Noticias • Uma aposta insana

Uma aposta insana

Por Ari Shavit | Categoria: Noticias
Whatsapp
Vale do Jordão

Ao contrário de muitas pessoas boas, admiro Benjamin Netanyahu profundamente. Nossas visões de mundo são diferentes, mas acho que ele é um político excepcional e deixou o Estado de Israel mais forte. Também entendo porque ele quer a anexação agora. Netanyahu é um homem que conversa com a história. Ele sabe que a maior parte das suas conquistas é efêmera. E por causa disso, quer que a lembrança do seu governo nos anais da história israelense seja a de um líder que expandiu e estabeleceu as bordas do Estado. E o mapa de Trump é o seu trunfo para a posteridade. Vai garantir seu acesso ao panteão sionista. Através da anexação de cerca de um terço da Judeia e da Samaria, Netanyahu vai deixar sua marca na história do povo judeu.

Netanyahu reconhece que apenas o presidente Trump pode realizar o seu sonho. Ele também sabe que Trump pode acabar sendo relegado ao passado em novembro. Ele também acredita que um mundo preocupado com o coronavírus pode ter receio de tomar alguma ação frente ao passo que ele pretende dar. Esses três motivos puseram nele a sensação de que é agora ou nunca. Ou Israel anexa no verão de 2020, ou não terá anexação nunca. Nem legado. E não terá a fronteira de Netanyahu, que será a fronteira eterna de Israel. Mas Netanyahu está errado. Ele está enormemente errado. A anexação está sujeita a arruinar o seu legado e tirá-lo do grupo de grandes líderes dos anais da história israelense e colocá-lo no grupo dos líderes desqualificados.

O Primeiro-Ministro israelense nos proporcionou 11 anos de estabilidade estratégica e certa calma. Menos israelenses foram mortos durante seu governo do que em todo o resto da história moderna de Israel. Uma anexação precipitada pode tanto desestabilizar a Jordânia quanto levar os palestinos ao limite, o que poderia apagar essa grande conquista. E o mesmo vale para a paz conquistada com a maioria das nações árabes moderadas. Agora que o preço do petróleo está baixo, e a crise econômica no Oriente Médio é grave, não há como saber que tipo de repercussão a anexação teria. Mas não é difícil imaginar que ela poderia levar a muita pólvora, que queimará o legado positivo de Netanyahu: estabilidade, estabilidade e estabilidade.

Trump é realmente um amigo de Israel. Mas até os republicanos sabem que eles não vão controlar a Casa Branca para sempre. Portanto, Israel precisa, mais do que nunca, de um apoio bipartidário sólido nos Estados Unidos. Embarcar numa aventura com um presidente polêmico, cujo futuro está encoberto por uma neblina, é algo perigoso de se fazer. Anexação unilateral no atual momento resultará na perda do apoio que Israel ainda tem nos grupos democráticos. Também acarretará num distanciamento de muitos jovens americanos – judeus e não judeus. Anexação vai ruir nosso bem mais importante: o apoio americano. Resultará em Netanyahu entrar para a história como a pessoa que destruiu a aliança entre a Judeia e a Roma dos tempos modernos, e, consequentemente, como o homem que levou a Judeia à catástrofe.

O mundo está ostensivamente preocupado com o coronavírus. Dezenas de nações estão se recuperando e focadas em assuntos domésticos. Mas a pandemia global gerou uma crise sócio-econômica global, que por sua vez precipitou um terremoto nos valores morais. Ondas de indignação na América e na Europa. Centenas de milhões de pessoas que não estão dispostas a aceitar injustiças históricas, atos de racismo e violações no princípio de igualdade. Se no meio dessa ebulição global, Israel decidisse fazer algo que é visto (incorretamente) como uma injustiça histórica e um ato de racismo que atropela o princípio de igualdade, seria como dar um tiro no pé. Em horas, “Vidas Negras Importam” se tornaria “Vidas Palestinas Importam”. Dentro de dias veríamos slogans como “De Mineápolis à Nablus”. A aliança Trump-Netanyahu seria vista como uma aliança profana de brancos. A iniciativa sionista seria vista como uma iniciativa colonialista.

Israel será uma nova Rodésia. Netanyahu será o responsável por colocar Israel no lado errado da história, e indo contra o zeitgeist. Isso tudo pode não acontecer? Pode. Essas profecias sobre a anexação podem vir a se provar falsas, assim como as profecias sobre o coronavírus se provaram falsas? Podem. Mas um Estado não é um maço de dinheiro no bolso de um apostador num cassino em Las Vegas. Ninguém pode simplesmente apostar o futuro. A probabilidade desses cenários catastróficos acontecerem como consequência da anexação é muito alta – e força Netanyahu a parar. Imediatamente. Anexação em 2020 é uma aposta insana e inconsequente.


Texto publicado originalmente no jornal israelense Yedioth Ahronoth no dia 17 de junho de 2020.
Tradução: Amanda Hatzyrah.


NOTA DE ESCLARECIMENTO | Em 2016 e 2018, Ari Shavit foi acusado de ter praticado assédio sexual. O IBI não compactua com as atitudes praticadas por Shavit, que se retratou e pediu demissão do jornal onde trabalhava.

Inscreva-se