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2048: O ano que já começou

Por Daniela Kresch | Categoria: Política
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Daniela Kresch
Especial para o IBI

TEL AVIV – Tel Aviv, 2048. Os táxis sem motorista circulam pelas ruas repletas de arranha-céus e abarrotadas de pessoas. “Circulam” talvez seja uma palavra errada. Os carros autônomos avançam devagar em meio aos engarrafamentos sem fim entre a Avenida Ayalon e a praia. O Trem Leve (espécie de metrô meio subterrâneo/meio de superfície), recém inaugurado, não dá vazão à quantidade de gente a caminho do trabalho, já que 50% de todos os cargos disponíveis ficam na região central do país, a mais cara e que abriga as maiores empresas de tecnologia.

A quase 70km da costa, em Jerusalém, uma manifestação com meia dúzia de judeus seculares reclama do cancelamento das últimas vans que ainda levavam passageiros para Tel Aviv durante o Shabat (o sábado judaico), quando, pela religião judaica, não se pode andar de carro. Os seculares, antes um terço da população de Jerusalém, são hoje uma pequena minoria diante da maioria avassaladora de ultraortodoxos e árabes. Nos shopping-centers, as butiques exibem a moda de seus maiores públicos: mulheres religiosas (judias ou muçulmanas), que preferem vestidos longos com mangas compridas.

Os cenários refletem o possível futuro de Israel quando comemorar 100 anos. Segundo informações do Bureau Central de Estatística – o IBGE israelense – Israel de 2048 será um país demograficamente diferente do que completa 70 anos em 2018. Viverão no país 15,2 milhões, numa densidade de 800 pessoas por km², o que levará o centro do país a se tornar um formigueiro urbano.

Quando David Ben Gurion declarou a independência do país, em 14 de maio de 1948, viviam em Israel 806 mil cidadãos. Hoje, o número é 8,842 milhões (incluindo moradores de colônias israelenses na Cisjordânia). Desses, 6,5 milhões (74,5%) são judeus, 1,8 milhões são árabes (20,9%) e 404 mil (4,6%) são cristãos não-árabes e de outras religiões.

MAIOR AUMENTO: ULTRAORTODOXOS

Em 30 anos, o percentual da população árabe (muçulmana ou cristã) continuará como o de hoje: 21%  (a não ser que Israel anexe oficialmente a Cisjordânia e conceda aos palestinos cidadania ou que um acordo de paz redesenhe totalmente a região). Isso porque a taxa de natalidade da minoria árabe-israelense está caindo e se aproximando à dos judeus.

O maior câmbio entre os israelenses acontecerá dentro da própria maioria judaica, com um aumento dramático na quantidade de ultraortodoxos (judeus extremamente religiosos). O percentual aumentará de 11,5% em 2018 para 23% da população em 2048, fruto da alta natalidade dessa comunidade (as mulheres têm, em média, 7 filhos).

“O maior aumento será o da população ultraortodoxa”, corrobora o demógrafo Ahmad Halihal, do Bureau Central de Estatística. Se hoje, judeus seculares, tradicionais ou religiosos formam 68% da população do país, daqui a 30 anos esse percentual cairá para 58%.

A mudança demográfica deve preocupar principalmente um grupo da população – os seculares. “Acredito que haverá uma crise e uma fuga em massa”, disse o professor Arnon Soffer, da Universidade de Haifa, especialista em geoestratégia, ao jornal israelense Yedioth Aharonoth.

“A tendência é a de que os ultraortodoxos se unam aos religiosos-nacionalistas e os dois grupos, juntos, não deixem que as pessoas viagem no Shabat ou comam sushi de camarão. Os meus descendentes vão sair daqui porque eles não vão concordar em morar um país medieval. A esquerda liberal não apenas vai desaparecer: já desapareceu”, continuou Soffer.

O professor da Universidade de Haifa pode ser um pessimista. Mas há quem não seja tanto. Para outro acadêmico, Amiram Gonen, do Instituto Jerusalém de Pesquisa Política, os ultraortodoxos de 2048 vão ser diferentes: vão passsar um processo de “israelização”. Quase todos vão falar hebraico (hoje muitos falam só íidische), vão se identificar com o país e trabalhar em vez de apenas estudar a Torá.

DIVISÃO EM TRIBOS

De uma forma ou de outra, os israelenses certamente estarão mais divididos. Como disse recentemente o próprio presidente do país, Reuven Rivlin; “A sociedade israelense foi construída por uma grande maioria sionista secular ao lado dele três minorias: religiosa-sionista, árabe e ultraortodoxa. Essa imagem ficou congelada na cabeça da maioria do público israelense, da mídia e dos políticos, mas a realidade, enquanto isso, mudou. Os processos demográficos criaram uma nova ordem israelense”.

Trocando em miúdos, se, no passado, havia uma certa homogeneidade cultural, pelo menos entre a maioria judaica, com quase todos recebendo informações de fontes oficiais, ou de um único canal de TV, e cantando as mesmas músicas em festivais ou shows, hoje cada tribo vive em sua bolha. Pode ser que não sentem juntos para cantar em volta de uma fogueira, mas talvez possam conviver.

Ou não. O renomado futurólogo David Passig, autor do best-seller “2048”, acredita que processos complexos com esse podem levar a conflitos internos: “Prevejo uma guerra civil. Não quer dizer que vai explodir uma guerra real, mas certamente pode ser que haja mortos em manifestações ou confrontos entre distintos grupos”.

O confronto seria entre dois grupos que definem o judaísmo de formas distintas e, muitas vezes, contraditórias. Um vê o judaísmo como religião e alega que sem que Israel seja um país regido pela “halachá” (a lei religiosa judaica), não há motivo para a existência de um Estado judaico, O segundo vê no judaísmo uma nacionalidade e acredita que é preciso desenvolver uma nacionalidade israelense como base comum para todos os cidadãos do país, sem ligação com religião.

Não é á toa que, em uma pesquisa de opinião realizada pela Liga Antidifamação, 64% dos israelenses classificaram a sociedade israelense como “dividida” ou “muito dividida”. E 57% dos entrevistados afirmaram que Israel continuará a ser “dividida” ou “muito dividida” em 2048.

DEMOGRAFIA DO JORDÃO ATÉ O MAR

Quando o Bureau Central de Estatística fala de população israelense, ele se refere aos cidadãos do país – o que inclui os cerca de 600 mil pessoas que moram em comunidades (assentamentos) israelenses na Cisjordânia, bairros do lado Oriental de Jerusalém e nas Colinas de Golã.

Se foram contados todos os moradores do Rio Jordão até o Mar Mediterrâneo, ou seja, de Israel, Cisjordânia, Golã e Faixa de Gaza (quer dizer: todos os israelenses e palestinos), os percentuais demográficos mudam consideravelmente.

Nesse caso, alguns projetam que haverá maioria árabe, em 2048.  

Atualmente, o percentual é quase meio a meio. Segundo o Bureau Central palestino de Estatísticas, há hoje 2,9 milhões de palestinos na Cisjordânia, 1,9 milhão na Faixa de Gaza e 1,5 milhão de árabes-israelenses. Somando, seriam 6,3 milhões de árabes do Rio Jordão ao Mar Mediterrâneo. Os judeus são 6,5 milhões. Se há maioria judaica, é por pouco.

A esquerda israelense – que defende a criação de um Estado palestino ao lado de Israel – utiliza esses dados para convencer eleitores da necessidade de um acordo de paz. Afinal, se Israel continuar controlando territórios que os palestinos querem para criar seu próprio Estado, terá que lidar com uma divisão populacional que pode inviabilizar o Estado Judeu. Isso, claro, se quiser manter o caráter democrático do país, concedendo cidadania aos palestinos.

O ex-embaixador Yoram Ettinger, no entanto, acredita que é paranoia israelense a ideia de que, daqui a algumas décadas, haverá maioria árabe do Jordão ao Mediterrâneo: “Em contraste com a sabedoria demográfica convencional, o Estado judaico não enfrenta uma ‘bomba relógio’ demográfica árabe”, diz Ettinger.

Para ele, o primeiro motivo é a queda da taxa de natalidade das mulheres árabes (incluindo palestinas) de mais de 6 filhos em 1969 para pouco mais de 3,2 atualmente – equivalente ao número das mulheres judias (os palestinos, no entanto, afirmam que a taxa de natalidade é 4,1 na Cisjordânia e em Gaza). Fora isso, as mulheres árabes estão cada vez mais integradas no mercado de trabalho. Elas estudam até uma idade mais avançada, o que adia a idade dos matrimônios.

Outro motivo é a imigração de palestinos da Cisjordânia para outros países. Cerca de 20 mil palestinos deixam a Cisjordânia anualmente, segundo dados do embaixador Ettinger.

Mas as especulações de Ettinger não são compartilhadas por todos.  O Dr. Wahid Abd Al-Magid, editor do Relatório Estratégico Árabe Al-Ahram, prevê que os árabes podem se tornar uma maioria na região já em 2035, 13 anos antes do aniversário de 100 anos de Israel.

Independentemente de quem lê melhor sua bola de cristal (ou utiliza melhor os dados demográficos para fins políticos), uma coisa é certa quanto ao futuro demográfico de Israel: ele será desafiador e complicado, tanto dentro da sociedade judaica quanto no relacionamento entre judeus e árabes dentro do país e em toda a região.

Às vésperas dos 70 anos, a conclusão talvez seja que Israel precisa repensar e definir novamente quais são as suas motivações e propósitos enquanto nação antes de soprar 100 velinhas.

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