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A anexação da Cisjordânia subiu no telhado graças ao coronavírus

Por Daniela Kresch | Categoria: Noticias
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O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, usando uma máscara protetora, preside a reunião semanal do gabinete em Jerusalém, em 31 de maio de 2020. (Ronen Zvulun/Pool/AFP)

TEL AVIV – O dia 1° de julho passou e o tal plano de anexação da Cisjordânia nem começou a ser debatido no governo ou no Parlamento israelense. O “plano menina-dos-olhos” do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tem potencial de incendiar o Oriente Médio e levar a condenações internacionais gerais contra Israel. Mas Netanyahu, pensando em seu eleitorado e em seus aparentes ideais, parecia determinado a realizar esse passo. Por que, então, não foi adiante?

A resposta tem uma só palavra: Covid-19. A pandemia do novo coronavírus está se tornando um problema maior do que Netanyahu pensava. Sua popularidade passou a despencar com a vinda de uma segunda onda do vírus, que começou há cerca de três semanas. E, por causa das consequências econômicas do surto, a última coisa que os israelenses querem, agora, é que o país embarque em uma aventura passível de condenação internacional e com possíveis consequências para a sua segurança. 

Segundo recente pesquisa, 61% dos israelenses não estão satisfeitos com Netanyahu e sua administração da crise sanitária. Esse percentual é duas vezes maior do que os 30% de abril, quando Israel parecia estar vencendo a primeira onda pandemia e o Netanyahu gozava de 70% de aprovação. Nos primeiros dois meses, o governo Netanyahu tomou medidas rápidas, que evitaram muita infecção e um número maior de mortes. Tanto que, em maio, o país começou a relaxar as medidas e reabrir a economia.

Mas, em meados de junho, a conta chegou. O número de infectados disparou e, no começo de julho, em vez de anexar a Cisjordânia, Netanyahu teve que voltar a fechar boa parte da economia. Resultado? O desemprego, que tinha caído de 27% para 23% (números incríveis se pensarmos que, em março, era de apenas 3,9%), voltou a subir. Profissionais liberais, freelancers e pequenos empresários começaram a sair às ruas em protesto.

A verdade é que a maioria dos israelenses não dá a mínima para questões geopolíticas e ideológicas, neste momento. Pela pesquisa, 75% estão desapontados com o governo, em geral. Só 16% se dizem satisfeitos. A maioria dos israelenses quer só viver bem e em paz. Aliás, assim como a maioria dos palestinos. Planos geopolíticos revolucionários não estão na cabeça da maioria.

Depois que Israel passou bem pela primeira onda, Netanyahu achava que poderia “passar a boiada” e aprovar a anexação da Cisjordânia. Afinal, o mundo todo só se preocupa com o Covid-19 e cada país está mais interessado em seus problemas internos. A anexação não levaria, segundo ele, a desaprovações ou sanções generalizadas. 

Mas ele não contava com a segunda onda do coronavírus e com o fato de que seu patrono, o presidente americano Donald Trump, está cada vez menos interessado no que acontece no Oriente Médio diante da possibilidade de que não seja reeleito. Ele também enfrenta as consequências econômicos do Covid-19, além de outros problemas internos.

Diante de tudo isso, Netanyahu está agora tentando mitigar a queda de popularidade com um novo pacote de ajuda econômica, anunciando aos quatro ventos ajuda financeira imediata para profissionais liberais e pequenas empresas. Voltou a fazer aparições na TV e a prometer que economia israelense sairá bem dessa crise. 

Mas os números de infecção só aumentam. De menos de 30 novos infectados e nenhuma morte no começo de junho, agora os números diários são mais de mil infectados por dia com várias mortes (de sábado, dia 11 de julho, para domingo, 12, oito pessoas faleceram). Há 150 pacientes em estado grave e mais de 50 em ventiladores. Neste ritmo, esses números tendem a se multiplicar exponencialmente nos próximos dias.

Pode parecer estranho, mas os opositores ao plano de anexação podem “agradecer” ao coronavírus pela suspensão, pelo menos por agora, dos planos de Netanyahu. E, quanto mais o tempo passa, mais difícil fica para o primeiro-ministro israelense colocar seu plano na agenda do governo e do Parlamento.

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