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"Rotatividade é uma boa opção, mas impasse pode continuar", afirma analista israelense

Por Daniela Kresch Fonte IBI | Categoria: Noticias
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Uma das mais importantes blogueira políticas de Israel, Tal Schneider não se lembra da última vez que Israel se encontrou em um imbroglio tão profundo. Ativa no Twitter com mais de 115 mil seguidores, Tal acredita que a primeira semana de outubro será fatídica, com o juramento dos novos parlamentares eleitos em 17 de setembro e a audiência do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu diante da promotoria pública.

Segundo a jornalista, Netanyahu – investigado em três casos de corrupção – será indiciado, mesmo que apenas por quebra de confiança. Tudo isso junto é como um terremoto político que leva a mais insegurança depois do resultado das eleições, que não deram vitória a ninguém. Abaixo, ela desfila os possíveis cenários e análises da situação, no momento.

Como está o clima em Israel em meio ao impasse político?
Tem estado bastante tenso em Israel, com uma eleição após outra. Nunca vimos nada parecido na história do país. O resultado da eleição é muito complicado. Analisando as eleições, acho que muitos dos israelenses apoiaram o Azul e Branco para impedir Netanyahu de seguir seu caminho em busca de imunidade política. Portanto, ambas as partes sabem que não têm como obter um governo sem o outro. Obviamente, Netanyahu, se não podemos dizer que perdeu a eleição, podemos dizer que definitivamente não venceu. Não é o resultado desejado que lhe permitirá conseguir imunidade.

Esse tipo de impasse aconteceu antes, não?
Sim, em 1984. Mas aconteceu de maneira um pouco diferente. Naquela época, o presidente Herzog, pai de Yitzhak Herzog, estava muito envolvido no processo. Foram tomadas medidas para unir as partes e ele também teve a ideia de compartilhar a posição de primeiro-ministro: dois anos para um e dois anos para o segundo. Esta é a razão pela qual todos os israelenses falam sobre a possibilidade de rotatividade.

É uma boa opção?
Um governo de unidade ou de rotatividade pode ser forte porque representa grande parte da sociedade, mas também é um governo fraco, porque cada partido quer divulgar à imprensa muitas histórias sobre o outro.  Portanto, esse impasse ainda pode continuar depois que o governo for formado. A pergunta é: quem será primeiro-ministro antes, caso a rotatividade aconteça. O Likud diz que Gantz não tem experiência. Que é melhor que ele seja vice-premiê por dois anos, aprenda um pouco de política e só então se torne primeiro-ministro. O problema é que há muita desconfiança entre Netanyahu e Gantz, ou, na verdade, entre Netanyahu e qualquer outro político. A maior desconfiança é que, se Netanyahu ocupar no posto pelos dois primeiros anos, ele poderá lançar mão de algum truque para dissolver o Knesset quando chegar a vez de Gantz.

Netanyahu tem chance de formar um governo que não seja de rotatividade com Gantz?
Ele tem o bloco 55 recomendações de parlamentares. O outro lado tem 54, que, na verdade, pode ser menos, porque a Lista Árabe Unida recomendou Gantz, mas disse que não vai entrar no governo. Portanto, Netanyahu tem a maior chance, apesar de suas chances serem muito baixas. Devemos ficar de olho em (Avigdor) Lieberman. Ele talvez quebre sua promessa e se junte a um governo do Likud.

Acredita nisso?
Para dizer a verdade, não vejo isso acontecendo. Penso que uma das razões pelas quais Lieberman realmente levou a uma segunda eleição é porque não queria entrar em um governo sob Netanyahu, então nada mudou que justifique uma mudança. Em sua campanha, ele repetiu que quer apenas um governo de unidade nacional com Likud, Azul e Branco e ele. Mas temos outros jogadores nesse jogo.

Quem?
Por exemplo o ministro do Interior Aryeh Deri, líder do Shas, o partido ultraortodoxo sefaradita, que saiu-se muito bem nas eleições, com nove cadeiras. Ele também carisma político e é muito pragmático e lógico. Um problema com Deri é que ele também está sob investigação, mesmo que ainda tenha um ano e meio pela frente até um indiciamento. Como ator político, ele pode fazer a diferença. Ainda não o vejo desempenhando o papel de moderador entre Likud e Azuel e Branco, conhecendo-o bem, acho que ele poderia ser o “adulto responsável” e desempenhar esse papel.

O que Yair Lapid, que concorreu ao lado de Gantz nas eleições, pensa de um possível governo de união nacional? Gantz prometeu a Lapid dividir com ele a posição de premiê, se o Azul e Branco vencesse. Mas caso haja um governo de rotatividade com Netanyahu, isso fica impossível…
Lapid é muito influente e é um político muito forte. Realmente, todo o sucesso do Azul e Branco foi graças aos ativistas do Há Futuro, o partido de Lapid, que se uniu ao Azul e Branco. Benny Gantz não poderia ter vencido essas eleições sem o trabalho do Há Futuro. Mas Lapid quer mesmo ser o ministro das Relações Exteriores. Como eu sei disso? Ele me disse, on the record. Esse é o primeiro objetivo dele. Mas Lapid vai estar por trás de tudo. Gantz é menos experiente. Lapid sabe jogar o jogo político.

Existe a possibilidade de o Azul e Branco se separar diante uma possível pressão de Netanyahu para atrair Gantz para um governo de união nacional sem Lapid e os outros membros da lista?
Pode ser que o Azul e o Branco seja frágil. Mas, dito isso, se não se separou em abril, por que faria isso agora, quando alcançou um resultado melhor do que antes? Esse grupo de pessoas conseguiu derrotar políticos veteranos com uma super infraestrutura. O Likud tem o apoio de um imenso grupo de prefeitos e ativistas. Acho que o Azul e Branco permanecerá unido, pelo menos no início do próximo Knesset. Não o vejo se dissolvendo quando ainda estão surfando na sensação e na atmosfera de vitória 

Se não houver um governo de união nacional e nem Netanyahu ou Gantz conseguirem formar uma coalizão, há alguma outra pessoa que pode despontar como próximo premiê?
Se nada funcionar, então, segundo a Lei Básica de Israel, 61 membros do Knesset podem procurar o presidente e indicar um primeiro-ministro. Por exemplo, digamos que parte do Likud entenda que Netanyahu não tem como formar um governo. Eles podem recomendar, por exemplo, o ministro do Exterior Israel Katz com apoio do Shas e do Lieberman. Mas, para que isso aconteça, é preciso que o Likud se divida internamente. Não vejo isso, no momento. For a isso, esse tipo de opção nunca aconteceu, mesmo sendo possível.

Será que Israel irá novamente às urnas, pela terceira vez, se nada der certo?
Não acho que vamos chegar a esse ponto, mas semana que vem será uma semana crucial em todo esse processo. Na quarta e na quinta-feira que vem (2 e 3 de outubro), vão acontecer as audiências de Netanyahu com a promotoria pública sobre as três acusações criminais que ele enfrenta. E, na quinta, também temos a inauguração do novo Knesset, o 22º. É verdade que o procurador-geral deve levar quatro, seis ou sete semanas para decidir por um indiciamento ou não. Mas tudo isso acontecendo junto é um terremoto político.

Deve haver um indiciamento?
O entendimento geral é sim. Mas pode ser que o promotor Avichai Mandelblitt decida indiciar Netanyahu só por quebra de confiança, não suborno. Aí Netanyahu sairá a público dizendo: “eu disse a vocês que não havia nada”. Mas, o primeiro-ministro Olmert foi preso por oito meses por quebra de confiança. 

Mas não há membros do Likud que só esperam a queda de Netanyahu para buscar a liderança do partido?   
Sim, mas parece que nenhum dos membros do Likud está disposto a sair contra Netanyahu agora. Ser o primeiro rebelde. Eles sabem que os ativistas do partido não vão gostar disso. Temem por seu futuro político. É um tipo de impasse interno. Ninguém está disposto a dizer o que pensa de verdade. Mas isso pode mudar se houver um governo de rotatividade e um indiciamento. Vai haver uma luta aberta sobre a herança no Likud. 

O apoio da Lista Árabe Unida a Gantz é mesmo uma revolução na política israelense?
Sim, é um evento histórico. Isso não acontece desde 1992, desde os dias de Yitzhak Rabin. Muitas pessoas comparam Gantz a Rabin por causa da semelhança física e das credenciais de ex-general do exército. O fato de que um grupo de 10 parlamentares árabes recomendaram o Azul e Branco – que tem três ex-generais na liderança, é simplesmente incrível. Foi muito difícil para eles fazer isso. Mesmo que não entrem numa coalizão, esse apoio pode ser transformado em benefícios caso Gantz seja primeiro-ministro. Pode haver mudanças orçamentárias em benefício às comunidades árabes em Israel, seu padrão de vida, infraestrutura e verba para educação. Portanto, nem tudo foi negativo nessas eleições. Há um lado positivo.     

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