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“Tem havido uma banalização da banalização do Holocausto”, afirma coordenador geral do Museu do Holocausto

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Em entrevista ao IBI, Carlos Reiss diz que "falar sobre o Holocausto não é falar sobre o passado, é usar o passado para falar sobre presente e sobre o futuro"

Inegavelmente, o nazismo e o Holocausto escalaram no imaginário dentro do contexto político brasileiro atual. Analogias e comparações são importantes. Porém, devem ser feitas com critério. “O que a gente precisa entender é que fazer comparações entre fenômenos históricos não é um problema metodológico, pelo contrário, é necessário – é assim que a gente dá utilidade ao Holocausto. É diferente do que eu chamo de ‘vulgarização do Holocausto’, que é, aí sim, aquele tipo de analogia ou comparação que é maléfica, prejudicial ou simplesmente não contribui com a construção da memória”, afirma Carlos Reiss, Coordenador Geral do Museu do Holocausto, em Curitiba. Em entrevista ao IBI, ele explica seu conceito de banalização da banalização do Holocausto.

Confira os principais trechos.

A BANALIZAÇÃO DA BANALIZAÇÃO DO HOLOCAUSTO

Eu defendo um ponto de vista de que houve e tem havido uma “banalização da banalização do Holocausto”. O ato de comparar, por si só, está sendo visto como “banalizar”. Então, é como se o Holocausto estivesse em um pedestal mítico e não pudesse ser tocado, não pudesse ser evocado, pudesse ser apenas cerimonializado. E essa noção de que o Holocausto seja singular e que, por ser singular, é incomparável, é absurda.

A “banalização da banalização” significa a necessidade de discutirmos o conteúdo das analogias e não atacar as analogias pelo simples fato delas serem feitas. Comparar nem sempre é banalizar, pelo contrário, faz parte. Desbanalizar significa a gente se comportar de acordo com as lições que os historiadores, educadores, tiraram desse período.

É NECESSÁRIO COMPARAR FENÔMENOS HISTÓRICOS

O que a gente precisa entender é que fazer comparações entre fenômenos históricos não é um problema metodológico, pelo contrário, é necessário – é assim que a gente dá utilidade ao Holocausto.

É diferente do que eu chamo de “vulgarização do Holocausto”, que é, aí sim, aquele tipo de analogia ou comparação que é maléfica, prejudicial ou simplesmente não contribui com a construção da memória.

Analogias vulgares são desrespeitosas, ofensivas e até criminosas, mas existem analogias imprescindíveis.

Comparar é inerente ao processo de construção do conhecimento. E isso, infelizmente, não tem sido feito. Muitos grupos, inclusive grupos organizados, grupos judaicos e grupos não judaicos, têm se colocado publicamente no sentido de que a comparação é “impossível”, é “absurda”.

E a discussão acaba sendo desvirtuada. Ao invés de discutirmos o objeto, se discute a possibilidade e a legalidade, do ponto de vista científico, em se comparar.

Todo evento histórico é único, todo evento histórico é singular. E a gente cria arquétipos, cria modelos, justamente para poder comparar.

ARQUÉTIPOS COMO FERRAMENTAS

No momento de se comparar, no momento de se fazer analogias, o mais prudente é buscar um arquétipo, um modelo, e tentar encaixar isso que está acontecendo, isso que eu quero comparar, dentro dele. Só que, no caso do Holocausto, é como se a gente pulasse essa etapa. As comparações têm sido feitas diretamente entre os eventos históricos sem passar pelo arquétipo. E isso gera aberrações, gera problemas, gera dificuldades para a gente compreender.

Seria muito mais fácil se nós buscássemos comparar eventos históricos com o Holocausto a partir de um arquétipo – no caso, o genocídio, mas podem existir outros – e, aí sim, partir para outros genocídios concretos e fazer a comparação.

Tenho a convicção de que a gente precisa manter a coragem e a abertura para fazer as analogias, mas acho que até por uma questão de coerência e de metodologia, precisamos dar um passo atrás e buscar os arquétipos, os modelos. Porque é muito fácil comparar um pontinho aqui com um pontinho ali. A gente vai chamar o que aconteceu em Barbacena de Holocausto? Porque se comparam questões muito pontuais que realmente tem ligação, mas é dessa forma que a gente tem que comparar?

Comparações imediatas, sem passar por nenhum tipo de ferramenta metodológica, sempre vão gerar problemas, porque a gente sempre vai ter aquilo que é análogo e aquilo que não é análogo. E aí a discussão na arena pública vai ser sempre essa: “não tem nada a ver por isso” e “tem a ver por isso”. E pode ser que os dois lados estejam corretos, porque se pulou uma etapa metodológica e se buscou fazer comparações pontuais que podem fazer sentido “aqui” e podem não fazer sentido “ali”.

EZVAZIAMENTO DO CONCEITO DE GENOCÍDIO

Outro problema que nós, como pessoas envolvidas na construção da memória do Holocausto, precisamos resolver tem a ver justamente com a concepção, o uso e o entendimento daquilo que se refere por “genocídio”. Tenho uma hipótese de que houve um processo de “sequestro” intencional do conceito de genocídio para dentro do conceito de Holocausto. E isso gerou um esvaziamento. Assim, tudo aquilo que envolve ou deveria envolver os conceitos de genocídio foi incorporado por um evento histórico concreto.

Inclusive, na educação sobre a Shoá, muito pouco se fala – ou se falava, até pouco tempo – sobre genocídios. E aí juntando essa fixação talvez até um pouco doentia pelo nazismo, pela figura do Hitler, pelo ditador, isso fez com que o crescimento dessas analogias, dessas comparações, se tornasse visível.

COMPARAÇÕES PRECISAM SER FEITAS DENTRO DA ACADEMIA

Eu defendo que as comparações precisam ser feitas dentro da academia, porque é dali que vai sair a reflexão. Não dá para ficar discutindo isso no Twitter em meia dúzia de caracteres.

PASSADO, PRESENTE, FUTURO

Falar sobre o Holocausto não é falar sobre o passado, é usar o passado para falar sobre presente e sobre o futuro, e a gente só consegue fazer isso com critério e com ciência. Em um momento em que tanto se ataca ciência – não só a ciência do tubo de ensaio, a ciência da injeção, mas também as ciências sociais, também as ciências humanas – é preciso lidar com tudo isso em função desses critérios e dessa metodologia científica.

O PAPEL DO MUSEU DO HOLOCAUSTO

Se o Museu for se transformar em fiscal de narrativa sobre o Holocausto e o nazismo, a gente só vai fazer isso o dia inteiro. Porque entra nas redes sociais e é isso. A gente chegou num momento em que parece que anda um pouco em looping. Boa parte do que nós temos visto nos últimos tempos e que poderia gerar um texto ou algum tipo de posicionamento do Museu, já foi feito. Essa do caso da Prevent Sênior e do Mengele foi uma novidade que apareceu. Até então, no debate, não tinha existido uma ligação entre nazismo, Holocausto e o tratamento, com exceção das questões de passaporte de vacina, essas coisas que surgiram. Tanto é que o nome do Mengele vem à tona, e, desde o início da pandemia, não tinha vindo à tona, então chegou-se à necessidade de, como sempre a gente fez, “bom, vamos ver o que é que é relevante dentro dessa discussão”.

O que é relevante para o Museu e para a memória do Holocausto nessa discussão não é o tratamento em si, se o tratamento funciona, se o tratamento não funciona. O que é relevante para a memória do Holocausto tem a ver especificamente com o Código de Nuremberg e a Declaração de Helsinque, que estabeleceu diretrizes de ética em pesquisas com seres humanos.

Depois do Holocausto, nos julgamentos de Nuremberg, um deles, que ganhou certa relevância, foi o que ficou conhecido como o “julgamento dos médicos”. E ali foram descritas as experiências, o que se fazia. E quando a gente fala que o Holocausto é um divisor de águas na história da humanidade ou na história do século XX, um dos motivos é que a partir do Holocausto chegou-se à conclusão de uma necessidade imediata de se colocar limites naqueles que, até então, por deterem o saber, o conhecimento técnico, não tinham.

A bioética, as declarações e os códigos de ética ligados ao trabalho do cientista – não só do médico com o paciente, mas do cientista como um todo – é um legado do Holocausto. Hoje, ninguém faz pesquisa dentro da universidade – não importa a área, pode ser de humanas! – sem assinar alguma declaração ou algo que tenha a ver com as orientações éticas. Qualquer tipo de pesquisa, qualquer tipo de experimento que se diz científico e que é feito sem o consentimento do pesquisado ou do paciente está indo contra um dos principais legados do Holocausto, que é o código de Nuremberg. E se isso fere o Código de Nuremberg, isso fere o Museu do Holocausto de Curitiba.

O que o Museu pode falar sobre isso? Que se foi sem consentimento, “me machuca”, me machuca como instituição que lida com a memória do Holocausto. Por quê? Porque o fato de toda pesquisa científica depois do Holocausto precisar se pautar em princípios bioéticos ligados à autonomia, à justiça, à beneficência, é um legado fundamental criado a partir do Holocausto.

A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA

A memória não vem pronta. Ninguém entregou para a gente lá no final dos anos 40 a memória do Holocausto e falou “olha, agora tomem, cuidem e não deixem banalizar”. Não é assim que funciona. A memória é construída todo dia. E em determinados momentos, essa construção se torna conflituosa. Ela sempre é conflituosa, porque construir narrativas é sempre uma guerra mesmo, é sempre uma zona, todo mundo querendo se colocar como hegemônico.

A gente tem essa consciência: como está sendo construído o tempo inteiro, se em determinados pontos a gente não se coloca, ou não busca suporte em outras pessoas, em outras instituições para fortalecer a nossa voz, qual o risco? O risco é o de se construir uma memória do Holocausto que seja desvirtuada das lições que a gente quer.

COVERSA DE BOTECO

O Holocausto saiu do rodapé da página do livro de história do nono ano, da Segunda Guerra Mundial, para virar conversa de boteco. Por um lado, é bom porque nos mostra que estamos a caminho na construção do propósito de não esquecer. Mas, por outro lado, passou dos limites. Quando a gente vê, é a tal da vulgarização.


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