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IBINews 2014: Mais perguntas que respostas

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O ministro da Saúde Nitzan Horowitz (dir), e o diretor-geral do ministério Nachman Ash, em coletiva de imprensa sobre igualdade para barriga de aluguel. (Tomer Neuberg/FLASH90)

No dia 4 de janeiro, Israel suspendeu as restrições que impediam casais gays, homens solteiros e transgêneros de se tornarem pais por meio da surrogacia (“barriga de aluguel”), cumprindo assim uma decisão da Suprema Corte do país.

“Hoje, estamos pondo fim a anos de injustiça e discriminação. Todos têm direito à paternidade”, disse o Ministro da Saúde, Nitzan Horowitz, o segundo membro abertamente gay do parlamento israelense.

Até então, o recurso era acessível apenas a casais heterossexuais e mulheres solteiras com problemas de fertilidade, tendo se transformado em uma bandeira do movimento LGBTQIA+ israelense.

As reações, porém, não foram unânimes. Muitas entidades e coletivos saudaram a decisão, enquanto vários outros a questionaram.

Ainda que reconheçam a importância de não haver nenhum tipo de discriminação, alguns grupos feministas se opõem à “barriga de aluguel” de maneira geral. No centro da polêmica, estão os prejuízos a pessoas com útero que esta forma de reprodução pode trazer. Trata-se de um debate presente em todos os cantos do mundo, e também em Israel.

Em nota, o Gaavah, coletivo judaico LGBTQIA+ do IBI, escreveu:

“A surrogacia é, para muites, vista como uma conquista para paternidades e maternidades de casais LGBTQIA+, mas traz a mercantilização de corpos com útero – especificamente de mulheres em situação de vulnerabilidade. A tradição judaica nos traz o valor de 'Kol Israel Arevim Ze la Ze' que nos ensina a responsabilidade que temos uns com outres; e 'Avadim Ayinu' de que não devemos permitir qualquer opressão a outras pessoas”.

Continua a nota: 

"As mulheres aptas ao processo de 'barriga de aluguel', na maior parte das vezes, são submetidas a tratamentos hormonais que não são adequados para sua saúde, além de submeterem seus corpos a situações de violência e serem muitas vezes, coagidas a fazerem procedimentos agressivos como o parto antecipado, ou até mesmo o aborto de um dos bebês caso sejam gêmeos. É questionável dizer que essas mulheres agem por livre escolha quando na verdade, muitas se submetem a essa situação por necessidade financeira, sem saber, muitas vezes, ao que estão de fato se submetendo, física e psicologicamente. Depois do procedimento, muitas se vêem mais vulneráveis do que anteriormente”.

Este debate foi o tema do podcast “E eu com isso?”, apresentado por Anita Efraim e Amanda Hatzyrah, que contou com as participações de Márcio Albino, jornalista, gay, educador social de HIV/Aids no Grupo Dignidade, e Elisa Tetelbom, mulher judia, lésbica, médica gineco-obstetra e mãe da Sofia.

Diz Elisa: "Algumas feministas defendem que é um direito da mulher 'se vender', e que se ela quer 'se vender' vai ser para quem ela quiser, homens gays ou casais heterossexuais. Mas eu acho que não dá para deixar de olhar para as mulheres que são vítimas desse processo”.

Elisa destaca que dados mostram que, em Israel, os casais e mulheres solteiras contratantes têm mais educação e mais renda do que as mulheres contratadas. E a maior parte das mulheres contratadas afirma estar fazendo isso por uma questão financeira.

"Se é direito da mulher vender o seu corpo e ajudar a trazer uma vida ao mundo, por que só as pobres o exercem? Por que não tem rica fazendo isso?", pergunta.

Marcio Albino, por sua vez, chamou a atenção para os estigmas lançados contra Israel por setores progressistas por meio da acusação de "pinkwashing" ("lavagem de rosa"), quando o assunto envolve a comunidade LGBTQIA+, coisa que se viu nos comentários das páginas de quase todos os jornais brasileiros que noticiaram o assunto.

“Singularizou-se Israel na discussão de pinkwashing. Isso ignora uma série de questões", pontua. Entre elas, a de que as conquistas LGBTQIA+ em Israel não vem do Estado. "As conquistas vêm porque existe um movimento LGBTQIA+ que pressiona o governo o tempo todo", afirma.

Além disso, Márcio lembra que a realidade LGBTQIA+ no Oriente Médio não é nem um pouco boa.

"A gente vê ali casos de violência estatal, institucional, que é enorme. E eu me pergunto: que nome a gente dá pra isso? Que nome a gente dá para o fato de que essas violências estatais que envolvem pena de morte são ignoradas? Por que o ativismo LGBT insiste em não falar sobre isso?", questiona.

Como se vê, há mais perguntas que respostas, e este debate importa.


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Lockdown voluntário: Com a chegada da variante Ômicron, Israel tem registrado recordes diários de casos de Covid-19. O lockdown é uma medida desprezada pelo premiê Naftali Bennett, mas com os casos aumentando exponencialmente, a própria população parece aderir a uma reclusão voluntária: os engarrafamentos caíram 35%, shoppings e restaurantes estão mais vazios, gerando fechamento informal da economia e colocando Bennett em uma “saia justa”. Este foi o tema do artigo de Daniela Kresch, nesta semana. Leia. 

Confiança árabe: Uma pesquisa realizada anualmente pelo Instituto de Democracia de Israel identificou um aumento na confiança da população árabe nas instituições do Estado. A confiança no governo subiu de 14%, em 2020, para 28%, em 2021. E 36% disseram confiar nas Forças de Defesa, ante 17,5%  em 2020. Uma possível razão para esse aumento é que agora o partido islâmico Ra'am integra a coalizão. Leia. 

Um caso de espionagem: No Expresso Israel, as jornalistas Isabella Marzolla e Daniela Kresch, correspondente em Tel Aviv, falaram sobre um caso de espionagem de um agente iraniano que se passava por judeu e usava perfis falsos na internet. Através de catfishing, ele convencia mulheres israelenses a cumprirem “missões” em troca de dinheiro. O caso ganhou as manchetes de todo o país. Assista.

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