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"Ideia de que o Holocausto é um fenômeno incomparável contribui para sua mitificação", afirma coordenador do Museu do Holocausto

Por Amanda Hatzyrah | Categoria: Noticias
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No último sábado, 13, o IBI convidou especialistas para debater online o perigo de se banalizar toda e qualquer comparação ao nazismo. A discussão girou em torno da pergunta: como, quando e quem pode falar sobre nazismo hoje? Os convidados buscaram responder se a própria ideia de banalização do nazismo estaria, ela mesma, sendo banalizada. Além disso, refletiram sobre como o trabalho de educação sobre o Holocausto através da construção de uma memória coletiva e do seu legado de valores éticos e humanistas, pode se aliar à luta antirracista.

Durante a conversa, mediada pelo colaborador do IBI, Daniel Gerstler, especialista em Direito Penal Econômico pela FGV, os convidados relembraram que a História é uma ciência comparativa por excelência e que em meio a alusões ao nazismo feitas por membros do atual governo, desde o slogan de campanha do presidente Jair Bolsonaro, até o discurso do chanceler brasileiro comparando o isolamento social a campos de concentração, a memória do holocausto nos serve de alerta aos sinais de autoritarismo na política brasileira contemporânea.

Carlos Reiss, educador e coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba, começou sua fala ressaltando a importância de se construir a memória da Shoá no presente, sendo necessário desmistificar a ideia de que o Holocausto é um fenômeno histórico incomparável e intocável, pois isso contribui para sua sacralização e mitificação. O educador preferiu chamar a banalização do tema de “vulgarização” e também lembrou que passamos agora por uma fase de transição, em que não se ouvirá mais o testemunho direto dos próprios sobreviventes, tornando crucial pensar o que se espera da educação do Holocausto para as próximas gerações.

Karina Iguelka, psicanalista e especialista na área de educação do Holocausto, refletiu a partir de um trecho do prólogo de É isto um homem?, de Primo Levi, a importância de tratar coletivamente questões do trauma individual, já que não se pode falar em nome dos sobreviventes do Holocausto, mas sim a partir do que aprendemos com os seus testemunhos. “O que a gente herdou dos sobreviventes é a responsabilidade de seguir uma ética humana que foi totalmente corrompida em Auschwitz. (...) A gente herdou o dever de não ser cúmplice da desumanização e de nenhum genocídio (...) e de gritar quando a gente vê a banalização da Shoá.” A psicanalista também disse que é preciso acabar com a ideia de que quem é judeu pode falar a verdade sobre o Holocausto ou tem o direito de falar pelas testemunhas.

Celso Zilbovicius, professor de saúde coletiva na USP e também especialista na área de educação do Holocausto, contribuiu para o debate dizendo ser necessária a universalização da memória da Shoá considerando o que está acontecendo nesse momento no país, que passa por uma crise sanitária, econômica e política sem precedentes. “Nesse momento, a lembrança e a memória da Shoá e do nazismo estão nos alertando como sempre estiveram. (...) Que nós avisemos e eduquemos para esse alerta.” No entanto, o professor também chamou a atenção para os discursos que se apoderam de forma vulgar da memória coletiva do nazismo para usos políticos, como o que acontece por parte do governo Bolsonaro. Nesse sentido, disse ser necessário também atentarmos para a linguagem utilizada para se referir ao nazismo e às alusões a regimes totalitários no Brasil de hoje, já que a negação da realidade através da linguagem construída no processo político não é inocente, explicou referenciando a filósofa Hannah Arendt.

Michel Gherman, professor de História na UFF, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da UFRJ e Diretor Acadêmico do IBI, foi o debatedor convidado. Tomando como base as falas dos palestrantes, propôs pensar que vivemos um momento de “dessignificação”: “A tese [do bolsonarismo] está clara, e é desconstruir as narrativas consolidadas no mundo pós-holocausto”, incluindo os ideais de “Direitos Humanos” e “democracia”. O professor também afirmou que há no país uma dificuldade na compreensão do conceito de genocídio e da negação da Ciência, que levaram à impossibilidade de se reconhecer, por exemplo, as vítimas de Covid-19 como vítimas, “A Covid se torna aliado e não algo a ser combatido. (...) Morre quem tem que morrer.” Também fez um apelo para que se compreenda o nazismo não a partir do espetáculo da morte que o fenômeno produziu, mas a partir do nazismo que começava a surgir na década de 1920, com o fascismo na Itália. “Só houve Auschwitz porque houve silêncio (...) Só houve Auschwitz porque ninguém percebeu que o que era dito podia virar prática.”

O debate se encerrou com reflexões sobre a importância de se preparar melhor os educadores para transmissão de valores éticos a partir da construção da memória coletiva da Shoá, e da necessidade de aliar esses esforços cada vez mais à luta antirracista e pelas minorias. A socióloga e política brasileira, Marielle Franco, assassinada em março de 2018, foi lembrada, “Marielle simboliza ‘Auschwitz nunca mais’. Porque Auschwitz simboliza ‘racismo nunca mais’.”

Para aqueles que perderam o debate, é possível assistir ao vídeo na íntegra no canal do YouTube do Instituto Brasil-Israel através do link: http://shorturl.at/elS02

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