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A Shoá na Grécia: fim de uma comunidade milenar que é pouco conhecida até em Israel

Por Daniela Kresch | Categoria: Noticias
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Quando se fala em Holocausto, pensa-se na matança em massa, pouco antes e durante a Segunda Guerra Mundial, de judeus de países como Alemanha, Polônia e Hungria. Talvez Itália, Portugal e Espanha. Mas o governo nazista dizimou comunidades judaicas em outras regiões onde o exército alemão conseguiu chegar entre 1939 e 1945. Uma dessas comunidades menos conhecidas – e que hoje não existem mais – é a de Tessalônica, na Grécia. Grécia? Sim, houve Holocausto por lá.

Este ano, a Shoá grega está no centro das celebrações do Yom HaShoá, em Israel, e na Marcha da Vida no campo de extermínio Auschwitz-Birkenau, na Polônia. O cantor Yehuda Poliker, de família grega, é uma das principais celebridades lembradas. Nascido Leonidas Polikaris, ele veio ao mundo em Israel, mas seus pais eram gregos de Tessalônica que foram deportados para Auschwitz. Em 1988, já famoso, Poliker lançou um álbum chamado “Efer VeAvak” (Poeira e Cinzas), com músicas sobre a Shoá grega. O sucesso foi fenomenal e colocou o assunto em pauta. Mas só este ano ele acenderá uma vela na cerimônia oficial israelense de Dia da Lembrança, em Jeusalém.

A população judaica na Grécia – que falava ladino, língua próxima ao espanhol – antes da Shoá contabilizava 79.950 pessoas, 56 mil deles em Tessalônica. Em 1945, 88,5% havia sido exterminada (62.573). Sobraram exatos 10.371. Em Tessalônica, apenas dois mil, que imigraram para Israel no pós-guerra.

Os judeus chegaram à Grécia na época dos romanos, antes mesmo da destruição do segundo templo de Jerusalém, há dois mil anos. Mas a comunidade aumentou muito depois da expulsão em massa de 235 mil judeus da Espanha, em 1492 (e a expulsão de Portugal, alguns anos depois). Desses, 118 mil foram para o Império Otomano (Turquia, Grécia, Bulgária, Iugoslávia, Egito, Argélia e Líbia). Nos séculos 16 e 17, houve uma Era de Ouro dos judeus em Tessalônica, que alcançaram um auge de desenvolvimento cultural e econômico. A fama dos rabinos de lá se espalhou por todo o mundo sefardita.

Em 1908, os judeus da cidade eram nada menos do que 80 mil, a maioria da população. Havia uma movimentação sionista na cidade. Os movimentos juvenis Bnei Tzion e Macabi foram criados. Em 1912, com a consolidação da soberania grega, outras instituições sionistas surgiram. Em 1935, no entanto, a onda nacionalista pós Primeira Guerra Mundial começou, no país. Aulas de línguas estrangeiras foram proibidas. As escolas privadas foram fechadas e todas as crianças, enviadas a escolas públicas.

Os alemães chegaram a Tessalônica em 9 de abril de 1941. Os líderes da comunidade foram presos, casas e instituições judaicas foram confiscadas e jornais judeus foram banidos. Os alemães saquearam bibliotecas e sinagogas. No inverno entre 1941 e 1942, 600 judeus morreram de frio, doenças e fome.

Uma série de éditos para implementar as leis raciais de Nuremberg foi publicada em Tessalônica entre 6 de fevereiro e 14 de março de 1943. Eles incluíam restrições de moradia em vários locais da cidade, vestimenta da Estrela de Davi amarela, que também marcava as lojas dos judeus. Os judeus não poderiam mais usar transporte público e eram sujeitos a cerco (curfew) noturno. Não podiam usar também telefone ou rádio. Por fim, os judeus de Tessalônica foram enviados para três bairros/ guetos fechados: Hagia Paraskevi, Distrito 151 e Baron Hirsch. Os guetos eram superpopulados. As propriedades dos judeus foram confiscadas.

Entre 15 de março e 18 de agosto de 1943, 20 transportes com 46.091 judeus partiram de Tessalônica para Auschwitz. A maioria morreu nas câmaras de gás. Na seleção, 11.200 foram enviados para trabalhos forçados, experimentos médicos e para o Sonderkommando. No fim da guerra, apenas algumas centenas estavam vivos. Em 1945, havia apenas 1.950 judeus em Tessalônica.

Abaixo, uma entrevista exclusiva com Roni Aranya, diretor do Centro de Herança de Tesalônica e fundador del Asilo de Idosos Leon Recanati, que recebe idosos e sobreviventes do Holocausto, especialmente da Grécia e de países nos quais os judeus falavam ladino – herança dos judeus sefarditas da Espanha:

Como o Holocausto afetou Tessalônica?
De uma comunidade de mais de 50 mil pessoas – em Tessalônica e no resto da Grécia –, os judeus foram transportados para campos de extermínio e, de uma comunidade com mais de 50 mil pessoas, não sobreviveram mais de 2 mil. E eles escolheram, depois de terem sobrevivido ao inferno, fazer aliá. A comunidade de Tessalônica e grega que já estava aqui e era era muito forte econômica e socialmente, decidiu ajudá-los. Assim, esse lar de idosos nasceu. Ele recebe a todos, mas principalmente quem fala ladino de países dos Balcãs, Grécia, Turquia, Bulgária, Iugoslávia. Toda a mentalidade e tudo o que acontece aqui em termos de tradição, de comida, de festas e de reza é de acordo com a cultura e tradição ladina.

O que é o ladino?
Ladino é a língua falada pelos judeus após a expulsão em 1492, quando a maioria deles imigrou para o Império Otomano e alguns deles foram para o norte de Marrocos. Você provavelmente sabe, que neste país, infelizmente, não há um lugar que lembre, honre ou mencione esta comunidade, principalmente a da Grécia, e o que aconteceu com ela durante a Segunda Guerra Mundial.

Não há lembrança da comunidade de Tessalônica e comunidades próximas?
Nem nas instituições criadas para lembrar o que aconteceu com o judaísmo em geral e durante a Segunda Guerra Mundial – como o Yad Vashem ou o museu no Kibutz Lohamei Hagetaot – essas comunidades são mencionadas. O sistema educacional não dá ênfase adequada a essas comunidades. Por várias razões. Pode ser porque a comunidade não lutou por isso. Ela teve que lutar por sua própria subsistência diária. Depois de tudo o que ela passou na Segunda Guerra Mundial. É muito triste, mas vemos que, na verdade, há um despertar muito sério em relação ao ladino.

Um despertar?
Sim. Podemos falar, hoje, de cerca de 250 mil pessoas em Israel e, dia após dia, esse número cresce. Nós fomos educados aqui que os israelenses falam hebraico e que falar outro idioma não é algo que se faça. Para criar o novo judeu, o judeu israelense, se certificaram de que as línguas que chegaram a Israel, incluindo ladino, fossem esquecidas e não faladas. Mas fica na alma. Hoje, em todas as universidades, especialmente na Universidade Bar Ilan e Ben-Gurion, em Beersheba, há cursos de ladino e sobre a cultura dos judeus que falam ladino.

Quem são os alunos?
Filhos e netos que ouviam ladino em casa e, em um determinado momento, decidiram voltar às raízes. Quando as pessoas crescem e ficam um pouco mais velhas, elas realmente se perguntam: de onde eu saí, quais são minhas raízes. É bom lembrar, aprender. Hoje, há grupos que falam ladino em quase todas as grandes cidades. Há uma conferência de ladino uma vez por ano no Mar Morto. Este ano, mais de 4 mil pessoas participaram.

Como os gregos reagiram ao Holocausto em seu país?
Não diferentemente de todo o mundo. As pessoas não nascem más. Na Grécia, havia pessoas que ajudaram e salvaram judeus. E havia aqueles que colaboraram com os nazistas.

Existe antissemitismo na Grécia, hoje?
De novo, não é muito diferente do que está acontecendo no mundo. Infelizmente, sabemos que, assim que há problemas, especialmente problemas financeiros, forças são desencadeadas e é fácil culpar os judeus que vivem lá por todos os problemas. Todos os dias, ouvimos falar de atos antissemitas na Grécia, assim como ouvimos falar de atos antissemitas na Europa ou nos Estados Unidos.



 

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