Noticias • Os 25 anos do acordo de paz entre Israel e Jordânia - uma paz fria, mas que ainda está de pé

Os 25 anos do acordo de paz entre Israel e Jordânia - uma paz fria, mas que ainda está de pé

Por Daniela Kresch | Categoria: Noticias
Whatsapp

Há 25 anos, em 26 de outubro de 1994, Israel e Jordânia assinavam um histórico acordo de paz. A Jordânia se tornou o segundo país a firmar um tratado com Israel (o primeiro havia sido o Egito, uma década e meia antes). Havia um certo otimismo no ar naquele meados de década de 90. Um ano antes, o primeiro-ministro de então, Yitzhak Rabin, havia assinado os Acordos de Oslo com o então líder palestino Yasser Arafat. Parecia que, depois de egípcios, jordanianos e palestinos, Israel tinha encontrado finalmente o seu local no Oriente Médio.

Mas, como se sabe, o futuro foi um tanto diferente. Os Acordos de Oslo nunca foram totalmente implementados. Rabin foi assassinado em 1995, Yasser Arafat levou os palestinos à Segunda Intifada e, nos últimos 20 anos, a solução de dois Estados para dois povos parece ter se tornado uma miragem.

Em meio a tudo isso, no entanto, o acordo de paz com a Jordânia continua de pé. Às vezes, por um fio. As tensões entre os dois países aumentam volta e meia. Crises diplomáticas levam alguns a especular sobre o futuro do relacionamento. Questões como o status de Jerusalém, o conflito com os palestinos e a animosidade da opinião pública jordaniana em relação a Israel parecem ameaçar o acordo. Recentemente, a prisão de dos cidadãos jordanianos em Israel levou Amã a chamar de volta seu embaixador em Tel Aviv. Com a transferência dos prisioneiros, um corte de relacionamento foi evitado.

Mas, apesar de tudo isso, o ex-diplomata Oded Eran e atual pesquisador do Instituto Nacional de Estudos de Segurança (INSS) acredita que os benefícios do acordo são muitos para os dois lados – apesar de manterem uma “paz fria” (ausência de guerra, mas sem o calor de uma verdadeira amizade). Ex-embaixador de Israel na Jordânia e na União Europeia, ele também atuou como chefe da equipe de negociações de Israel com os palestinos. Abaixo, trechos da entrevista de Oded Eran (produzida com ajuda da ONG Media Central):

Em que pé está o relacionamento entre Israel e Jordânia, hoje?
Está em um nível muito baixo. Não há um diálogo de alto nível entre os dois Estados há um bom tempo. Certas partes das relações continuam funcionando, principalmente na área de segurança, mas a impressão geral, em ambos os países, é a de existe uma paz fria”. Na Jordânia, há quase diariamente apelos de grupos da oposição para revogar o acordo, chamar o embaixador da Jordânia de volta e expulsar o embaixador de Israel de Amã. Não é muito animador, nesse sentido.

Recentemente, houve mais uma crise diplomática entre os dois países, certo?
Sim, por causa da detenção, em Israel, de dois cidadãos jordanianos e a prisão, na Jordânia, de um israelense que fugiu para lá. Além do fato de que dois enclaves que estavam em uso por Israel, segundo o Acordo de Paz de 1994, foram exigidos de volta pela Jordânia. Esses eventos são, de certa forma, simbólicos quanto às relações atuais entre os dois Estados.  

Que enclaves são esses?
A Acordo de Paz reconheceu a soberania jordaniana sobre dois pedaços de terra, mas os jordanianos aceitaram que eles fossem utilizados por Israel para fins agrícolas e estipulou que, em 25 anos, esse uso poderia ser estendido. Recentemente, os jordanianos preferiram não estender esse privilégio. (Trata-se do enclave de Tzofar, na parte Sul da fronteira (4.500 dunams), e o de Naharayim, na parte Norte da fronteira (1.100 dunams). Apesar dos esforços do governo israelense, os jordanianos não aceitaram continuar a deixar que agricultores israelenses trabalhem nessas terras.)

Existe o perigo de o acordo ser cancelado?
Eu sustento que os dois lados têm um interesse profundo e estratégico em manter as relações bilaterais porque ambos se beneficiam. A Jordânia se beneficia com o suprimento de água, uma questão importante hoje em dia devido à chegada de mais de 1 milhão de refugiados sírios ao país. Fora isso, a Jordânia em breve receberá gás natural de Israel, substituindo o gás egípcio, cujo fluxo foi interrompido por causa das atividades terroristas no Sinai. Fora isso, Israel ajuda na exportação de produtos da Jordânia para a Europa. Por causa da guerra na Síria, os portos de lá não estão mais disponíveis. Então, o porto de Haifa foi disponibilizado para os exportadores jordanianos. Existem outras formas e meios de cooperação, também. 

Imagino que Israel também se beneficie...
Sim. Israel se beneficia da estabilidade da Jordânia em uma região muito instável. O país é uma espécie de zona tampão entre Israel e certas partes da Síria e do Iraque. Isto é muito importante. Também há troca de informações, fornecimento de certos equipamentos e contatos regulares entre agências e inteligência militar. Toda a extensão da fronteira entre os dois Estados, incluindo a parte que se relaciona aos territórios palestinos, é uma fronteira tranquila com pouquíssimos incidentes. E isso se deve aos esforços dos dois lados.  As relações estão certamente em um nível muito frio, mas o interesse estratégico permanece como era em 1994.

 Isso pode mudar? Israel precisa se preocupar com o futuro do acordo?
Quando tivermos um novo governo, uma de suas principais tarefas deve ser a tentativa de retomar o diálogo entre os dois países no mais alto nível possível e discutir todas as questões da agenda para preservar as relações e implementar o que ainda não saiu do papel. Mas, mesmo em uma situação em que o acordo seja revogado, isso não quer dizer necessariamente uma ausência de cooperação. Tínhamos cooperação antes da assinatura do tratado, mesmo informal. Haverá maneiras de continuar certas partes da cooperação bilateral. 

A questão palestina influencia?
Penso que a frieza das relações é fruto da decepção de ambos os lados por promessas, de ambos os lados. Mas, certamente, a questão palestina é o elemento central. Não é segredo: algo entre 50% e 60% da população jordaniana é de origem palestina. Os jordanianos são muito sensíveis em relação ao que acontece no lado ocidental do Rio Jordão. Fora isso, quando escutam sobre as intenções de certos grupos de anexar partes da Cisjordânia, acreditam que é uma tentativa israelense de fazer da Jordânia a alternativa a um Estado palestino. E isso causa uma profunda preocupação. 

Qual é a perspectiva em relação ao futuro do relacionamento entre os dois países no contexto da estagnação da negociação com os palestinos?
Em 1994, os jordanianos negociaram a paz sabendo da existência dos Acordos de Oslo com os palestinos. Eles avaliaram que Oslo continuaria e levaria a criação de um Estado palestino. Infelizmente, Oslo está paralisado e minha avaliação é de que não há perspectivas de uma solução abrangente no futuro próximo. Isso não significa que os envolvidos com o conflito palestino-israelense devam ficar parados. Acho que, em vez de negociar uma solução abrangente, devem tentar obter progresso parcial, que acabará por levar à solução de dois Estados. Nesse contexto, as diferenças entre Israel e Jordânia devem ser resolvidas de maneira sóbria e séria.

 

 

 

 

 

 

 

Inscreva-se