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Parada gay de Tel Aviv é palco de vitórias, protestos e de divisões internas na comunidade LGBT de Israel

Por Daniela Kresch Fonte IBI | Categoria: Noticias
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Considerada uma das cidades mais “gay-friendly” do mundo, Tel Aviv encerrou nesta sexta-feira (14 de junho) sua anual Semana do Orgulho Gay com uma Parada que reuniu algo em torno de 250 mil pessoas (entre eles, 30 mil turistas que viajaram a Israel só para participar do evento, em sua 21ª edição). As principais ruas da cidade se enfeitaram com a bandeira colorida LGBT e milhares de pessoas – muitas enfeitadas, fantasiadas ou com acessórios coloridos – caminharam e dançaram por avenidas fechadas ao trânsito. 

A presença do ator americano Neil Patrick Harris (o Barney de “How I Met Your Mother”), sob o título de Embaixador do Orgulho Internacional em 2019, foi uma das atrações, além de artistas locais como o apresentador e ativista Assi Azar e a cantora Miri Messika. Mas, apesar da alegria e da festa na liberal Tel Aviv, que recentemente recebeu também o festival de música europeu Eurovision – sucesso entre a comunidade LGBT da Europa –, os homossexuais israelenses encaram desafios e divisões internas.

Para alguns, a Parada Gay tem um motivo a mais para celebrar, este ano: há poucos dias, Israel ganhou o seu primeiro ministro abertamente gay. O parlamentar Amir Ohana, um advogado de 43 anos, se tornou ministro da Justiça – mesmo que por pouco tempo, já que haverá novas eleições em 17 de setembro e um novo governo deve ser formado após o pleito. Defensor da causa gay no Knesset, o Parlamento em Jerusalém, Ohana – que compareceu à Parada – é comemorado por boa parte da comunidade LBGT local. Ele busca, por exemplo, que a lei de barriga de aluguel no país seja estendida também para casais do mesmo gênero.

Outra parte da comunidade, no entanto, não comemora tanto. Isso porque Ohana – que é pai, junto com o companheiro Alon, de um par de gêmeos concebido por barriga de aluguel nos EUA em 2015 – é do partido conservador Likud, do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Sua visão política, por exemplo, à contrária à criação de um Estado palestino. Foi um dos redatores da lei que definiu Israel como “Estado apenas dos judeus”. Um dos “favoritos” e maiores defensores de Netanyahu, não esconde que é a favor de uma lei que daria imunidade política ao primeiro-ministro, que está prestes a ser indiciado em três casos de corrupção.

“Ter atração por homens não significa que você acredite na criação de um Estado palestino”, disse Ohana, em 2015.

Como a maioria dos gays israelenses tende à esquerda no espectro político, muitos ficam confusos entre a alegria de ver um representante da comunidade LGBT à frente do Ministério da Justiça e a confusão quanto às ideias dele. Alguns acham que ele está sendo usado pelo Likud como um “disfarce” para atrair votos mais moderados da população. 

“Ohana fala em nome dos valores liberais, mas, na verdade, promove a política da mais extrema direita religiosa, que prega a anexação de assentamentos, a Lei da Nacionalidade e o enfraquecimento da Suprema Corte”, disse ao jornal Haaretz Rami Hod, diretor do Centro Educacional Berl Katznelson, afiliado ao movimento trabalhista. 

Nesse sentido, Ohana incorporaria o chamado “pinkwhasing” que Israel é acusado de promover ao demonstrar uma abertura incrível ao mundo LGBT com o objetivo único de esconder supostos crimes contra os palestinos.

Para outros, no entanto, Amir Ohana é uma prova de que ser homossexual em Israel, hoje, está se tornando cada vez mais normal, permeando diversos grupos. Ser gay não significa ter sempre as mesmas visões políticas. “Sair do armário”, atualmente, não é mais escandaloso e não rotula ninguém como direitista ou esquerdista. 

Atualmente, há cinco parlamentares abertamente gays no Knesset, entre eles Ohana. Os outros são Yitzik Shmuli, um dos líderes do Partido Trabalhista; Eitan Ginzburg, ex-prefeito de Raanana; Idan Roll, modelo e ativista gay, casado com o cantor Harel Skaat; e Yorai Lahav Hertzanu, ex-líder da joventude do partido Há Futuro. Esses últimos três foram eleitos pela coligação de centro-esquerda Azul e Branco.

Aliás, essa Parada Gay teve presença em massa da políticos, principalmente dos partidos de esquerda Meretz, Trabalhista e Azul e Branco. Todos tentavam abocanhar votos da comunidade LGBT e simpatizantes para as eleições de 17 de setembro. Empresas privadas também aproveitaram o evento para construir uma imagem mais liberal para seu público alvo – provando mais uma vez que essa facha da população se tornou cada vez mais importante em termos políticos e econômicos.

Em Israel, os homossexuais servem abertamente no exército. Muitas personalidades e artistas populares são gays. Casamento gay é proibido, mas pode-se registrar no Ministério do Interior, sem problema algum, casamentos do mesmo sexo realizados no exterior. O mesmo acontece no caso de barriga de aluguel. O processo é proibido para casais homossexuais (em geral, há restrições até mesmo para casais heterossexuais), mas pode-se registrar filhos nascidos no exterior. Apesar de avanços e vitórias, no entanto, a comunidade LGBT israelense enfrenta pre-conceitos e ameaças. 

Partidos judaicos ultraortodoxos, que exercem influência significativa no governo de direita de Netanyahu, há muito resistem à legislação que concede aos casais homossexuais o mesmo casamento e direitos dos não-gays. E casais do mesmo sexo são hostilizados em cidades mais conservadoras, principalmente Jerusalém. A Parada Gay na cidade é cercada por policiais, principalmente depois que Shira Banki, uma jovem de 16 anos, foi esfaqueada durante o evento, em 2015. Ela morreu em consequência do ataque.

Além das fronteiras de Israel, a comunidade LGBT enfrenta bem mais problemas, regionalmente. Entre os palestinos, ser gay é tabu e até mesmo ilegal. Homossexualidade é contra a lei na Faixa de Gaza, por exemplo. Muitos palestinos gays vivem em Israel para fugir de perseguições e da pressão social.


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