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Os três "p"s do futebol em Israel: paixão, política e polêmica

Por Daniela Kresch | Categoria: Esporte
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Seleção de Israel durante a copa de 1970 (Foto: Reprodução)

TEL AVIV – Paixão é o primeiro “p” do futebol em Israel. Trata-se do esporte das massas e leva aos estádios milhares de pessoas que torcem por seus times do coração. Mesmo sem uma seleção participando da Copa de 2018, os israelenses acompanham o mundial e torcem. Torcem muito. A julgar pelo aumento do rating do canal 11 (Kan) da TV israelense, o Mundial da Rússia é um sucesso no país. Os jogos alcançam 20% de audiência, um percentual incrível para esse canal público, que raramente chega a dois dígitos.

Segundo pesquisa de opinião feita um pouco antes do começo do torneio na Rússia pelo canal esportivo ONE, o Brasil ficou em primeiro lugar nas preferências do amantes do futebol de Israel, com 29%. Argentina ficou em segundo, com 25%, seguida, de longe, por França e Espanha (11% cada), Portugal (8%) e Alemanha (5%).

Com alto percentual de olim (imigrantes), é difícil encontrar uma seleção sem torcida, em Israel. Olim franceses, russos, latino-americanos... Todos se reúnem em bares e casas pelo país para torcer. Até porque é realmente difícil torcer pela seleção nacional. A equipe israelense chegou à Copa do Mundo apenas uma vez: em 1970, no México. Também conseguiu se classificar para duas Olimpíadas (1968 e 1976). Mas em nenhuma grande competição conseguiu passar da primeira etapa.

Seleções de países árabes/muçulmanos como Egito, Marrocos e até mesmo Irã, também têm seus fãs. O repórter e comentarista esportivo brasileiro Salva Barzellai, famoso em Israel por seu estilo especial, apostava no Egito.

“Porque os caras moram aqui do lado, são primos. Egito é a gente! A gente fez shalom com os eles: Begin, Sadat...”, diz Salva, se referindo ao acordo de paz entre Israel e Egito, em 1978, assinado pelo então primeiro-ministro de Israel, Menachem Begin, e o então presidente do Egito, Anwar Sadat.

IDEOLOGIA

Além do “p” da paixão, o “p” da política também marca o futebol israelense. Afinal, esporte e política são uma dupla inseparável no campo esportivo do Oriente Médio. Ideologia e conflito estiveram presentes desde os primórdios das equipes, há pouco mais de um século. No começo do século passado, equipes árabes e judias competiam e conviviam na Palestina pré-Estado de Israel. Mas, a partir da Revolta Árabe (1936-1939), os caminhos dos jogadores judeus e árabes se separaram. 

“O esporte pode unir ou pode dividir pessoas, culturas, nações e povos. Ele pode unir grupos que nunca se encontrariam, mas pode também dividir mais ainda. Tem muitas emoções e a identificação dos torcedores chega a tal ponto que até guerras explodem por causa dele”, conta Yair Galili, sociólogo esportivo do Centro Interdisciplinar de Herzeliya.

A evolução do futebol sofreu também por outro motivo: a ideologia da própria comunidade judaica pré-criação de Israel (o chamado Yishuv), dividida entre grupos políticos – principalmente Hapoel, Maccabi e Beitar – que não abriam mão de sua visão de mundo e disputavam entre si a liderança do movimento sionista. 

“Um dos principais problemas era a politização do esporte judaico e as complicadas relações entre as associações, que dificultavam a existência regular da liga de futebol”, observa o historiador esportivo Chaim Kaufman.

“A organização Hapoel, que representava os partidos dos trabalhadores, encarava a si própria como parte do esporte proletário internacional e via o Maccabi como uma organização burguesa que representava os valores capitalistas. O Maccabi, por outro lado, se via, desde o início. como uma organização esportiva sionista apartidária e se opunha à percepção de classes do Hapoel”.

Esta divisão criou muitos problemas e levou a confrontos violentos nos campos, boicotes e confrontos.

Em 1936, foi criado o Beitar Jerusalém, um dos times do movimento Beitar (sigla de “Brit Yossef Trumpeldor”), de tendência sionista revisionista e, em seus primórdios, identificado com grupo clandestino Irgun e a direita judaica.

HISTÓRIA

Pouco se sabe sobre quem trouxe o esporte bretão para a região então chamada Palestina sob controle do império Turco-Otomano. Alguns dizem que foram os turcos. Outros, que foram os imigrantes judeus russos. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, o esporte já começava a ser popular.  

O historiador Chaim Kaufman conta que, em 1912, uma descrição do esporte apareceu pela primeira vez no jornal HaHerut (“Liberdade”), fundado em 1909. No jornal, aparecia como “diversão social e familiar dos sábados”. Em 1913, o primeiro livros de regras para o futebol local foi publicado.

Nessa época, muitas “sociedades de ginástica” começaram a aparecer entre a crescente comunidade judaica. A primeira delas foi criada em 1906, a Rishon LeTzion-Jaffa, que acabou mudando de nome para Maccabi Tel Aviv pouco tempo depois. Em seguida, surgiram times como Maccabi Petah Tikva (1912), Maccabi Haifa (1913), Hapoel Tel Aviv (1923), Hapoel Haifa (1924), Hapoel Jerusalem (1926) e Hapoel Kfar Saba (1928). O Betar Jerusalém surgiu na década de 30.

A primeira agregação criada foi a Associação de Futebol da Palestina (PFA) ou a Associação de Futebol de Eretz Israel (Terra de Israel), em 14 de agosto de 1928. O nome pode confundir, mas a explicação é a seguinte: Palestina foi o nome dado pelos romanos no século II para a região conhecida como Judeia na época de Cristo. Com o começo das imigrações judaicas, em meados do século XIX, a comunidade judaica local passou a chamar a região de Eretz Israel (Terra de Israel). 

A associação foi admitida pela FIFA em 1929. Mudou definitivamente de nome para Associação de Futebol de Israel (AFI) após a criação do país, em 1948.

Mas, certamente, o futebol ganhou força na região com o fim da Primeira Guerra e o estabelecimento do Mandato Britânico na Palestina – seguindo a divisão do Oriente Médio por França e Inglaterra pelo acordo Sykes-Picot. Os soldados britânicos trouxeram, com eles, o costume de jogar bola e criaram diversos times. Em 1927, surgiu o primeiro campeonato local.

Sob a influência dos britânicos, começaram a surgir muitas equipes judaicas e árabes. Os jornais da época estão cheios de relatos de partidas. A popularização do futebol seguiu o crescimento das cidades, principalmente Tel Aviv, e a construção de centros desportivos. Foram criadas as primeiras ligas de futebol. 

LUTA NACIONAL

O futebol também servia à luta da comunidade judaica pela criação de um Estado nacional, na tentativa de conseguir legitimidade internacional e regional. As equipes de futebol judaicas receberam muitos times estrangeiros e viajaram para o exterior para participar de partidas. Nos anos 30, a Seleção de Eretz Israel até participou de eliminatórias da Copa do Mundo. Mas não conseguiu se classificada.

Durante a Segunda Guerra Mundial, muitos jovens se alistaram para lutar contra os alemães pelo exército britânico. Mesmo com as dificuldades, houve um jogo internacional, em 1940, em Tel Aviv: um amistoso contra o Líbano.

Entre o fim da Segunda Guerra (1945) e a criação do Estado de Israel (1948), o futebol do Yishuv ficou à sombra da luta pela estabelecimento do Estado. O desejo de reconhecimento internacional veio em parte através da visita de grupos estrangeiros.

O auge foi a viagem de equipe do Hapoel, em 1947, para os Estados Unidos: “A viagem foi totalmente uma propaganda, na qual os jogadores foram de cidade em cidade e para participar de coquetéis, noites de arrecadação de verbas, palestras e programas de rádio”, segundo o professor Kauffman.

ASSOCIAÇÃO ÁRABE

Quando foi formada, em 1928, a Associação de Futebol de Eretz Israel deveria representar times judaicos e árabes, quer dizer, toda a população da Palestina sob Mandato Britânico. Havia até mesmo representantes árabes na direção da associação. Mas os árabes a abandonaram e criaram, em 1934, uma associação esportiva própria – que acabou sendo desmantelada em meio à Revolta Árabe (1936-1939).

No início da Segunda Guerra Mundial, alguns times árabes entraram na associação judaica e participaram de competições. Em maio de 1944, no entanto, eles fundaram a Associação Desportiva Palestina, que incluía o futebol e outros esportes, e proibía a participação de jogadores judeus nas suas fileiras. Um campeonato de futebol palestino foi estabelecido em todo o país. 

O principal problema foi a falta de reconhecimento da FIFA. Em 1947, a FIFA decidiu estabelecer uma associação neutra, que não seria liderada por árabes ou por judeus. Mas a votação da Partilha da Palestina (1947) e a criação de Israel (1948), engavetaram essa ideia.

A FIFA só reconheceu a Associação Palestina de Futebol em 1998, alguns anos depois da criação da Autoridade Nacional Palestina (como resultado dos Acordos de Oslo). Só em 2014, a seleção palestina conseguiu seu primeiro grande êxito: ser classificada para a Copa da Ásia. Mas acabou sendo eliminada na primeira fase.

RAJOUB CONTRA ISRAEL

O terceiro “p” do futebol em Israel é o da polêmica, sempre presente quando se trata do país. A Associação de Futebol de Israel foi membro da Confederação Asiática de Futebol de 1954 a 1974. Mas acabou sendo expulsa sob pressão de países árabes. Em 1992, foi admitida na União das Federações Europeias de Futebol (UEFA). 

Em 2015, o presidente da Associação Palestina de Futebol (APF), o general palestino Jibril Rajoub, conhecido por suas posições e atividades extremas contra Israel, retirou, no último instante, um pedido de votação para suspensão de Israel da FIFA por alegações de racismo, restrições ao ir e vir de jogadores palestinos e a existência de cinco times de assentamentos judaicos na Cisjordânia, considerados ilegais pela maior parte da comunidade internacional.

Muitos afirmam que a Seleção de Israel foi salva da suspensão, naquela ocasião, por causa do escândalo de corrupção na FIFA, que abalou a instituição. As prisões no alto escalão do futebol mundial diminuíram a relevância do pedido dos palestinos.

Em 2017 e em 2018, Rajoub entrou com outros dois pedidos de suspensão de Israel na FIFA, novamente rejeitados. Ex-chefe da Forças Preventivas de Segurança na Cisjordânia, membro do Conselho Revolucionário do Fatah e ex-presidente do Comitê Central do Fatah, Rajoub não esconde a intenção de usar sua posição como presidente da APF e do Comitê Olímpico Palestino, cargos que ocupa desde 2006, como trampolim para ações contra Israel.

Este ano, no entanto, a FIFA decidiu abrir procedimentos disciplinares contra o próprio Jibril Rajoub por causa da incitação contra a Seleção Argentina por ocasião do amistoso que os argentinos fariam em Jerusalém no começo de junho - e que acabou sendo cancelado após alguns jogadores terem recebido ameaças de morte. Rajoub pediu a todos os torcedores palestinos que queimassem fotos de Lionel Messi e camisas da seleção argentina caso eles aceitassem jogar em Jerusalém contra a seleção israelense. 

ATUALMENTE

A seleção israelense ocupa, atualmente apenas a 93ª posição no ranking da FIFA, pouco antes da palestina, que está em 99º lugar. 

Internamente, a principal competição de times é a Ligat Ha’Al (“Super Liga", na tradução livre). O vencedor ganha o direito de disputar a Liga dos Campeões da UEFA, enquanto o vice-campeão e o terceiro colocado se classificam para a Copa da UEFA. Os times que mais venceram as competições em Israel (desde o começo delas, em 1932) foram Maccabi Tel Aviv (21 vitórias), Hapoel Tel Aviv (14), Maccabi Haifa (12), Beitar Jerusalém e Hapoel Jerusalém (ambas com 6 vitórias).

Alguns nomes se destacam: Avi Cohen, o primeiro a jogar na Europa (em 1979, pelo Liverpool), Eli Ohana, Yossi Benayoun, Avi Nimni, Eyal Berkovic, Reuven Atar, Alon Hazan, Alon Mizrahi, Haim Revivo e Eran Zehavi.

Mas, apesar de produzir alguns craques, o futebol nacional não consegue se destacar mundialmente e é marcado por polêmicas e violência de torcidas organizadas. O time Beitar Jerusalém é certamente o mais controverso. O fã-clube La Familia, abertamente ultranacionalista, é conhecido pelo racismo contra jogadores árabes. O clube foi penalizado muitas vezes.

Recentemente, o presidente, Eli Ohana, e o dono, Eli Tabib, declararam a intenção de renomear o time de Beitar Trump Jerusalém em homenagem ao presidente americano, Donald Trump, por causa da transferência da embaixada americana para Jerusalém.

As polêmicas, no entanto, não afastam os fãs dos estádios. Eles mantêm a esperança de que, um dia, Israel vai participar novamente de uma Copa do Mundo. Se a Islândia, com apenas 350 mil habitantes, e o Panamá, com 4 milhões, podem se classificar, por que não Israel, com seus quase 9 milhões?

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