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As feridas autoinflingidas de Israel

Por Ronald S. Lauder Fonte NYTimes | Categoria: Política
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Novas casas móveis instaladas em fevereiro, em Amichai na Cisjordânia. Amichai é o primeiro assentamento sancionado pelo governo a ser construído em territórios palestinos em cerca de 25 anos. Foto: Ahmad Gharabli/Agence France-Presse — Getty Images

No momento em que o Estado de Israel se aproxima de seu 70º aniversário, encho-me de orgulho ao ver que o vulnerável estado judaico da minha infância se transformou na nação forte e próspera que é hoje.

Como presidente do Congresso Judaico Mundial (WJC, na sigla em inglês), acredito que Israel é parte central da identidade de todo judeu e sinto que o país é meu segundo lar. Hoje, contudo, temo pelo futuro da nação que tanto amo.

É verdade que o Exército Israelense é mais forte do que qualquer outro exército no Oriente Médio. E, sim, o vigor da economia israelense é mundialmente reconhecida: na China, na Índia e no Vale do Silício, a tecnologia, a inovação e o empreendedorismo de Israel são reverenciados.

No entanto, o estado democrático judaico enfrenta duas graves ameaças, as quais acredito que possam colocar em risco sua própria existência.

A primeira ameaça é o possível fim da solução de dois estados. Sou conservador e republicano e tenho apoiado o partido Likud desde a década de 1980. Mas a realidade é que 13 milhões de pessoas vivem entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo. E quase metade delas são palestinas.

Caso a tendência atual se mantenha, Israel terá que encarar uma dura escolha: conceder plenos direitos aos palestinos e deixar de ser um estado judaico ou revogar seus direitos e deixar de uma democracia.

Para evitar esses desdobramentos inaceitáveis, o único caminho é a solução de dois estados.

O presidente Trump e sua equipe estão totalmente comprometidos com a paz no Oriente Médio. Países árabes, como Egito, Jordânia, Arábia Saudita e Emirados Árabes, nunca estiveram tão próximos de Israel e, ao contrário do que dizem algumas reportagens, líderes palestinos me disseram pessoalmente que estão prontos para começar negociações diretas de imediato.

Porém alguns israelenses e palestinos estão defendendo iniciativas que ameaçam descarrilhar essa oportunidade.

O incitamento e a intransigência dos palestinos são destrutivos. Assim como são, no entanto, os planos de anexação, defendidos por aqueles à direita, e a ampla construção de assentamentos judeus além da linha de separação. Ao longo dos últimos anos, assentamentos continuaram a crescer na Cisjordânia em terras que, em qualquer acordo, provavelmente se tornarão parte do estado palestino. Tais políticas israelenses de visão estreita estão criando uma realidade de estado único irreversível.

A segunda ameaça, com duas facetas, é a capitulação a extremistas religiosos e a crescente insatisfação da diáspora judaica. A maioria dos judeus fora de Israel não são aceitos aos olhos dos israelenses ultra ortodoxos, que controlam a vida ritual e os locais sagrados no país. Sete dos oito milhões de judeus que vivem na América do Norte, na Europa, na América do Sul, na África e na Austrália são ortodoxos modernos, conservadores, reformistas ou seculares. Muitos passaram a sentir, especialmente nos últimos anos, que a nação que apoiaram politica, financeira e espiritualmente está lhes dando as costas.

Ao se submeter à pressão de uma minoria, o estado judaico está alienando um grande segmento do povo judeu. A crise é especialmente pronunciada entre as gerações mais jovens, que são, na maior parte, seculares. Um número cada vez maior de jovens judeus — em especial, nos Estados Unidos — estão se distanciando de Israel, cujas políticas se opõem aos seus valores. Os resultados não surpreendem: assimilação, alienação e uma grave erosão na afinidade da comunidade judaica mundial com a pátria judaica.

Na última década, visitei comunidades judaicas em mais de 40 países. Em cada uma delas, seus membros expressaram preocupação e ansiedade em relação ao futuro de Israel e sua relação com os judeus da diáspora.

Muitos judeus não ortodoxos, inclusive eu, sentimos que a disseminação de uma religiosidade imposta pelo estado está transformando uma nação liberal em uma nação semiteocrática. A vasta maioria dos judeus ao redor do mundo não aceitam a exclusão de mulheres em certas práticas religiosas, leis rígidas para a conversão e a proibição de rezas igualitárias no Muro das Lamentações. Estão consternados pela impressão de que Israel está abandonando a visão humanista de Theodor Herlz e assumindo um caráter que não condiz com seus próprios valores centrais nem com o espírito do século 21.

A liderança do mundo judeu sempre honra as escolhas feitas pelo eleitorado israelense e age de acordo com o governo democraticamente eleito de Israel. Também tenho plena consciência de que os israelenses estão nas linhas de frente, fazendo sacrifícios e arriscando suas próprias vidas todos os dias, para que judeus de todo mundo possam sobreviver e prosperar. Sinto-me para sempre em dívida com eles.

No entanto, às vezes, a lealdade exige que um amigo se manifeste e expresse uma verdade inconveniente. E a verdade é que o espectro da solução de estado único e a crescente distância entre Israel e a diáspora estão colocando em risco o futuro dopaís que tanto amo.

Estamos em uma encruzilhada. As escolhas que Israel fará nos próximos anos determinarão o destino do nosso único estado judaico e a continuidade da união entre nosso querido povo.

Precisamos mudar de rumo. Precisamos defender uma solução de dois estados e encontrar um consenso entre nós, para que possamos garantir o sucesso de nossa amada nação.

Ronald S. Lauder é presidente do Congresso Judaico Mundial.

Texto originalmente publicado no The New York Times

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