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"Analistas são unânimes em reconhecer que não há nada de novo no que foi apresentado"

| Categoria: Política
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O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, durante conferência em Tel Aviv, no dia 30/04/2018. AMIR COHEN/ REUTERS.

Na noite de segunda-feira, 30/04, Benjamin Netanyahu convocou a imprensa para um pronunciamento sobre a descoberta, por parte do serviço secreto israelense, de inúmeros documentos sobre o projeto nuclear iraniano. O primeiro-ministro tinha o intuito de provar que o Irã está mentindo em relação ao àquilo que é dito publicamente e que estaria violando o acordo nuclear. Convidamos o cientista político Samuel Feldberg para analisar o discurso de Bibi e seus possíveis impactos de curto e médio prazo. Feldberg é professor de Relações Internacionais da USP, Research Fellow do Centro Moshe Dayan da Universidade de Tel Aviv e do Israel Studies Institute da Universidade Brandeis.

IBI - Há alguma novidade no anúncio do primeiro ministro israelense sobre as revelações que comprovariam que o Irã não está cumprindo com a sua parte no acordo nuclear? Alguma descoberta ou prova que valha destacar?

SAMUEL FELDBERG - Todos os analistas respeitáveis são unanimes em reconhecer que não há nada de novo no que foi apresentado, a não ser o fato de que o material foi obtido pelo Mossad, o que em si é uma façanha. Mas já há inúmeras críticas à exposição da operação, que provavelmente terá um alto custo para as fontes iranianas utilizadas pelo Mossad. Os elementos apresentados por Netanyahu são todos conhecidos, foram a razão pela qual as sanções foram impostas ao Irã no passado e, em nenhum momento é mencionado algo referente à violação do atual acordo. Não é nenhuma surpresa o fato de que os iranianos tem desenvolvido mísseis de longo alcance, o que aliás não está contemplado no acordo.

IBI - Por que Bibi decidiu fazer esse anúncio publicamente? Por que agora?

SAMUEL FELDBERG - Certamente a iminência da decisão norteamericana sobre o acordo está contemplada, e não se descarta a importância do avanço das investigações sobre corrupção contra Netanyahu e a fragilidade de sua coalizão. Se forem convocadas novas eleições, a ameaça iraniana teria um peso significativo junto aos eleitores.

IBI - Quais os impactos que isso pode ter no curto e no médio prazo, especialmente no que se refere às relações entre Israel e Irã? 

SAMUEL FELDBERG - As relações entre Israel e o Irã não podem piorar muito, a não ser através de um enfrentamento direto.  Nas últimas semanas israel destruiu extensas instalações iranianas e arsenais de foguetes na Síria, matando dezenas de soldados e milicianos iranianos, por ora sem qualquer reação. Mas as forças israelenses no norte do país estão de prontidão e as representações israelenses e comunidades judaicas ao redor do mundo estão alertadas para a possibilidade de uma retaliação. Assim como em Buenos Aires na década de 1990, os iranianos podem levar o confronto aos alvos mais vulneráveis. Não descartar o Brasil, como a maioria prefere fazer.

IBI - O pronunciamento de Bibi ameaça o acordo nuclear entre Irã e as potências?

SAMUEL FELDBERG - Os europeus não se impressionaram e os Estados Unidos não veem nada de novo naquilo que foi apresentado. Se Trump decidir abandonar o acordo, é pouco provável que convença a França, Alemanha, Índia e China e, portanto, o impacto maior estará na restrição a empresas que hoje negociam com o Irã e terão que optar entre manter seus vínculos e continuar trabalhando com empresas americanas. Talvez a pressão norteamericana e o custo econômico de uma retomada das sanções seja suficiente para influenciar o governo iraniano, que enfrenta amplos protestos internos por conta de sua intervenção na Síria. Alguma modificação no acordo, com o acréscimo de algumas restrições e verificações poderiam permitir tanto a Trump quanto à liderança iraniana declararem que atingiram seus objetivos. 


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