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Mulheres em Israel - uma revolução interrompida?

Por Dahlia Scheindlin Fonte Fathom | Categoria: Noticias
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Mulheres trabalhando na pedreira do kibutz Ein-Harod, 1941

Durante uma única semana de junho passado, quatro mulheres foram assassinadas em Israel, todas alegadamente por pessoas que as conheciam. A violência provocou clamores, planos de manifestações e acusações de que o governo e as agências legais não protegem suficientemente a vida das mulheres. Os índices globais mostram que Israel tem uma taxa mais elevada de vítimas de homicídios como parte de todos os assassinatos, do que Paquistão, Indonésia, Irã, México e EUA, embora menores do que alguns países da Europa Ocidental.

Para um país que costumava orgulhar-se de avanços para as mulheres, e ainda se vê como um líder na região em relação aos direitos das mulheres, os incidentes são um desagradável lembrete de que nem tudo está bem.

Uma das imagens românticas mais populares dos primeiros anos de Israel foi um nível impressionante de igualdade de gênero para a época. Homens e mulheres bronzeados que trabalhavam juntos nos campos dos kibutzim irradiavam de fotos em preto e branco que circulavam por todo o mundo. O serviço militar das mulheres era um ponto de orgulho particular: tornava-as partícipes integrais no projeto da redenção nacional judaica, enquanto fazia de Israel uma sociedade de vanguarda. E os homens se divertiram com a sensualidade de "garotas com armas".

Em 2017, esses mitos encontram-se esvaziados de significado. A igualdade revolucionária foi suplantada por hierarquias de gênero geradas por uma guerra perene; em uma sociedade obcecada militarmente, o homem é o rei. Garotas com armas transformaram-se em adolescentes com grampeadores no filme Zero Motivation, que fez sucesso em 2014, sobre mulheres soldadas tão entediadas que lentamente se esgotam. Além disso, a principal fonte do mito da igualdade de gênero emergiu dos campos agrícolas e do serviço militar, arenas judaicas que deixaram completamente de fora as cidadãs árabes de Israel.

O mito da igualdade de gênero parece ter ficado para trás, da mesma forma que a noção ultrapassada de Israel como um valente David, vitorioso sobre um mar de Golias assustadores. Um artigo de opinião do New York Times de Michael Oren comemorando o quinquagésimo aniversário da Guerra dos Seis Dias, de junho de 2017, repetiu esse enredo grosseiro. Talvez não seja coincidência que o artigo tenha sido ilustrado com uma foto de mulheres soldadas tirada em ângulos sensuais, quase fetichizados - destacando a obsolescência de ambos.

ONDE ESTÃO AS MULHERES?

Atualmente, o número de mulheres na vida pública e social em Israel é pouco significativo, na melhor das hipóteses. Além disso, há pouco avanço feminino na política. Os dias de uma primeira-ministra mulher estão há muito esquecidos; mensagens feministas da liderança de Golda Meir foram ofuscadas pela memória de um desastre militar, a Guerra de Iom Kippur, em 1973. Até hoje, o domínio das questões de segurança confere autoridade; a FDI [Forças de Defesa de Israel] é, de longe, a instituição mais confiável em Israel entre os judeus, todos os anos. E como os homens predominam no mundo militar, os homens - particularmente os mais velhos - possuem um ar de autoridade e muitas vezes um senso de direito.

As mulheres representam apenas 27% do Knesset [Parlamento] israelense, e esse é um recorde. Na representação parlamentar, Israel se aproxima de Bolívia, Cuba, África do Sul, Espanha, Bielorrússia e Afeganistão, da média da OCDE e também do Reino Unido (embora ainda à frente dos EUA). Em relação ao número de ministros-chave e líderes municipais, o desempenho de Israel é ainda pior.

Como muitos países ocidentais, a força de trabalho de Israel é caracterizada por lacunas salariais de gênero. Isso não se deve apenas às mulheres que trabalham menos horas, mas refletem valores médios menores pagos por hora para o trabalho feminino e masculino - o que, por sua vez, reflete a sobre-representação das mulheres em empregos de baixa remuneração, de acordo com um relatório de 2014 do Centro Adva, um respeitado think tank. As lacunas são ainda maiores entre os níveis educacionais e gerenciais mais elevados em Israel. Mas o que realmente diferencia Israel dos outros países ocidentais que se deparam com tais lacunas é apresentado na primeira linha do relatório: "Há pouco debate público em Israel sobre as disparidades salariais entre homens e mulheres". Vale ressaltar que os debates que acontecem incluem “mansplaining” à exaustão. Um artigo em janeiro de 2018 no portal de direita Mida declarou categoricamente que as diferenças salariais são inexistentes, e o opor-se a elas é o verdadeiro chauvinismo. O escritor é um homem de 36 anos de idade, cujo perfil do Twitter afirma apenas "escrevo o que penso".

Além da política e da economia, as mulheres estão rotineiramente ausentes da cultura: painéis de notícias e conferências em que só há homens são comuns. Nem uma única mulher foi nomeada na lista recentemente publicada de vencedores do prestigiado Prêmio Emet 2017 para artes, ciências e cultura (nem árabes).

Em 2018, o papel simbólico das mulheres na causa nacional judaica (apenas) da construção do Estado tornou-se atrofiado em torno da maternidade. Certamente, em tempos de crise (embora não exclusivamente em crises), as mulheres são muito comumente retratadas como as mães e esposas preocupadas ou aflitas dos soldados - uma imagem e uma realidade que não se limita de forma alguma à direita. Alguns acreditam que Israel simbolicamente transformou as mulheres no reabastecedor do povo judeu, seguindo o passado. Shira Richter é uma ativista feminista (em suas palavras, uma "artivista feminista matricêntrica"); ela acredita que as mulheres em Israel são vistas como o baluarte contra futuras ameaças existenciais, em grande parte demográficas.

A veneração social da maternidade é reforçada por um apoio excepcionalmente generoso do Estado para a fertilização in vitro, incluindo subsídios a partir de idades em que as chances diminuem. As mulheres judias israelenses têm a maior taxa de fertilidade total na OCDE, incluindo aumentos moderados entre mulheres judias seculares - de modo que o crescimento não pode ser atribuído somente à influência estatística das taxas de natalidade religiosa e ultra-ortodoxa. Mães solteiras são cada vez mais aceitas mesmo entre os judeus religiosos. Embora seja louvável que as mulheres tenham mais opções e se tornem cada vez mais aceitas por suas escolhas, o reconhecimento social da maternidade ainda coloca uma carga sobre as mulheres que preferem seguir outras direções, ou as afasta de outros caminhos da vida.

As normas sociais não escritas da maternidade em Israel começam com a suposição de que todas as mulheres com cerca de 20 anos têm filhos e, se não, elas são consideradas envergonhadas e desesperadas, provavelmente na necessidade de conselhos não solicitados, dos homens.

POR QUE O FEMINISMO ISRAELENSE ESTAGNOU?

"Eu irei mais longe: estamos ficando para trás". Frances Raday me disse sem rodeios. Professora Emerita da Universidade Hebraica, Raday é uma estudiosa das leis especializada em direitos humanos e aspectos econômicos da igualdade de gênero em Israel e em todo o mundo, com foco na religião e no gênero. Na sua opinião, Israel não está apenas experimentando uma desaceleração natural do progresso no gênero. Ela traça as raízes do problema na tensão original entre a religião judaica e a democracia secular em Israel. Um compromisso fatídico nos primeiros dias de Estado deixou dimensões da vida pessoal - casamento, divórcio, incluindo custódia e pensão alimentícia, enterro e herança – nas mãos de autoridades judaicas rabínicas (ou instituições das outras religiões principais de Israel).

"Relegar mulheres às comunidades religiosas é um buraco negro enorme", diz ela, a respeito do progresso feminino desde os primeiros anos de Israel. "Prejudicou muitas das vitórias das mulheres. Eles vêem o direito das mulheres à igualdade como secundário perante todos os outros objetivos do Estado. Quem são "eles"? O Rabinato, certamente, mas é o governo eleito que impõe o que é conhecido como o "status quo". Raday acredita que a população - incluindo as mulheres - internalizou a noção de que a igualdade é menos importante do que outros objetivos nacionais. "Essa deferência para com o judaísmo religioso étnico em vez da autodeterminação dos judeus” é vista por ela como "mazela geral [que] absorveu os outros valores de justiça na sociedade e, principalmente, a igualdade".

Se Raday acha que a religiosidade étnica judaica plantou as sementes da desigualdade de gênero desde o início - Richter, a artista feminista, culpa a cultura em curso em torno do conflito militar ativo. Na sua opinião, as guerras são responsáveis pela discriminação física, emocional e material que as mulheres consideram como seu destino.

"Na maioria desses anos, tivemos a atitude do ‘cale a boca, estamos atirando’ [uma expressão bem conhecida em Israel]. Homens vão à guerra, e outros cinco anos de progresso vão para o ralo”. As razões são múltiplas, e começam com as mulheres preenchendo espaços enquanto os homens estão servindo. "É preciso atenção, tempo, energia, recursos. Mulheres perdem seus empregos... [ou] perdem dias no trabalho, não recebem compensação ou reconhecimento e, quando o homem chega em casa, ela o ajuda com seu trauma. A violência doméstica sempre aumenta durante as guerras”. De fato, um depoimento do Knesset em 2002 citou o fenômeno global que liga a guerra à violência doméstica, e as estatísticas durante a última Guerra de Gaza sustentam o ponto de Richter. Além disso, o machismo militar e a dominação religiosa desembocam nas crescentes tentativas de segregação de gênero em um exército cada vez mais religioso - eliminando até mesmo os vestígios da antiga imagem de igualdade nos meios militares.

Ainda assim, Israel tem, de fato, um passado feminista vibrante, que legou sucessos importantes. Os primeiros anos de Estado viram a criação de organizações de apoio às mulheres, como a Rede de Mulheres de Israel que está, agora, bem estabelecida. As mulheres têm sido proeminentes nos movimentos anti-guerra e anti-ocupação através de organizações como Women in Green, Four Mothers, Machsom Watch e, mais recentemente, Women Wage Peace. A legislação de assédio sexual de 1998 iniciou o longo caminho para aumentar a consciência acerca de um problema denso e generalizado. Ainda assim, Richter pensa que apenas recentemente a palavra "feminista" se tornou legítima - inclusive na visão das mulheres - o que, se for verdade, coloca Israel psicologicamente décadas atrás de seus homólogos americanos.

NOVAS VOZES

Se o espírito revolucionário do feminismo na sociedade israelense judaica dominante parece estar em perigo de estagnar, novas tendências estão emergindo com força em lugares surpreendentes. Por alguns anos, mais de metade dos estudantes árabes de ensino superior foram mulheres - chegando a 66% em 2015, de acordo com a Rede de Mulheres de Israel. Um relatório de 2015 do Ministério da Ciência, Tecnologia e Espaço observou que as meninas árabes se qualificam para o ensino médio em matemática, tecnologia, engenharia com taxas mais elevadas do que os meninos e estudam créditos adicionais de matemática e ciência a taxas mais elevadas do que as meninas judias, às vezes do que os meninos judeus. Elas estão participando de programas de treinamento profissional em taxas mais elevadas que os homens. Mulheres árabes têm elevado a consciência do problema da violência na sociedade árabe, muitas vezes dirigidas contra elas - aproximadamente metade das mulheres vítimas de assassinato são árabes - e lutando contra o assédio sexual cada vez mais através de campanhas públicas. O filme recente In Between é um retrato eletrizante dos dilemas enfrentados pelas mulheres árabes que habitam uma variedade de novos papéis; um forte contraste com o tédio das mulheres judias em Zero Motivation.

Outro lugar surpreendente de atividade é a comunidade Haredi - o mesmo grupo que mantém controle total sobre o Rabinato. Em um mundo conhecido por rígidos papéis de gênero e isolamento de instituições estatais (para além do sistema nacional de bem-estar social) e da sociedade em geral, as mulheres comumente trabalharam para sustentar as famílias nas quais o homem estuda a Torá. Mas, nos últimos anos, algumas mulheres Haredi têm avançado em campos mais profissionais: contabilidade, direito, arquitetura, alta tecnologia. Quinhentas mulheres empreendedoras Haredi se inscreveram para um setor de mulheres em um campus local perto de Mea Shearim, de acordo com um artigo de 2015, acima das 37 de apenas dois anos antes. Ali, também, mulheres estão se organizando para expor e conscientizar sobre o assédio sexual nesse mundo profundamente insular. O ativismo político está borbulhando e, em 2015, as mulheres Haredi formaram seu próprio partido político, que obteve poucos votos, mas muito burburinho.

E, dentro da sociedade mais ampla, tem havido algo como um discurso revivido que emana principalmente da mídia. O Women's Journalist Caucus foi formado em 2012, e um dos primeiros resultados foi expor os casos de assédio sexual entre as principais personalidades da mídia israelense. Em 2016, tantas mulheres revelaram publicamente casos de agressão sexual e assédio - no exército, na polícia, nos clubes, bares e tribunais - que eu escrevi sobre essas mulheres como a "História do Ano". E no final de 2017, é claro, a campanha #MeToo não passou despercebida em Israel, abrindo discussões poderosas sobre recalibrações há muito atrasadas nas relações de gênero.

Algumas dessas tendências ainda são incipientes. Não está claro se as mulheres são a vanguarda levando suas comunidades e instituições conservadoras a um momento transformador, ou parte de mudanças lentas, avançando. Mas talvez essas tendências mais novas tragam o impulso e o ativismo para a igualdade de gênero - muito necessários em todas as partes da sociedade israelense.


Artigo publicado originalmente na revista Fathom.

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