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O fator evangélico: do uso de símbolos judaicos à influência na diplomacia

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Palestra de Thayane Fernandes. À mesa, Rodrigo Tinol e Mariusz Kalczewiak

HAIFA – A utilização de símbolos judaicos entre os evangélicos e a influência das igrejas neopentecostais na política externa brasileira foram os principais temas do segundo dia do seminário “Política e religião no Brasil e nas Américas: Igrejas evangélicas e suas relações com judaísmo, sionismo, Israel e comunidades judaicas”, promovido pela Universidade de Haifa, pelo Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes (Niej) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pelo Instituto Brasil Israel (IBI).

O seminário começou nesta segunda-feira (13 de janeiro) em Haifa, Norte de Israel, e reúne especialistas brasileiros e estrangeiros. No primeiro painel, o pastor Henrique Vieira, convidado especial do IBI, discorreu sobre o uso da memória de Israel no contexto do extremismo evangélico brasileiro.

“O segmento evangélico é muito complexo e multiforme, mas de fato existe um fundamentalismo evangélico crescente no Brasil”, disse o pastor. “É um fenômeno global, mas no Brasil, ele tem cada vez mais repercussão política e na vida das pessoas, se apropria da memória bíblica de Israel para justificar uma teologia fundamentalista, intolerante, de projeto de poder, de não respeito à democracia. Uma Israel imaginária acaba sendo utilizada, justificando uma teologia política violenta e anti-democrática”.

Outro convidado especial do IBI, o Dr. Omar Ribeiro Thomaz, da Unicamp, falou sobre a África com o tema “Moçambique, discreto e delicado: uma sinagoga em maio a guerras”. Para ele, é fundamental falar do relacionamento entre evangélicos e judeus em todo o mundo e também no Brasil: “Acho fundamental a gente enfrentar essa discussão das diferentes apropriações de Israel, de uma certa ideia de Israel e cotidianamente de uma série de símbolos ligados ao judaísmo. Nesse seminário, a gente está abrindo uma grande caixa para poder entender uma série de processos políticos, cotidianos, simbólicos, que se explicitaram nos últimos tempos no Brasil”.

Em painel moderado pela Dra. Batia Siebzehner, da Universidade Hebraica de Jerusalém, a Dra. Veronique Altglas, da Queen’s University de Belfast (Irlanda do Norte), falou sobre o “Exotismo religioso e allossemitismo na congregação messiânica”.  E o Dr. Gideon Elazar, da Universidade de Ariel, tocou na questão do “Sionismo cristão e o espaço sagrado na Samária”.

No segundo painel do dia, o professor Eran Shalev, da Universidade de Haifa, tocou no tema do evangelismo americano, afirmando, em seu painel “O Antigo e o Novo Israel: as origens culturais do relacionamento EUA-Israel”, que é preciso compreender o apoio do país a Israel em um contexto histórico e simbólico. Segundo ele, os EUA foram criados como uma “Nova Israel”. George Washington seria o novo Moisés, as 13 colônias a nova Canaã e os americanos, o novo “povo escolhido”.

“Até hoje, a narrativa do sonho americano é bíblica: liberdade, êxodo e terra prometida. O Efeito do Velho Testamento na imaginação dos americanos é enorme”, afirmou Shalev. “Mas, mesmo que os EUA tenham sido construídos à sombra do relato bíblico, isso não quer dizer que haja alguma curiosidade em relação aos judeus e ao Estado judaico moderno. A noção é a do passado, apenas, e não relacionado aos judeus atuais”.

O Dr. Glen Segell, da Universidade de Haifa, falou sobre por que o Brasil está, atualmente, apoiando Israel em resoluções nas Nações Unidas. Ele explicou que o Brasil passou por 3 fases nesse sentido, apesar de sempre ter apoiado a existência do Estado de Israel. Na primeira fase, marcada pelo papel do embaixador Oswaldo Aranha na resolução da Partilha da Palestina, o Brasil defendeu o direito de Israel existir.

A partir da década de 60, no entanto, o Brasil passou a defender a noção de dois Estados para dois povos e adotou uma posição mais pró-palestina em votações na ONU, não por causa dos resultados da Guerra dos Seis Dias (a ocupação israelense de territórios plestinos) e sim pela força econômica do bloco de países árabes.

“O Brasil não podia mais ignorar os países árabes, até porque precisava de seu petróleo, e passou a apoiar os palestinos. O Brasil também sentiu a necessidade de não estar alinhado aos EUA pelo mesmo motivo em meio à Guerra Fria”, disse Segell.

A terceira fase, segundo o professor, é a mais recente: o apoio total e aberto a Israel visto com clareza no governo Jair Bolsonaro. Isso acontece por causa do apoio evangélico a Israel, que influencia a política externa nacional. Ele lembra que o governo Bolsonaro também está se alinhando aos Estados Unidos em seus votos na ONU, o que não acontecia antes.

Em sua vez, o Dr. Joseph A. Edelhell, professor emérito de Estudos Religiosos e Judeus da Universidade de St Cloud (EUA), volrou à questão dos judeus messiânicos nos EUA e em Israel e as consequência desse fenômeno: “Meus amigos acadêmicos podem dizer que devemos aceitar essa realidade. Mas eu pergunto: o que isso nos vai custar? Judeus messiânicos estão usando seu apoio a Israel como plataforma para serem aceitos como ‘normais’ e líderes como Benjamin Netanyahu, Bolsonaro e Donald Trump os estão manipulando para ganhos políticos”.

O estudioso brasileiro Leonel Caraciki, da Universidade Ben Gurion, se mostrou preocupado com os efeitos do sionismo cristão no relacionamento entre os judeus brasileiros e Israel e entre os próprios judeus do país. Em sua palestra “Uma nova Teologia da Substituição? Sionismo cristão e como fator desestabilizante nas relações entre Israel e Diáspora”, ele discutiu a aparente substituição, por setores mais conservadores, dos judeus de esquerda por evangélicos como “sionistas reais”.

“Os evangélicos seriam os verdadeiros amigos de Israel. Para os judeus brasileiros mais religiosos e de direita, o judeu “light” é ambivalente, perigoso e traidor da causa sionista. Até parece uma espécie de antissemitismo”, disse Caraciki.

No terceiro painel do dia, o Dr. Guilherme Casarões, da FGV de São Paulo, falou, por videoconferência, sobre as raízes domésticas do transferência da embaixada para Jerusalém nos casos do Brasil e do Paraguai. Ele desfiou os motivos que fizeram o Paraguai mover sua embaixada para Jerusalém (o que foi revertido pouco tempo depois). Depois, explicou por que o Brasil, apesar da promessa de Bolsonaro a Netanyahu, hesita em fazer a mudança: a pressão do agronegócio (que precisa do mercado árabe), o temor de que o Brasil se torne alvo de terroristas e a tradição diplomática brasileira, que há 70 anos não reconhece Jerusalém como capital de Israel, que ainda é forte.

Casarões também falou sobre por que Netanyahu passou a cortejar líderes evangélicos brasileiros, tendência que se fortaleceu depois que o Brasil criticou duramente Israel durante o conflito com a Faixa de Gaza em 2014 e recusou as credenciais de Dani Dayan para ser o embaixador israelense em Brasília.

O Dr. Christian Dunker, da USP, escolheu o tema da Teologia da Prosperidade no contexto contemporâneo das igrejas evangélicas brasileiras. Ele usou o exemplo da Igreja Universal do Reino de Deus, que não esconde seu apreço pela simbologia judaica: “A Universal apreendeu elementos judaicos de maneira efusiva como nenhuma outra igreja evangélica. Atualmente, parece ser um simulacro de judaísmo, que provocou críticas de judeus ortodoxos”.

“Abordei especificamente o crescimento das religiões neopentecostais no Brasil e sua presença decisiva na política contemporânea e mais particularmente na erupção de um pensamento conservador, um pensamento regressivo que não foi previsto pelos analistas políticos”, disse Dunker, também um convidado especial do IBI.

No último painel do dia, Thayane Fernandes, da Universidade Federal de Pernambuco, contou sua experiência pesquisando uma igreja específica do Recife que justamente adota símbolos judaicos com um imaginário específico sobre judeus e Israel. Eles celebram shabat, Purim, Shavuot, Hanuká e outras festas, que chamam de “festividades bíblicas”. Usam kipá, talit e outras indumentárias judaicas, sem contar que enfeitam a igreja com menorás e bandeiras de Israel.

O relato de Thayane foi complementado pelo Dr. Rodrigo Toniol, da Unicamp, que também falou sobre o tema em sua palestra “Estética do Templo de Salomão: Transformações do pentecostalismo brasileiro”.

O seminário terminará nesta quarta-feira (15) com mais uma série de palestras e discussões.

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