Noticias • A trajetória de Paul Singer no movimento sionista-socialista Dror

A trajetória de Paul Singer no movimento sionista-socialista Dror

| Categoria: Noticias
Whatsapp
Paul Singer

Morreu nesta segunda-feira, 16/04, aos 86 anos, Paul Singer. Fundador do PT, o economista foi também militante do movimento sionista-socialista Dror. Relembre essa trajetória em texto narrado em primeira pessoa, publicado no livro Fragmentos de Memórias, de Abraham Milgram (org.).

---

Um momento decisivo na minha vida

Viena - São Paulo

Meus avós maternos eram imigrantes da Morávia (República Checa) que se estabeleceram em Viena. Uma família não intelectualizada e praticante mínima da religião, ia uma vez ao ano a sinagoga, nas grandes festas. Meu pai faleceu relativamente cedo, em 1934, quando eu tinha 2 anos, e eu praticamente só conheci a família da minha mãe.

O meu segundo nome, Israel, foi-me acrescido pelas leis raciais nazistas depois da anexação da Áustria em 1938 para distinguir os judeus dos não judeus. Eu imaginei que poderia me livrar desse nome se quisesse, mas eu não quis, foi algo deliberado. A uma certa altura da vida, resolvi me chamar Paul Israel Singer porque eu sou judeu e não há por que negar. Cheguei ao Brasil em 1940, com 8 anos, exatamente na data do meu aniversário.

Fiz o primeiro e o segundo ano da escola em Viena, vim completamente alfabetizado. Li muito durante meus últimos anos lá em Viena. Minha mãe estava em tempo integral procurando um visto para escapar da Áustria para qualquer lugar do mundo. Lembro-me do ambiente e do único tema de conversa entre minha mãe os parentes e amigos que girava em torno do visto, "ouvi dizer que a China está aceitando um certo número... ". Uma vez ouvi uma conversa da minha mãe com alguém dizendo que a Inglaterra aceitaria crianças. Lembro da angústia que me deu; queria morrer mas não me separar da minha mãe. 

Quando eu saía da escola, ficava em casa lendo, lia romances, Dostoiévski, autores russos. Nós tínhamos uma tia, uma irmã da minha mãe, que tinha emigrado para o Brasil em 1925. Ela estava convencida de que nossa saída de Viena era uma questão de vida ou morte e juntamente com o marido estava fazendo muita força para obter o visto brasileiro, e obtiveram. Primeiro ela conseguiu um visto para a mãe dela, que era minha avó. Foi minha avó que conseguiu os vistos para os outros filhos, para minha mãe e meu tio, para sua mulher e uma tia-avó. Não foi nada fácil, viemos no navio Neptunia via Itália.

Ao chegar ao Brasil tive uma sorte imensa, pois tinha primos da minha idade, e na casa deles se falava alemão e eu podia me comunicar. Duas semanas depois de chegar ao Brasil me matricularam numa escola em que estavam estes primos. Na época era o Franco-brasileiro, atualmente Liceu Pasteur. Estes primos me serviram de ponte, me ajudaram muito, fiquei amigo de seus amigos.

Nosso contato com o judaísmo brasileiro se deu através da Congregação Israelita Paulista (CIP), fui preparado para o Bar Mitzvá pelo professor Lachman. Eu era um menino religioso até pouco depois do Bar Mitzvá. A transição desta postura ao movimento socialista se deu fundamentalmente em 1945, antes do final da guerra, quando se começou a falar em política, que até então era um assunto tabu, e na escola os professores todos começaram subitamente a falar em constituição. 

É que o Brasil estava se redemocratizando, a repressão havia cessado. Isto chamou muito a atenção, eu tinha apenas 13 anos. Portanto, me politizei entre o segundo e o terceiro trimestre de 1945, nos politizávamos entre nós mesmos e em contato com os professores. Porém, tornei-me politicamente ativo apenas em 1947-1948, quando comecei a frequentar a sede do partido socialista, que estava constituído por uma plêiade de intelectuais como Antonio Candido e outros. Havia lá uma pilha de jornais da imprensa de esquerda do mundo inteiro, em espanhol, inglês etc. Nesta época eu estudava numa escola técnica, e ao terminar as aulas às 18 horas, eu ia à sede do partido e ficava lendo estes jornais até umas 19h30, 20h e me politizava. Nesta época fui recrutado pelo Bernardo Cymeryng (Dov Tsamir). 

Os anos formativos do Dror 

... Eram os idos de 1948 - faz mais de meio século - quando fui convidado a entrar no que na época era um movimento juvenil sionista-socialista. Foi pouco antes ou pouco depois que a partilha da Palestina foi aprovada pela ONU e se proclamou o Estado de Israel. Havia compreensível euforia entre os judeus de todo o mundo, inclusive em São Paulo, misturada pela preocupação pelo que poderia resultar da guerra que o novo Estado travava com os vizinhos árabes.

Evidentemente a euforia maior era dos judeus sionistas, que viam seu velho sonho se realizar, quase como compensação pelo Holocausto. Mas nem todos os judeus eram sionistas. Meus familiares que tinham feito parte da bem assimilada comunidade judia de Viena não eram sionistas, e lembro meu tio Fritz, num rompante (ele se exaltava quando discutia comigo), dizer que Israel era uma "república de opereta". Acrescentou que só mudaria de opinião quando alguma grande potência assumisse o patrocínio de Israel. Os Estados Unidos acabaram assumindo o papel... 

Minha formação judia era convencional e não me inclinava ao sionismo. Quando os rapazes e as moças de minha turma se tornaram sionistas - é aos 15 ou 16 anos que você começa a se tornar isso ou aquilo -, eu me rebelei e me aferrei às convicções socialistas, que já vinha nutrindo há algum tempo. Entramos numa fase de longas discussões até que Bernardo Cymeryng passou a participar de nossas reuniões. Ele concordava com minhas posições socialistas, e com isso abriu uma picada que me levou ao sionismo. Recordo que a presença dele (ele era sete anos mais velho e culto) elevou o nível dos debates e acho que fiquei fascinado pela sua personalidade de líder. 

O Dror* estava nessa época em rápida expansão. Encontrei de imediato centenas de moças e rapazes, vindos de todos os bairros da cidade, que também tinham aderido recentemente ao Dror*. Entramos em conjunto na descoberta do mundo político e, por extensão, social e econômico de forma inteiramente autônoma. Não havia adultos para nos ensinar e enquadrar. Bernardo e sua corte eram chaverim* e assim se portavam. Eram um pouco mais velhos e mais experientes, mas eram tratados de igual para igual. Era a primeira vez na minha vida que eu tomava parte numa organização política partidária, com princípios, programa, disciplina e tudo o mais. Eu estava maravilhado. 

Estava então fazendo um curso (dado por Febus Gikovate, excelente teórico e expositor) sobre o socialismo no velho PSB, que tinha sede num prédio caindo aos pedaços na Praça da Sé. Aproveitava também para ler furiosamente a imprensa socialista de outros países (em espanhol). Acompanhava com paixão a luta dos oprimidos do mundo todo contra a exploração etc., etc... Eu era um expectador que de repente foi convidado a tomar parte no espetáculo. Tornei-me em poucas semanas o mais entusiasmado dos militantes. Chaver* era o título de que mais me orgulhava. 

Nossa escola de vida 

O Dror* era herdeiro de uma tradição política originada no início do século, a do Poalei Zion*. Mas ela tinha sido interrompida brutalmente pela guerra e pelo Holocausto. Naquela altura, estávamos politicamente ligados ao Mapai, o partido de Ben Gurion e que governaria Israel nas primeiras décadas de sua existência. Era necessário reformular os princípios sionistas socialistas para a época contemporânea, e metemos a mão na tarefa com a chutzpá (sem-vergonhice) e a ingenuidade dos jovens. Faltava-nos formação, assim passamos a ler furiosamente. 

Esta é uma das mais deliciosas lembranças do Dror*. Qualquer chaverá* ou chaver* que você encontrasse estava lendo algum livro e pronto para trocar ideias. Uma de nossas práticas favoritas era dar longos passeios pelo Jardim da Luz (que ficava bem em frente à nossa sede na Rua Prates), discutindo com toda a paixão de neófitos política, economia, psicologia, filosofia, história. Lembro de nossa paixão por Romain Rolland, Arthur Koestler, Ber Borochúv*, A. D. Gordon*, Karl Marx, Friedrich Engels e muitos outros. É claro que aprendíamos muito, com os autores lidos e uns com os outros. 

Havia muita gente talentosa no Dror* de São Paulo (e do Brasil), não sei se bem-dotada ou estimulada pelo ambiente. Este, aliás, era um dos temas mais apaixonantes. Sendo um movimento educativo, a maioria dos chaverim* um pouco mais velhos eram madrichím* (guias) de kvutzot* de mais jovens. Portanto, importava saber se cada jovem era uma página em branco, sobre a qual o meio ambiente vai traçando personalidade e caráter, ou se já nascíamos com certo potencial, que diferenciaria para todo o sempre o inteligente do burro, o ativo do preguiçoso etc... Como socialista eu me inclinava para a primeira hipótese, enquanto várias chaverot*, que estavam estudando pedagogia defendiam a segunda. Até hoje esta questão está longe de ser resolvida. 

Seja como for, o movimento oferecia de fato formação aos seus membros, o que outras instituições, como a família e a escola, não conseguiam. Menosprezávamos o saber formal como burguês e inerentemente conservador. Ousávamos criticar tudo e todos, o que ajudava a formar intelectos questionadores e críticos. Também com nossas famílias as relações eram via de regra tempestuosas. Como não aceitávamos autoridade nem controle dos mais velhos, os choques eram frequentes. 

Em 1950, após um famoso "Seminário da Lapa"*, convocado pelo Bernardo Cymeryng, ele me disse que se os chaverim* mais velhos ficassem mais quatro ou cinco anos no Brasil fazendo universidade, eles não fariam aliá*. Em função deste raciocínio, grande parte dos chaverim* que eram universitários deixou as faculdades. A resolução se destinava a acelerar a aliá* para, uma vez em Israel, decidir melhor; em função das necessidades do kibutz, como dar prosseguimento à formação profissional. A reação da maioria dos parentes dos que assim fizeram foi muito negativa. Alguns dos chaverim* voltaram à universidade e pouco depois deixaram o movimento. A maioria persistiu, vários deixaram as casas. Até hoje sinto que a razão estava conosco. Era nosso dever e nosso direito decidir nosso destino. Em alguns aspectos básicos da vida, continuo drorista. 

Minha saída do Dror*

No ano em que terminei a escola técnica deixei o Dror*, por motivos sentimentais e políticos. Durante algum tempo eu esperava levar minha mãe, que era viúva e casada com um judeu em segundas núpcias, para o kibutz. Certa vez, quando abordei este assunto com minha mãe, ela teve uma reação que me surpreendeu profundamente. Ela disse: "O quê? Viver minha vida somente entre judeus? Antes a morte!". Matou a discussão. Havia este lado, minha mãe resolveu não ir, então desisti. Sou filho único, e era sustentado até os 20 anos pela minha mãe e meu padrasto, que me deixaram estudar sem necessidade de trabalhar. Aos 20 anos teria que ir para a hachshará*, e teria que deixar os dois, que eram pobres, e eu não tinha estômago para isso. 

Por outro lado, diria que meu sionismo foi sempre muito superficial. Na verdade, eu estava no movimento pelo socialismo, que era algo empolgante, também na época, e aí comecei a pensar por que não ficar no Brasil e lutar pelo socialismo, afinal de contas já estava aqui mesmo, em vez de começar uma nova adaptação cultural e uma nova vida. Mas não passava por minha cabeça apresentar isso como uma opção individual minha. Então apresentei isso como uma opção ao movimento. 

Fiz uma coisa que era normal no Dror*, chamar uma reunião geral, lá na rua Prates, onde veio muita gente, entre 100 e 200 pessoas. Fiz uma espécie de palestra dizendo que temos várias opções, uma delas é ir definitivamente para Israel. E acaso seria isto uma garantia de que não haveria mais antissemitismo na Diáspora? Não tem lógica. Ir para Israel não é o antídoto para o antissemitismo, o antídoto ao antissemitismo é lutar pelo socialismo. Pelo menos no Brasil havia espaço para lutar (pelo socialismo) em vez de ir para lá. Tive a adesão do Vitor Vaintaub, que era um físico, um dos chaverim* que apelidávamos de "gênio". Ele era um de cinco ou seis chaverim* que podiam fazer curso superior, com o apoio do movimento, porque eram considerados extraordinariamente talentosos. 

Minha saída foi sentida por todos nós, os chaverim* eram como meus irmãos, e ficou um vazio na minha vida. Durante alguns meses ainda nos encontrávamos para conversar, mas imediatamente comecei a militar no Partido Socialista, não houve transição, estava já noutro mundo, com outras preocupações. Na minha memória, foi uma saída traumática, neste sentido subjetivo, mas não houve ressentimentos, acusações ou coisa que o valha. Quem estava ressentido de fato e não aceitou minhas razões foi o Bernardo (Dov Tsamir). Ele já estava em Israel, mas eu lhe escrevi uma longa carta com várias laudas explicando o porquê etc. 

Minha passagem pelo Dror* foi um momento absolutamente decisivo na minha vida, posso dizer que sou o que sou em grande parte principalmente por aqueles quatro anos, dos 16 aos 20 anos, de 1948 a 1952, quando passei pelo movimento. Naquele tempo, ao sair, eu já estava completamente formado politicamente graças ao movimento e também ao Partido Socialista. 


Glossário

Aliá (pl. Aliot). Literalmente, subida em hebraico. Conceito que designa o ato de emigrar para Israel. No movimento, a aliá era concebida como resultado de um processo educativo e ideológico. Este processo levaria a realização (hagshamá) pessoal num marco de grupo (garin) cujos objetivos iriam se concretizar no kibutz. 

Chaver (pl. Chaverim). Literalmente, amigo. Designação para integrantes/membros do movimento, bem como de outros movimentos juvenis.

Dror. Movimento juvenil sionista-socialista fundado em 1945.

Hachshará (pl. Hachsharot). Centro de treinamento agrícola. Fazenda situada perto de Jundiaí, no qual os membros do movimento passavam um período adquirindo experiência agrícola em um regime coletivista segundo parâmetros conhecidos da vida no kibutz antes de fazer aliá. 

Kvutzá (pl. Kvutzot). Grupo. Marco educativo e social básico do movimento. A kvutzá era composta por um número que variava de 12 a 25 membros (chaverim). A kvutzá era liderada por um madrich(á)*. Várias kvutzot da mesma idade formavam uma camada (shichvá) designada sob diversos nomes hebraicos. A menor, de 9 a 11 anos (tzofim), de 11 a 13 anos (solelim), de 14 a 16 anos (bonim), de 17 a 18 anos (maapilim) e os mais velhos (bogrim). 

Madrich(á) (pl. Madrichim, Madrimchot). Educador, instrutor, guia. Em geral, o madrich(á) era quatro a cinco anos mais velho que seus educandos (chanichim). Os madrichim eram preparados e orientados para esta tarefa durante um período de seis meses a um ano. Os madrichim organizavam atividades do grupo (kvutzá) de seus educandos (chanichim) aos sábados, centralizavam as discussões, orientavam questões de grupo e mesmo questões pessoais de seus chanichim. O madrích(á) era um exemplo a seguir. 

Poalei Tzion. Partido que agrupou diversas agremiações políticas judaicas da Europa Oriental inspiradas nas teorias do sionismo marxista de Ber Borochov, Nachman Syrkin e do nacionalismo secular de Haim Jitlovski. Estabelecido sobre as bases sociais do proletariado judaico, o Poalei Zion rejeitou soluções propostas pelos territorialistas, Bund e pelo marxismo assimilacionista para solucionar a questão judaica. Para o Poalei Zion, era fundamental o estabelecimento de uma base territorial na Palestina para resolver a anormalidade da economia judaica da Diáspora. Diferenças ideológicas levaram à divisão do Poalei Zion entre esquerda e direita, em 1920. A ala esquerda, fiel aos prognósticos do sionismo borochovista, era pró-soviético, relutante às soluções advindas do "imperialismo britânico" e a Declaração Balfour, insistia no idischismo e rejeitava a Organização Sionista Mundial. A ala da direita, ao contrário, apoiava a Organização Sionista e a Declaração Balfour e colaborava com grupos sionistas não operários. 


* Os itens "Viena - São Paulo" e "Minha saída do Dror" fazem parte da entrevista realizada por Judith Patarra e Alberto Dines com Paul Singer em 7.4.2009, e "Os anos formativos do Dror" e "Nossa escola de vida" foram publicados na Revista Na'Amat Brasil, nº 17, São Paulo, maio 1998.

---

Extraído do livro MILGRAM, Avraham (org.). Fragmentos de memória. Rio de Janeiro. Imago, 2010.

Inscreva-se