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O conflito palestino e os profetas da obviedade

Por Michel Gherman e Omar Thomaz | Categoria: Noticias
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Há 70 anos, o Estado de Israel foi criado a partir de uma resolução da ONU que estabelecia a partilha da Palestina e declarava que o Estado judeu deveria surgir ao lado de um Estado árabe. A partir de então, percepções antagônicas decorrentes desse processo passaram a ganhar relevância e consolidaram-se de acordo com diversos interesses. Interesses políticos, econômicos e ideológicos. A disputa em torno do que efetivamente foi a partilha da Palestina produz, ainda hoje, polarização, estigmatização e debates inócuos ao invés de trazer reflexão séria sobre o que significou a divisão daquele território para as sociedades que ali vivem.

Poucos temas são tão interditados a perspectivas mais complexas e reflexivas do que o conflito palestino-israelense. Grupos defensores de lados opostos denunciam, acusam e defendem suas respectivas agendas encerrando qualquer debate mais sério e comprometido. A situação somente piora em momentos mais fortes de enfrentamento.

A cada nova escalada de violência entre israelenses e palestinos, interpretações acerca de suas causas e efeitos costumam responder a essa dinâmica. São nas fases agudas dos embates que surgem os “profetas” para “explicar” o que ocorre a partir de teses pré formatadas.

Nos tempos atuais, de bolhas de pensamento e polarização geral, tempos que exigem respostas simples claras e imediatas, a tarefa de explorar a complexidade dos fatos torna-se ainda mais difícil. As demandas por simplificações são, assim, tão mais dramáticas quanto mais complexos são os temas.

Exemplo emblemático são os choques no dia 14 de maio, data dos 70 anos da fundação do Estado de Israel, para os sionistas, ou Nakba, a tragédia para os palestinos. Os protestos na faixa de Gaza, próximo à fronteira com Israel coincidiram também com o momento da inauguração da embaixada americana em Jerusalém Ocidental. Não faltaram textos para indicar que o ocorrido teria relação com uma suposta “natureza do Estado de Israel”, com o nacionalismo judaico ou até, nos casos extremos, por supostas características inerentes ao povo judeu. Para isso, anacronicamente, recorre-se a textos publicados há mais de cem anos, como se houvesse ali uma espécie de “pecado original” que exercesse uma agência sobre o presente, estabelecendo continuidades em processos descontínuos.

Não são raras as oportunidades em que encontramos “especialistas” justificando, por exemplo, confrontos, políticas ou dilemas israelenses por um suposto sionismo herziliano. Como se o texto do jornalista austríaco, Theodor Herzl, pudesse dar sentido a qualquer questão vinculada ao sionismo e a Israel ou ao conflito palestino israelense. O desespero de um homem de seu tempo em conquistar a simpatia do mundo é usado para “revelar” a natureza imperialista do movimento nacional judaico. Alguma crise estoura? Lá vem Herzl como explicação. Esses “especialistas” , confortavelmente, se esquecem de citar as múltiplas correntes do sionismo. Citam Herzl e se esquecem de Borochov, sionista e socialista. Citam Herzl e ignoram Achad Haam, sionista culturalista, citam Herzl e apagam Martin Buber, sionista e humanista. Assim dão sentido a sua versão, falseando a história.

Mas, qual seria, efetivamente, o problema disso? Falta contexto. Falta contexto histórico, geográfico e político. Herzl aparece como solução mágica para colocar as coisas em “seu devido lugar”. Mas as coisas não encaixam: o nacionalismo judaico não se restringe a Herzl. Apesar de o sionismo ser um movimento nacionalista no plural, como qualquer outro, o conflito israelo-palestino passa a ser visto como um conflito de uma força contra outra: um certo sionismo contra um certo antissionismo. Aparecem argumentos de que bastaria, por exemplo, que os palestinos abrissem mão de sua demanda por um Estado ou, contrariamente, de que o Estado de Israel fosse desmantelado para que se resolvesse a questão.

Nada mais falso do que isso.

O sionismo é um movimento que tem correntes à direita e à esquerda, segmentos seculares e religiosos. Também o nacionalismo palestino é plural e diverso, com correntes à esquerda e à direita, segmentos religiosos e seculares. Ambos os movimentos surgiram não apenas na década de 1940, mas muito antes disso, e se consolidaram a partir de contradições e disputas internas que persistem ainda hoje.

Assim o conflito palestino-israelense deve ser visto a partir dessa complexidade. As situações só podem ser realmente compreendidas quando analisadas de forma ampla, e não apenas a partir de lógicas simplificadores, que tomam a parte pelo todo. Não é um texto de Theodor Herzl ou um citação do Corão que vão explicar as posições de israelenses e palestinos em um dos conflitos mais complexos da história recente.

Apenas análises mais profundas e menos doutrinarias podem dar conta disso. Essa deve ser a exigência dos leitores comprometidos com informação mais relevante.

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