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"Depois das eleições, estamos basicamente no mesmo ponto de antes", diz Maoz Rosenthal

Por Daniela Kresch Fonte IBI | Categoria: Noticias
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Para o Dr. Maoz Rosenthal, da Escola Lauder de Governança, Diplomacia e Estratégia do Instituto Interdisciplinar de Herzelyia (IDC), os resultados preliminares da terceira rodada de eleições parlamentares em Israel (2 de março) novamente levam a um impasse na política nacional. Ele aponta duas possibilidades mais prováveis, caso os resultados oficiais das eleições confirmem que o bloco da direita recebeu 59 cadeiras no Knesset, menos do que o mínimo de 61 para formar um governo. A primeira seira uma nova votação em alguns meses – a quarta desde abril de 2019. A segunda seria que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu consiga atrair dois parlamentares do bloco de esquerda para o seu lado. Abaixo, ele explica essas opções e outras:

O que os resultados, até agora, sugerem?
Os resultados não são claros, mas sabemos duas coisas: uma que o Likud conseguiu uma grande vitória, a maior vitória desde 2003, quando ganhou 38 cadeiras. Mas, por outro lado, também sabemos que as coisas são não claras em termos de coalizão e a maioria necessária de 61 cadeiras. Até o fim da apuração, poderemos ver uma vitória estreita do bloco de direita liderado pelo Likud ou um impasse como o que tivemos nas duas últimas rodadas, o que é, a propósito, o resultado mais provável. Esses dois resultados contraditórios fazem parte do nosso sistema político: por um lado, você tem partidos competindo; por outro, precisa de uma coalizão majoritária a fim de receber a aprovação do Knesset para iniciar o governo.

Como o Likud conseguiu esse aumento de cadeiras tão dramático (32 para 36) em comparação com as eleições de setembro de 2019?
Por causa de sua campanha política. Podemos ver aqui o poder de uma boa campanha. Sair às ruas, falar com os eleitores, participar de atividades constantes, certificar-se de que as pessoas que potencialmente o apoiam vão votar em você e não tenham qualquer motivo para não comparecer e votar. É algo que o Likud fez e, por uma razão pouco clara, o Azul e Branco não.

O Azul e Branco perdeu, ao que parece, uma cadeira (33 para 32). Foi porque não saiu às ruas?
Ele ainda conseguiu um bom número, na verdade. Mas foi capaz de fazê-lo não porque conseguiu eleitores da direita, mas fazendo “canibalismo” de eleitores da esquerda, principalmente da coligação Meretz-Partido Trabalhista-Guesher. Também teve a questão da “Fifth Dimension”, a empresa na qual o líder do Azul e Branco, Benny Gantz, trabalhou. Vazou uma gravação que afetou a maneira como o público percebe o Gantz. Alguém que trabalhou como ele disse que ele é covarde e incompetente. Isso pode ter feito o partido perder de 30 a 50 mil votos. E quando as coisas estão apertadas, isso afeta.

Mas vazou também uma gravação contra o Netanyahu...
É verdade. Houve também a gravação de um dos assessores mais próximos de Netanyahu, falando em tom condescendente contra os principais apoiadores do Likud, a população judia não-ashkenazita. Mas isso não é novidade. Todas sabem o que o Likud realmente pensa sobre esses eleitores.

Netanyahu conseguirá formar uma coalizão, desta vez?
Não sei. Estamos basicamente no mesmo ponto em que estávamos nas duas últimas rodadas. A principal diferença agora é o fato de que temos um primeiro-ministro que vai enfrentar um julgamento a partir de 17 de março. Temos um primeiro-ministro que será julgado como réu em uma ação criminal apresentada pelo Estado que esse primeiro-ministro lidera. 

Dado isso, ele vai conseguir apoio para uma coalizão?
É claro que os “suspeitos comuns” de fazer parte da coalizão Netanyahu são os religiosos ultraortodoxos e a extrema-direta. No caso de Avigdor Lieberman (do partido ultranacionalista Israel Nossa Casa), ele seria bem-vindo por suas posições políticas, mas, aparentemente Lieberman está jogando um jogo diferente. Ele continua dizendo que não entrará em uma coalizão com o Likud enquanto Netanyahu lidera o partido. Mas, por outro lado, também diz que não quer ir para a quarta rodada de eleições. Não está certo como agirá.

O que o senhor aponta como sendo mais provável, dado que o bloco de direita conseguiu, provavelmente, 59 cadeiras no Knesset? Precisa de pelo menos mais duas...
Pois é. Fala-se sobre o Likud conseguir desertores no Azul e Branco que deem a ele essas duas cadeiras. O Azul e Branco é uma combinação de três partidos: um do centro-esquerda, o Yesh Atid (Há Futuro); um partido do centro, o Chossen (Resiliência); e um tipo de centro-direita, o Telem (abreviação de Movimento Nacional Governamental). O Telem pode desertar, desbaratando o Azul e Branco e dando maioria à coalizão do Likud. Existem duas pessoas que provavelmente está no alvo do Likud: os parlamentares Yoaz Hendel e Tzvi Houser, do Telem.

Por que eles aceitariam desertar?
Eles não gostam do Netanyahu, mas trabalharam com ele por algum tempo. São basicamente “likudniks”. Eu posso vê-los fazendo essa manobra. Se você perguntar a Houser e a Hendel, eles dirão que não estão felizes com a possibilidade de criação de um Estado palestino, como previsto pelo “Acordo do Século”, do presidente americano Donald Trump. Se você perguntar ao pessoal do Yesh Atid, elas dirão que apoiam isso. Se o plano de Trump estiver sobre a mesa, isso dará incentivos políticos muito fortes para esses parlamentares do Telem desertem para o Likud e trabalhem dentro do Likud para garantir que só a parte do plano que interessa a eles – a anexação de assentamentos israelenses na Cisjordânia – seja implementada. 

O que aconteceria com o Azul e Branco, nesse caso?
A história política de Israel não é muito gentil com partidos de centro. Temos essa experiência desde 1965. A cada par de rodadas eleitorais, um partido de centro foi formado e, a longo prazo, se dissolveu e desmoronou. Parte de seus integrantes foi para a direita. Outra, para a esquerda. E muitos simplesmente deixaram a política. Então, a julgar pela História, o Azul e Branco pode sumir.

Há outros possíveis desertores?
Sim, o partido Guesher (Ponte), que está na coligação de esquerda com o Avodá (Trabalhistas) e o Meretz. Trata-se de um partido totalmente independente e sua líder, Orly Levy, pode decidir se unir ao Likud. A principal razão é o temor de mais uma eleição. Como a coligação recebeu só seis cadeiras, um super fracasso, ela teme ficar de fora do Knesset em uma próxima. Desertando, ela faria parte do governo, parte da coalizão dominante. 

Se essas deserções não ocorrerem e o Lieberman não se unir à coalizão do Likud, pode haver uma 4ª eleição?
É uma opção. O sistema político israelense é muito flexível, talvez flexível demais, e permite isso. Até porque não há uma vitória muito clara para nenhum dos lados e estamos praticamente na mesma situação de antes.

Quais as surpresas dessas eleições?
A maior é o fortalecimento dos partidos ultraortodoxos, principalmente o Shas (de ultrarreligiosos sefaraditas). Há um problema enorme sobre o qual as pessoas têm falado cada vez menos: como lidar com a população ultraortodoxa. A Suprema Corte deixou muito claro que o atual plano de alistamento militar dessa população é inaceitável e inconstitucional e exigiu que o governo elabore um plano diferente. Na verdade, o governo de Netanyahu de 2018 entrou em colapso por causa dessa questão específica. Lieberman, como ministro da Defesa, apresentou seu plano e o governo basicamente o rejeitou. Essa foi uma das principais crises que levaram ao colapso da coalizão que sobreviveu de 2015 até 2018. 

A Lista Unida, da minoria árabe, também aumentou seu poder, certo?
Ao que parece, sim. Essa é outra questão importante, assim como o relacionamento com os palestinos, principalmente como o Hamas. No caso do Hamas, Likud e Azul e Branco estão de acordo. Apoiam algum tipo de combinação entre negociar com o Hamas, mas também usar força contra ele. Isso poderia ser base para uma coalizão entre Likud e Azul e Branco. Mas não vejo isso acontecendo.

O senhor acredita que Netanyahu pode abrir mão do cargo por causa do seu julgamento? Isso abriria caminho para uma coalizão com o Lieberman e com o Azul e Branco, assegurando um governo estável.
Realmente, há possíveis sucessores no Likud, mas a maior parte deles têm sido muito leal a Netanyahu, mesmo que não gostem dele. Eles entendem que os membros do Likud são extremamente leais a Netanyahu. A opção de que Netanyahu seja forçado a sair é altamente improvável. Se ele deixar de ser líder do Likud, será porque decidiu fazê-lo sozinho. Em termos do julgamento, legalmente ele pode ser primeiro ministro enquanto é indiciado. Ele pode mandar seus advogados em seu lugar na maior parte dos procedimentos. Enfim, não vejo ninguém substituindo Netanyahu no Likud, neste momento.

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