Noticias • "Vamos boicotar o Brasil por que o Bolsonaro é presidente?", questiona produtor musical em Israel

"Vamos boicotar o Brasil por que o Bolsonaro é presidente?", questiona produtor musical em Israel

Por Daniela Kresch | Categoria: Noticias
Whatsapp

TEL AVIV – O produtor musical paulista Daniel Ring, 36 anos, fez um pedido emocionado à comunidade brasileira em Israel, diante da campanha que ganha força contra a realização do show do cantor Milton Nascimento em Israel, no dia 30 de junho, parte da turnê “Clube da Esquina”: “O BDS começou uma campanha muito agressiva para que ele cancele o show aqui. Quem puder (…), pode mandar uma mensagem através da página do Facebook do Milton com uma mensagem bonita dizendo que gosta muito da música dele e que queremos vê-lo em Tel Aviv”, escreveu Ring na página “Brasileiros em Israel” do Facebook.

Ring sabia que a campanha do BDS estava por vir. Assim que sua produtora, a Octopulse, convidou Milton Nascimento para sua primeira apresentação de Israel, alertou à produção do cantor mineiro sobre as pressões e ameaças típicas do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções contra Israel. A pouco menos de um mês do show, no entanto, o tom da pressão começou a aumentar – como acontece antes de quase todos os shows dos principais artistas internacionais em Israel.

Daniel Ring afirma que a produção do cantor mineiro não cogita suspender o show, apesar da pressão e da preocupação. Em entrevista de vídeo exclusiva ao IBI (que será divulgada na íntegra nesta página em breve), ele contou que não teme um cancelamento, mas não escondeu a chateação com os métodos agressivos e o foco exclusivo do BDS com Israel: “Não é que eles querem promover o boicote a qualquer país que faça outras violações de Direitos Humanos. É muito focado em Israel”.

Antes mesmo de fechar o show e começar a divulgá-lo, Ring escreveu uma carta à produção de Milton Nascimento explicando exatamente o que ia acontecer: “Eu disse que havia 100% de chance de que haveria protestos de um grupo, do BDS, que iria escrever para eles... Vão fazer ameaças, vão usar de várias táticas, usar redes sociais. E realmente aconteceu. Ponderei que não faz o menor sentido. Então vamos boicotar o Brasil porque o Bolsonaro é presidente? Ou cancelar shows nos Estados Unidos porque não gostamos do Trump? As pessoas que vão no show não têm nada a ver com isso”.

Nos últimos dias, o BDS divulgou imagens com a hashtag #CancelaMiltonNascimento. Uma das imagens traz o texto: “Milton, a voz que vem do coração diz não ao apartheid! Não cante em Israel”.

Antes mesmo do início da campanha do BDS, um grupo de brasileiros em Israel – entre eles Ring – enviou um “abaixo-assinado” para Milton Nascimento agradecento por sua vinda a Israel. Segundo ele, o cantor mineiro leu e se emocionou: 

“Caro Milton Nascimento, esta é uma carta de agradecimento”, dizia a missiva. “Já estamos contando os dias para ouvir as músicas que embalaram diferentes momentos de nossa vida, fizeram parte da nossa formação, nossa vida no Brasil e mesmo aqui em Israel, nos inspirando, nos confortando, nos expandindo. Obrigado por ter aceitado esse convite e por ter nos incluído no seu coração de alguma forma”.

A carta falava também de política. “Há pouco tempo nos deixou uma linda voz (no sentido metáforico) que atuava incansavelmente em prol da paz, do diálogo, de construir pontes entre os lados do conflito – o grande escritor e ativista Amós Oz. A luta não tem descanso, nem nunca terá, mas para que ele possa descansar em paz, mais do que nunca, este país necessita de vozes que venham continuar a fazer soar a melodia da paz. Pois sentinela somos dos nossos irmãos que já se foram. Seja em Brumadinho, na Palestina ou aqui em Israel”.

Daniel Ring, que também é músico (ele toca cavaquinho) e faz parte dos grupos musicais Samba do Bom e Chorelê, já sofreu na pele os danos causados pela tentativa de boicote cultural de Israel, pelo BDS. Em 2018, sua produtora estava com tudo acordado para mais um show de Gilberto Gil em Israel, quando o cantor cancelou, dois meses antes. A alegação foi a de que alguns dos músicos da turnê “Refavela” tinham ficado com medo de ir a Israel por causa do conflito na fronteira entre o país e a Faixa de Gaza.

“A produtora, que estava trabalhando nesse projeto por muito tempo, teve bastante prejuízo. Eu até entendo porque, para quem vê de longe, cai bomba para cá, para lá”, diz Ring. “Mas tento explicar que há mais chance de morrer, ser sequestrado ou assaltado no Rio do que em Tel Aviv”.

A Octopulse, produtora de Ring, já trouxe a Israel artistas brasileiros como o violonista Yamandú Costa, o violinista Ricardo Hertz e as cantoras Verônica Ferriani a Mariene de Castro.

Inscreva-se