os eventos de 7 de outubro prejudiquem seu futuro político. Até hoje, o primeiro-ministro não assumiu qualquer responsabilidade pelo ocorrido, recusou-se categoricamente — com inúmeras manobras políticas — a instaurar uma comissão de inquérito estatal, como exige a lei, e trava uma verdadeira guerra contra os guardiões da democracia — os mesmos que já estavam presentes antes do sábado negro e que conhecem aspectos de sua conduta que, talvez, tenham contribuído para a tragédia.
Ao pano de fundo dos acontecimentos atuais está a investigação conduzida pelo Shin Bet, iniciada há cerca de duas semanas, sobre o possível envolvimento de assessores próximos de Netanyahu no caso conhecido como “Catargate” — um escândalo que, à primeira vista, revela-se extremamente grave, podendo incluir elementos de traição — um dos crimes mais severos do código penal israelense. A investigação levanta dúvidas profundas sobre como, ou se, o primeiro-ministro não tinha conhecimento do que se passava dentro de seu próprio gabinete, entre seus assessores mais próximos e leais, cuja confiança é considerada absoluta.
A volta de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, fortaleceu consideravelmente Netanyahu. Ele passou a se sentir não apenas legitimado como um “líder supremo”, livre para agir sem limites, mas também passou a adotar posturas semelhantes às do presidente americano. Entre elas, destaca-se o uso intensivo das redes sociais — inclusive em inglês, voltado a uma audiência global — com um tom particularmente tóxico, direcionado simultaneamente a seus apoiadores e contra amplos segmentos da população israelense. Tudo isso cuidadosamente construído para sugerir uma suposta analogia entre os desafios enfrentados pelos governos dos Estados Unidos e de Israel — basta observar o exemplo do chamado “deep state”.
É importante destacar que o atual movimento de protesto não pode ser rotulado como um confronto entre “direita e esquerda”. Por mais que Netanyahu tente impor essa narrativa, ela não corresponde à realidade.
Nesse contexto, vale lembrar as palavras comoventes de Miriam Lapid — veterana da direita e uma das fundadoras do movimento “Gush Emunim”, que, em dezembro de 1993, perdeu o marido e o filho, assassinados em um brutal atentado terrorista.
Durante a manifestação realizada no sábado à noite, na Praça Paris, em Jerusalém, Miriam Lapid conclamou o público religioso-nacional a despertar e sair às ruas: “Eu simplesmente pergunto: onde estão as barbas, onde estão os cachos, os lenços, os chapéus? Onde estão os judeus que amam o povo de Israel, que se importam com o povo e com o nosso país — onde eles estão? Eu quero ver todos nas manifestações”.
Ela ressaltou que, em sua visão, a luta não é entre direita e esquerda, mas entre honestidade e corrupção: “Alguém está conduzindo vocês por um caminho sem volta. Estamos falando da diferença entre corrupção e integridade moral, entre verdade e mentira. Eu clamo, com todo o meu coração, a cada judeu honesto, que escuta sua consciência, que vê a realidade e ouve o que está acontecendo — que se levante e aja, que venha a essas manifestações, e que a verdade venha à tona”. Em um apelo direto aos representantes públicos, Miriam Lapid afirmou:
“Deputados — vocês não têm consciência? Não têm família? O que vocês respondem aos seus filhos? O que responderão à história? O que contarão? O que dirão?”
E talvez, justamente essas palavras — vindas de quem as pronunciou e de tudo o que ela representa — sejam, para nós, uma fonte de conforto nestes dias impossíveis e assustadores.
Esse texto não reflete necessariamente a opinião do Instituto Brasil-Israel.
Foto: Eitan Slonim