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“Preciso lembrar meu povo que o outro lado existe e temos um conflito a resolver”

Por Fabiana Grimberg Fonte IBI | Categoria: Política
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Repórter do canal 2, um dos principais em Israel, Ohad Hemo relata a experiência de ser um dos únicos correspondentes israelenses em Gaza

A convite do Fundo Comunitário, o jornalista israelense Ohad Hemo passou pelo Brasil, onde deu palestras sobre seu trabalho.

Um dos únicos repórteres com autorização para atuar na Faixa de Gaza, Hemo relatou, em entrevista ao IBI, como é a divisão política no local, a situação dos palestinos e sua perspectiva sobre negociações de paz entre israelenses e palestinos. 

Como decidiu ser repórter em Gaza? Me pergunto isso todos os dias. Sou um dos poucos israelenses que conseguem entrar nessa área. Inclui muito risco de vida. Tenho duas ambições: a menor delas é pessoal e é estar em um lugar em que nenhum israelense está, conversar com essas pessoas, tentar entender a lógica por trás de como eles pensam, como veem o conflito etc. Mas a outra é mais importante. No fim das contas, estamos falando de 4.5 milhões de palestinos que vivem ao lado de Israel e temos que resolver esse conflito. Vivemos na mesma terra e temos que chegar a uma solução. E acho que meu dever é lembrar, de alguma maneira, a sociedade israelense, que essa disputa existe. Uma das maiores tragédias do conflito é que só há desconfiança, ódio dos dois lados. E muitos não consideram o outro lado humano. Tenho que lembrar meu povo que esse conflito não foi resolvido. Não importa se é de direita, de esquerda, temos que resolver. 

Você acha que hoje em dia os políticos têm o conhecimento de que existe a necessidade de resolver o conflito, de ambos os lados? Não tenho certeza. Não posso dizer que os líderes de ambos os lados estejam fazendo o que está ao alcance para atingir a paz. Quando converso com o povo israelense e palestino, sinto que existe esse desejo de resolver o problema. Mas, definitivamente, como podemos ver em muitos conflitos ao redor do mundo, sempre que você atinge o nível do regime do governo, dos políticos, você não encontra esse desejo. Eu não culpo ninguém. O que acontece é uma verdadeira tragédia. Nós estávamos muito perto de chegar a um acordo de paz e tudo explodiu na nossa cara. 

Quando isso piorou?  Desde o ano 2000, enfrentamos uma verdadeira tragédia. Nos distanciamos muito, falamos línguas diferentes, não conhecemos o lado do outro. A grande maioria dos israelenses nunca esteve no lado palestino, 80% dos jovens palestinos nunca estiveram em Israel. Eles não se conhecem. Há uma ignorância. Isso é uma tragédia, porque onde há ignorância, há ódio.

Acredita em alguma outra solução que não a separação em dois Estados? A única solução é a separação. Acredito que o principal problema poderia ser o fato de que hoje falamos de 500 mil israelenses do outro lado da linha verde e de retorno dos refugiados. Isso significaria perder a nossa maioria, o Estado judaico democrático. Israel é forte o suficiente para isso? Sim, Israel nunca foi tão forte quanto hoje. Acredito que a ideia de separação é a única maneira de nos certificarmos de que seremos fortes no futuro.

Quais as impressões do povo de Gaza sobre os israelenses? Se você perguntar ao povo em Gaza, hoje, quem é responsável pela situação de lá, uma parcela dirá que é Israel, outros que é o Hamas, outros que é o Egito, mas a maioria dirá que é Mahmoud Abbas. Hoje, o principal problema da faixa de Gaza (com 57% de desemprego, eletricidade disponível por apenas quatro horas por dia, sem água, 2,1 milhões de pessoas vivendo em pequenos lugares lotados) é esse. Se você perguntar como eles chegaram a esse ponto, a maioria esmagadora culpará a Autoridade Palestina. Eles declararam guerra contra o Hamas e o povo de Gaza é a vítima desta situação.

Como o governo israelense se relaciona com a Autoridade Palestina ou o Hamas? Há uma falta de confiança. Dificilmente há qualquer cooperação entre israelenses, palestinos e a Autoridade Palestina. Só há alguma cooperação militar, porque ambos os lados entendem que o principal problema é a “fauda”, ​​a anarquia. Vamos recapitular. Em 2007, o Hamas entrou na Faixa de Gaza, por meio de uma revolução violenta. Eu me lembro de um cara do Hamas gritando: ‘nós vamos conquistar a Cisjordânia, vamos chegar a Ramallah’. Nesse ponto, o governo de Israel e a Autoridade Palestina entenderam que tinham que fazer um esforço comum para combater o Hamas. Mahmoud Abbas não é como Arafat. Arafat tinha sangue nas mãos, Mahmoud Abbas está lutando contra o terror, porque ele acredita que com terror não conseguirá um Estado palestino. Se você me perguntar se é ele quem vai olhar nos olhos de 6 milhões de palestinos na diáspora e dizer: "vocês não vão voltar para casa, esqueçam o 'direito de retorno'", não tenho certeza. "Mahmoud Abbas é o líder palestino com a coragem de liderar os palestinos para um Estado palestino?", não tenho certeza. Eu acho que não, mas, ainda assim, ele está lutando contra o terror. Nesse sentido, é uma pena que israelenses e palestinos não cooperem mais.

O ISIS está presente em Gaza? Nos últimos anos, encontramos centenas de apoiadores do ISIS em Gaza, mas o Hamas não permite que façam algo. O Hamas controla a faixa de Gaza de uma maneira muito forte. O ponto é que, às vezes - e isso aconteceu algumas vezes -, o Hamas permite que eles façam manifestações. De certo modo, essa é uma mensagem do Hamas para Israel: “Se você lutar contra nós, se quiser nos destruir, a alternativa será o ISIS, você pode escolher entre nós e o ISIS”. Mas é difícil encontrar apoiadores do ISIS tanto na Faixa de Gaza quanto na Cisjordânia.

Como é a elite econômica de Gaza? Quando se trata da destruição de Gaza, existe diferença no nível de destruição entre os bairros pobres e de áreas elitizadas? Houve uma guerra em 2014, entre Israel e Gaza. Foi a guerra mais longa desde 1948, uma operação de 51 dias. Israel começou a bombardear as áreas ricas da Faixa de Gaza. Sempre que você prejudica pessoas ricas, significa que você destrói a economia e é o que realmente gera um cessar fogo com o Hamas. A política israelense - e isso é interessante - cria essa divisão entre o terror e o dinheiro. Na Cisjordânia, se você quer viver uma vida decente, vão dizer para não se envolver com o terror. Mas se você trabalhar, operar com terrorismo etc, você terá um problema.

Então o Hamas está relacionado com a elite? Poderíamos dizer que a elite em Gaza, hoje, não a elite econômica, de certa forma é o Hamas. A elite econômica são os homens de negócios que ainda trabalham. Todos os dias, há 5 mil pessoas que saem de Gaza e podem entrar em Israel. A maioria dessas pessoas são empresários, importam, exportam, estão fazendo negócios juntos, há negócios.

Você vê algum futuro para a paz? Esta é uma pergunta muito problemática e a resposta é muito triste. Pessoalmente, não sou um cara otimista. A solução de dois estados ficou muito longe de nós por alguns motivos. Primeiro, porque há muitos elementos religiosos que entram nesse conflito em ambos os lados. Costumava ser um conflito entre duas organizações nacionais: o sionismo e a Organização Nacional Palestina. Agora existe uma linguagem de religião. De um lado, o Hamas, do outro lado, a sociedade israelense, que vê cada vez mais o conflito através dos olhos religiosos. Isso é muito perigoso e muito problemático. Nenhum conflito pode ser resolvido se você tiver esses elementos. Por outro lado, pessoalmente, não acho que, no final das contas, os palestinos desistiram do sonho da Palestina inteira. O “direito ao retorno” é o principal para eles. O que temos visto até hoje é o sistema educacional da nova geração prometendo que eles vão voltar para casa. Então, faz parte da vida deles a crença de que estão voltando para casa. Pode ser sob a lei israelense ou palestina, não importa. Esse sonho é o cerne do problema, porque não podemos encontrar nenhuma solução enquanto os palestinos falarem em “direito ao retorno”. Esta é a questão principal, eu acho.

O que significa viver em Gaza hoje? É a pior coisa. É uma coisa muito ruim. Não tenho certeza se há muitos lugares que enfrentam a mesma situação. Eu acho que o principal problema do cidadão comum em Gaza é que ele vive sob tantas lutas de poder, ele está no meio entre Israel, Hamas, Autoridade Palestina, ele não tem voz. E isso faz com que seja um desastre. As pessoas não saem de Gaza desde 2007, não se pode entrar em Israel, a menos que você esteja doente ou algo assim. É muito difícil ir para o exterior, o que acontece hoje em dia é que muitas pessoas tentam deixar Gaza, apenas para sair de lá. Na Turquia, por exemplo, há muitos palestinos da Faixa de Gaza. É tudo muito caro, as famílias tentam conseguir algum meio de vida fora de Gaza.

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