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Confrontos com Gaza e teorias conspiratórias

Por Daniela Kresch | Categoria: Noticias
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Alguns jornalistas estrangeiros foram rápidos no gatilho ao identificar motivos políticos no mais recente confronto entre Israel e os palestinos da Faixa de Gaza, que começou na terça-feira (11 de novembro). Esse novo ciclo de ataques e contra-ataques foi motivado pelo assassinato seletivo de um líder do grupo radical palestino Jihad Islâmica, que revidou lançando mais de 400 foguetes contra o Sul e o Centro de Israel.

 “O timing do ataque que matou o comandante da Jihad Islâmica Baha al-Ata em Gaza parece perfeito demais para ser uma coincidência”, escreveu a repórter Bel Trew, do jornal britânico “Independent”.

 A correspondente acredita que, mesmo baseando-se apenas em inteligência, a incursão militar pode ter salvado a carreira política do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. For a isso, para Trew, foi muito suspeito que a eliminação de al-Ata tenha acontecido justamente horas depois de o parlamentar direitista Naftali Bennett ter se tornaado Ministro da Defesa. Teria acontecido propositadamente para mostrar a que Bennet veio e reforçar a imagem de Netanyahu como “Sr. Segurança”.

O mesmo acredita o analista da CNN em Israel, Oren Liebermann. Para ele, o grande “vencedor” desse conflito seria Netanyahu: “Se a decisão de matar o líder militante Baha Abu Al-Ata foi tomada ou não com considerações políticas em mente, ficou claro que as consequências políticas parecem ser a favor de Netanyahu. Poucos em Israel questionam a intenção por trás da operação, mas o timing tem sido muito debatido, escreveu Liebermann.

Não é difícil se render ao cinismo e até mesmo a teorias conspiratórias quando se trata de ações militares. Muitos tendem a buscar as motivações políticas na ânsia de explicar os fatos por um viés inteligente” e “lógico”. Afinal, não é possível que a mente genial” de um político veterano como Netanyahu não esteja por trás de tudo.

Consideremos, no entanto, que isso nem sempre seja verdade. Os militares israelenses certamente obedecem à cúpula política, mas, diferentemente da simplicidade dessa afirmação, influenciam muito nas decisões e têm uma boa pitada de independência. Ao que tudo indica, foram as próprias forças de segurança que identificaram Baha al-Ata como um líder da Jihad Islâmica perigoso, que, pessoalmente, estaria envolvido em diversas ações terroristas contra Israel.

Foram os militares que levaram o assunto ao Gabinete de Segurança (que reúne a liderança política e militar do país). E, depois de muita deliberação, receberam o aval de Netanyahu para eliminá-lo.

O momento do ataque aéreo, no entanto, foi decidido não pelo primeiro-ministro e sim pelos militares que estavam de tocaia e perceberam que, naquela madrugada, al-Ata estava em uma casa só com a esposa – algo bastante incomum. Ele não passava mais do que duas noites em um só lugar e fazia questão de estar sempre com civis – principalmente crianças – no mesmo recinto ou casa. Sabia que, assim, estaria mais a salvo de ataques israelenses.

No momento em que os olheiros de plantão perceberam que havia a chance de matá-lo sem ferir muitos inocentes, pediram permissão ao chefe do exército. A mulher dele também morreu. Mas ninguém mais.

Baha al-Ata certamente não escolheu estar sozinho com a mulher naquela madrugada para beneficiar politicamente Netanyahu ou Bennet. E mesmo que tivesse pensado nisso, não está claro se os dois políticos israelenses realmente se beneficiaram ou vão colher frutos políticos por dias de foguetes sendo lançados contra Israel, o que leva à estagnação de todo o Sul do país (e Tel Aviv, por um dia). Não há aulas, não há trabalho em escritórios e fábricas. O turismo cai a zero. Os serviços médicos e psicológicos trabalham dobrado.

Durante esse tipo de confronto, Israel é mostrado internamente e ao mundo como um local inseguro e traumatizado. Um país que, mesmo tendo um dos exércitos mais avançados do mundo, se ajoelha diante de um pequeno grupo terrorista de segunda linha como a Jihad Islâmica.

As imagens de israelenses correndo em pânico, deitando no chão com as mãos na cabeça e tendo ataques de pânico não são nada simpáticas. Os diplomatas israelenses sempre debatem se devem ou não divulgá-las. Imagina o que isso causa para quem não vive esse cotidiano? Empresas podem preferir não investir num local tão inseguro. A Seleção Argentina de futebol – que deve jogar um amistoso contra o Uruguai em Tel Aviv no próprio dia 18 – já está pensando duas vezes se deve ou não desembarcar no Aeroporto Ben Gurion.

Tudo isso não ajuda a imagem de Netanyahu ou de Bennet. Principalmente o primeiro-ministro, que está no poder há 10 anos e, há uma década, não consegue domar os grupos terroristas de Gaza ou negociar um cessar-fogo que dure mais do que alguns meses. Desde 2008, já houve três grandes confrontos entre Israel e o Hamas (grupo radical que governa Gaza de facto desde 2007). Mas, mesmo entre um grande confronto e outro, foguetes, morteiros e balões incendiários infernizam quase que diariamente a vida dos israelenses que moram perto de Gaza.

Netanyahu, o “Sr. Segurança” para seus apoiadores, é apontado por muitos como um fracasso nessa questão. Ele não pode culpar governantes anteriores. É o com mais tempo de poder da História do país, com 13 anos (10 consecutivos e 3 na década de 90). Apesar das teorias conspiratórias sobre como ele se beneficiaria de assassinatos seletivos de líderes terroristas, mais um confronto com Gaza não melhora em nada a sua imagem.

timing também não faz sentido. Em setembro, pouco antes da segunda rodada de eleições gerais que Israel viveu, só este ano (uma terceira parece estar por vir…), houve um desses confrontos com Gaza. Novamente, jornalistas como a de “Independent” e o da CNN especularam que o objetivo era beneficiar Netanyahu. O povo ficaria com medo do Hamas e, portanto, votaria no “Sr. Segurança”.

Mas o contrário aconteceu. Netanyahu foi humilhado em Ashdod, quando, por causa de um foguete palestino, teve que ser retirado às pressas do palco durante um comício no dia 10 de setembro. Resultado: no pleito de 17 de setembro, o Likud recebeu menos votos do que nas eleições anteriores, de abril. De 35 cadeiras, passou para 32. Perdeu para o Azul e Branco, que conseguiu 33 cadeiras.

Governantes podem utilizar as forças armadas em seu benefício. Isso é verdade. Mas não está claro que isso aconteça 100% dos casos. Quando se trata de Israel, teorias conspiratórias afundam na lama da complexidade.

 

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