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Análise - Recado para Abbas: negociações bilaterais ainda são a única alternativa possível

Por Samuel Nurding Fonte Bicom | Categoria: Política
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Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e Presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, em encontro na Casa Branca. (AFP Photo/Nicholas Kamm)

(texto originalmente publicado no Bicom)

Alguns comentadores descreveram como missão impossível a tarefa do presidente dos Estados Unidos Donald Trump de conseguir um  "acordo final" num momento em que os líderes de Israel, dos Estados Unidos e da Autoridade Palestina (AP) enfrentam dificuldades domésticas que reduzem ainda mais suas possibilidades de comprometimento e foco no tema em questão. Conquanto o resultado da viagem desta semana não esteja claro, uma coisa parece certa: os palestinos estão muito pessimistas quanto a que ela possa levar a algo substancial.
Em discussões com uma delegação do partido israelense Meretz, no final de semana passado, o presidente da AP, Mahmoud Abbas, falou de sua perplexidade ante o que os Estados Unidos estão efetivamente tentando conseguir, e chamou a administração Trump de caótica. Comparando esses comentários com a abordagem positiva de Abbas em maio, quando se referiu à "determinação" e ao “desejo” do presidente Trump de encontrar uma solução para o conflito, e à sua crença de que "podemos ser parceiros, parceiros de verdade, na obtenção de um histórico tratado de paz", é digno de nota que, num espaço de três meses, Abbas deu uma volta de 180 graus.
Esse pessimismo já tinha sido expresso pelos principais diplomatas de Abbas. Há duas semanas, o negociador-chefe, Saeb Erekat, foi citado por vária fontes palestinas como tendo descrito os atuais esforços dos Estados Unidos como "redundantes", uma vez que os palestinos "tinham perdido a confiança nos Estados Unidos como mediadores objetivos", enquanto ele, Erekat, incutia a ideia de retomar a estratégia da internacionalização ("Palestina 194"). Isso foi reiterado, alguns dias depois, pelo representante da OLP em Washington, Husam Zomlot, que advertiu que se os Estados Unidos fracassassem em deslanchar o processo de paz israelo-palestino, os palestinos voltariam a solicitar o reconhecimento de agências e instituições internacionais.
Se essas próximas conversações não conseguirem convencer os palestinos de que a equipe de Trump constitui um mediador confiável,  uma importante questão para Abbas, Erekat, Zomlot e cia passará a ser: em que medida o retorno à ideia de "Palestina 194" mudará a realidade concreta dos palestinos? E a que custo para a processo de paz e para suas relações com os Estados Unidos e com Israel?
O projeto Palestina 194 chegou ao seu ápice em 29 de novembro de 2012, quando a Assembleia-Geral da ONU elevou o status da AP para o de Estado observador não-membro. No entanto, conseguir aprovar essa medida em 2012, e juntar-se a uma série de organizações internacionais em 2014 e ao Tribunal Penal Internacional em 2015, pouco fez para mudar a realidade diária dos palestinos na Cisjordânia e em Gaza.
É muito improvável que a administração Trump aceite de bom grado a retomada pelos palestinos de sua estratégia Palestina 194. Juntar-se a novas entidades internacionais resultará provavelmente em imediatas sanções para a AP (por exemplo, depois que Abbas juntou-se à UNESCO, Israel suspendeu transferências financeiras para a AP, e os Estados Unidos suspenderam seu financiamento a essa organização da ONU). Até mesmo o Rei da Jordânia, Abdullah II, sinalizou a Abbas no início deste mês que não perturbasse os esforços de paz de Trump, os quais Abdullah mencionou como vitais para "o futuro da questão palestina". Além disso, a tentativa de obter formalmente o reconhecimento do Estado da Palestina pela ONU, por meio do Conselho de Segurança, terminaria muito provavelmente no veto dos Estados Unidos, extinguindo com isso a muito necessária boa vontade política com que Abbas ainda conta na administração, especialmente se ele for percebido como a parte que evitou que futuras conversações se materializassem.
Em segundo lugar, a estratégia de internacionalização tem sido mais efetiva como uma ameaça para que se volte às negociações, ou, do ponto de vista palestino, como meio para fortalecer sua posição nas negociações. Mas, tendo em vista a atual composição do governo de Israel e as personalidades da administração Trump, é improvável que as ameaças de internacionalização fortaleçam as probabilidades de uma renovação de negociações bilaterais.
Apesar das frustrações de Abbas com os Estados Unidos e a falta de progresso nas negociações bilaterais, sua opções estratégicas são limitadas. A reconciliação com o Hamas é cada vez menos provável; e a estratégia de internacionalização – apesar de sua aparente atratividade – tem uma capacidade limitada de fazer os palestinos avançarem na estrada que leva a um estado soberano. Um retorno à estratégia de "Palestina 194" pode fazer com que Abbas e seus assessores se sintam melhor, mas poderá destruir suas relações com a administração Trump e dar a Netanyahu um pretexto para, mais uma vez, descrever os palestinos como rejeicionistas. Apesar das frustrações de Abbas, parece que negociações bilaterais são a única alternativa possível.

Por Samuel Nurding, analista de pesquisa da BICOM e editor assistente da Fathom.



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