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Uma posse deprimente: Knesset faz juramento com plenário vazio

Por Daniela Kresch | Categoria: Noticias
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A posse dos novos membros do Knesset, o Parlamento em Jerusalém, nesta segunda-feira (16 de março) foi a mais esquisita e deprimente da História do país. É o que pensa a analista Tal Schneider, uma das pessoas que mais entendem os meandros da política israelense. O impasse na formação de um novo governo, que já dura um ano com três eleições, ficou ainda mais complicado com o advento do coronavírus (COVID-19), que tem causado pânico entre a população, com o fechamento das fronteiras, das escolas e a proibição de aglomerações com mais de 10 pessoas, entre outras orientações. 

O vírus tinha o potencial de ser o catalizador para a formação de um governo de união nacional entre o partido direitista Likud (com 36 das 120 cadeiras no Knesset), do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e a coligação de centro-esquerda Azul e Branco. Mas a verdade é que poucos acreditam nisso. Netanyahu tem certamente se beneficiado com aparições diárias na mídia para orientar o publico quanto aos passos contra a epidemia. Nada melhor para a sua imagem às vésperas de seu julgamento na Justiça por corrupção (que aconteceria nesta terça-feira, 17 de março, mas foi adiado). 

Netanyahu sugeriu a criação de um governo de união nacional na última quinta-feira (12) por causa do coronavírus. Ele está utilizando a histeria causada pelo vírus para pressionar os rivais do Azul e Branco a aceitarem formar um governo com o Likud partidos mais à direita aliados ao Likud?
Sabíamos que Netanyahu em algum momento diria que este não é o momento da política partidária. Ele diz que está pensando apenas na crise da saúde, mas obviamente é um passo político. Benny Gantz, líder do Azul e Branco, será o primeiro a tentar formar um novo governo, depois que conseguiram receber 61 recomendações dos partidos eleitos. Mas acho que Gantz e seu parceiro, Yair Lapid, estão plenamente conscientes da pressão. Eles não querem um governo de união nacional porque não confiam em Netanyahu, mas entendem que terão que promover essa opção para não serem taxados de únicos culpados quando não der certo. 

O que convencecia Gantz e seus parceiros a aceitarem uma coalizão com o Likud?
Se Netanyahu disser que está disposto a fazer uma rotação com Gantz como primeiro ministro em que ele seria o premiê primeiro por um período limitado de apenas seis a outro meses, provavelmente o Azul e Branco terá que concordar. Mas não vejo a possibilidade de Netanyahu sugerir isso. Ele provavelmente exigirá que seu bloco de direita (com partidos de extrema-direita e ultraortodoxos) permaneça unido e exigirá um ou dois anos como primeiro-ministro antes de passar o cargo para Gantz. E isso seria problemático para o Azul e Branco. Então, o jogo no momento é o “blame game”: quem consegue culpar mais o outro pela impasse político.

Você não vê o Azul e Branco aceitando uma coalizão nos moldes que o Netanyahu quer?
É um dilema. Seria uma grande quebra da promessa de campanha por parte deles. Poderia ser devastador para a imagem do Azul Branco. Por outro lado, por causa da crise do corona, acho que muitos israelenses poderiam perdoá-los. Quem sabe, dentro de um ano, o público nem se lembrará. 

Como será a posse, esta segunda-feira, dos novos membros do Knesset, eleitos no pleito de 2 de março? 
Ela será conduzida de uma maneira muito bizarra e estranha. Nunca vimos nada parecido. Os membros do Knesset farão seu juramento em três fases, em grupos de 40 parlamentares. Os membros das famílias foram solicitados a não comparecer à cerimônia e todas as partes cerimoniais usuais, shows de música e coquetéis, foram canceladas. Portanto, será tudo muito deprimente. Mas talvez seja justo, porque é a terceira vez em um ano algo que há uma posse, o que é muito problemático e uma vergonha para a política de Israel.

Nesse mesmo dia, o Azul e Branco quer votar a troca do presidente do Knesset. Como isso pode acontecer se é proibida a aglomeração de mais de 100 pessoas?
Realmente, para realizar essa votação, você precisa ter 120 pessoas no plenário. Como isso funcionaria, não tenho ideia. Tenho que lhe dizer que estamos entrando em mares nunca dantes navegados.

O vírus também influenciou o julgamento de Netanyahu, certo?
Sim. Pela lei, ele teria que estar presente na audiência de 17 de março, mesmo que não fosse obrigado a responder às acusações nesse. Mas a data foi adiada na madrugada desta segunda. Não fiquei surpresa com o anúncio do sistema judicial dizendo que todos os julgamentos foram adiados por causa do vírus.

Qual é, ao seu ver, a estratégia política de Netanyahu, neste momento?
Netanyahu que continuar no poder. Ele pode convocar uma quarta eleição enquanto ainda é primeiro-ministro interino. Por isso é que ainda tem moral para sugerir um governo de união nacional em seus moldes por causa da crise de saúde. Mas, ao meu ver, uma quarta eleição é uma das maiores opções. Netanyahu acha que poderá vencer esse quarto pleito ao mostrar ao público como o Gantz está disposto fazer uma aliança com a Lista Árabe Unida. Acha que os israelenses vão fugir do Azul e Branco por causa disso. Mas, para mim, não só é devastador ouvir essas observações racistas sobre cidadãos do país como acho que o público israelense demonstrou, depois de três eleições, que está disposto a trabalhar com os árabes. A Lista Unida ganha cada vez mais cadeiras. Em uma próxima eleição, pode até mesmo subir das 15 atuais para 17.

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