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Indiciamento e novas eleições? Entenda a maior crise política da história de Israel

Por Daniela Kresch | Categoria: Noticias
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Israel nunca enfrentou, em seus 71 anos, uma crise política tão aguda como a de agora. Pela primeira vez na História do país, nenhum candidato conseguiu costurar uma coalizão de governo depois de duas rodadas de eleições gerais. E a situação ficou ainda mais complicada com o indiciamento, anunciado nesta quinta-feira (21), do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. O país navega em águas desconhecidas.

Todos esperavam a decisão da promotoria quanto ao indiciamento de Netanyahu. Agora que ele foi formalmente indiciado, Netanyahu já avisou que se mantém no poder após 10 anos consecutivos (13, contando três anos como primeiro-ministro na década de 90). 

Netanyahu não é obrigado a renunciar por causa do indiciamento. Pela lei israelense, ele só deve deixar o cargo, obrigatoriamente, caso seja condenado. Até hoje, todos os políticos de alto escalão que foram indiciados deixaram seus cargos para enfrentarem a Justiça. O caso mais notório é o do ex-primeiro-ministro Ehud Olmert, que, antes mesmo do indiciamento, renunciou em 2009. Mas Netanyahu provou, mais uma vez, que pretende se manter no trono até quando puder. 

A partir desta quinta-feira, a decisão sobre o próximo governo é dos 120 membros do Knesset, o Parlamento em Jerusalem. Quer dizer: se 61 parlamentares decidirem indicar um primeiro-ministro – independentemente de partido ou bloco – podem fazê-lo. Eles têm 21 dias para isso, a contar de 21 de novembro.

Caso não haja maioria na indicação de um novo premiê, serão convocadsa eleições nos próximos 90 dias, provavelmente para fevereiro de 2020. Pela terceira vez em um ano, os eleitores israelenses irão às urnas. 

“Isso tem que acabar”, disse o presidente Reuven Rivlin ao anunciar o começo do prazo de 21 dias. “Nesse prazo, não sejam parte de blocos ou partidos, pensem por si mesmos sobre o que é melhor para o Estado de Israel”. 

"Se não decidirmos agora, o resultado da um terceira eleição será igual ao das duas anteriores. Ninguém quer novas eleições”, completou o presidente do Knesset, Yuli Edelstein (Likud). 

Poucos acreditam os parlamentares vão cruzar as linhas de seus partidos para indicar um novo primeiro-ministro que não Netanyahu ou o rival oposicionista Benny Gantz, líder da legenda de centro-esquerda Azul e Branco. Nem o indiciamente de Netanyahu deve mudar isso.  

Mas como chegamos a esse ponto? Depois das eleições de 9 de abril, o Likud e o Azul e Branco empataram com 35 cadeiras das 120 no Knesset cada um. Todos imaginavam que Netanyahu estava com a faca e o queijo na mão para conseguir formar uma coalizão com 61 cadeiras (maioria) e continuar no poder. Mas aí entrou em cena um personagem sempre polêmico na política nacional: Avigdor Lieberman, 61 anos.  

O ex-ministro da Defesa e ex-chanceler Avigdor Lieberman, um dos mais veteranos e complexos políticos do país, decidiu se tornar um obstáculo. Seu partido, o Israel Beitenu (Israel Nossa Casa), identificado com a direita israelense (principalmente em questões de política externa e relação com os palestinos), com sua bancada de 5 cadeiras, seria uma aliança fácil para Netanyahu. Com o Israel Beitenu, o bloco de direita teria 65 assentos. Número ótimo para um governo.

Mas o imigrante da Moldávia, com seu jeitão de “durão”e seu sotaque russo, decidiu fazer exigências para entrar na coalizão - principalmente em relação a leis seculares que desagradam outros aliados de Netanyahu, os ultraortodoxos. 

Netanyahu não gostou e não cedeu. Com apenas 60 cadeiras, não havia governo. O resultado foi a convocação de novas eleições para 17 de setembro, o que não solucionou nada. Novamente, Lieberman se tornou o fiel da balança, para a formação de um governo com Netanyahu na liderança ou um governo (33 cadeiras) ou o Azul e Branco (32). Sem o Israel Beitenu, que se fortaleceu e recebeu 10 cadeiras por peitar Netanyahu, nenhum dos dois consegueria ter maioria para formar uma coalizão.

Foi exatamente o que aconteceu. Primeiro, Netanyahu tentou. Depois, foi a vez de Benny Gantz. Nada. Agora, pela primeira vez, Israel entra nesse período de 21 dias em que o Knesset tem que decidir por si só o que fazer.  

É claro que o profundo impasse político não é culpa apenas de Lieberman. É resultado da intransigência dos outros líderes, que não aceitam abrir mão de promessas de campanha em prol de um consenso – e, na verdade, nutrem picuinhas pessoais. A expressão mais usada desde abril é “governo de união nacional”. A ideia seria a de que a grande maioria dos eleitores votou em um dos dois grandes partidos – Likud e Azul e Branco –, então o melhor resultado seria que esses dois partidos se unissem  para formar um governo mais amplo e centrado, deixando de lado partidos menores e mais extremistas (de direita ou esquerda). 

Fácil não? Não em Israel. Assim que os resultados das eleições de setembro foram divulgados, Benjamin Netanyahu se reuniu com seus aliados da extrema-direita e os ultraortodoxos para formar um “bloco” de direita que negociaria uma coalizão juntamente com o Likud. Essa aliança impossibilitou qualquer negociação com o Azul e Branco. 

Por outro lado, o Azul e Branco não aceitou cogitar uma aliança com o Likud na qual Netanyahu seria primeiro-ministro em rotação com Benny Gantz. A ideia – o chamado “Esboço do presidente” – seria a de que Netanyahu lideraria o governo de união nacional no primeiro ano, depois Gantz seria o primeiro-ministro por dois anos e Netanyahu voltaria para o quarto ano. Mas parceiros de Gantz no Azul e Branco não aceitam essa sugestão (que, na verdade, não parecer ser muito real).  

Alguns não que aceitam ver Netanyahu novamente no poder, apesar de aceitarem uma aliança com o Likud. Outros criticam o tal bloco de direita do Likud, que impede qualquer negociação séria.

O resultado é esse impasse, do qual Lieberman se aproveita para tentar ganhar mais poder político no caso – cada vez mais possível - de uma terceira eleição. A o pergunta é se mais uma votação não levará novamente ao mesmo impasse. Até que alguém pense “fora da caixa”, a paralisação política vai continuar. Israel seguirá sem uma liderança clara.  

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