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"Me interesso por pessoas que criam novos mundos para si e para suas comunidades"

| Categoria: Cultura
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Cena do filme Hotel Everest

Foi em busca de pessoas comprometidas na construção da paz, que a socióloga Cláudia Sobral se debruçou sobre o conflito israelo-palestino, um dos mais complexos do mundo, em seu documentário Hotel Everest.

"Estou particularmente interessada nas histórias de indivíduos que vivem num contexto de guerra e conflito e ainda assim estão dispostos a se arriscar e a encontrar uma conexão com a humanidade do 'outro'", afirma a também documentarista nascida em São Paulo e radicada nos EUA:  

No dia 11 de março, domingo, o IBI, em parceria com o Conselho Juvenil, realiza a exibição do documentário Hotel Everest, seguida de um debate com a diretora.  A documentarista concedeu uma entrevista por e-mail antes do evento. Confira a íntegra abaixo.

Saiba mais detalhes sobre a exibição aqui.
Para fazer sua inscrição gratuita para o evento, clique aqui.

O que a levou a fazer um documentário sobre o conflito israelo-palestino?

A minha intenção foi de fazer um documentário sobre a vida das pessoas pela Paz que vivem o conflito dia após dia, não sobre o conflito israelo-palestino. 
Sou antropóloga cultural e documentarista. Nasci em São Paulo e tenho vivido nos Estados Unidos e na Europa. A perspectiva global que adquiri tanto na minha vida pessoal quanto na minha experiência profissional formam a base do meu trabalho.
Me interessa como pessoas de diferentes culturas e origens encontram formas de se relacionarem e de criarem novos mundos para si e para suas comunidades. Também estou particularmente interessada nas histórias de indivíduos que vivem num contexto de guerra e conflito e ainda assim estão dispostas a se arriscar e a encontrar uma conexão com a humanidade do “outro”.
Este foi o tema principal do meu primeiro documentário, “Os Fantasmas do III Reich”. Uma viagem a Berlim em 2006 despertou a minha curiosidade sobre as experiências de vida de descendentes de nazistas. Como sou a terceira geração numa família de sobreviventes do Holocausto este assunto era para mim de interesse pessoal. Meu objetivo era capturar de que maneira indivíduos conseguem confrontar um passado escuro e doloroso juntos  e assumir o compromisso de reparar o futuro.
Lado a lado com meu trabalho cinematográfico, tenho mais de 15 anos de experiência na área de museologia e artes comunitárias tanto na cidade de Nova Iorque como em Los Angeles. A maioria dos projetos sob minha curadoria ou nos quais estive envolvida celebram a diversidade e fomentam maior interação e entendimento entre pessoas de diferentes origens raciais, étnicas e religiosas. Hotel Everest é uma evolução natural do meu trabalho.

Sabemos que o conflito é complexo e repleto de narrativas. Como foi o processo de imersão nessas narrativas? Como foi feita a seleção dos personagens?

Depois do documentário sobre como descendentes de nazistas lidam com suas histórias de família, eu quis fazer um documentário sobre descendentes de casais israelenses-palestinos. Após uma breve pesquisa me dei conta de que seria uma missão impossível. Embora eu tenha encontrado alguns casais, ninguém estava disposto a partilhar sua historia diante da câmera. Durante uma conversa com consultores do projeto surgiu a sugestão de, ao invés de casais, focalizar amizades. Comecei a pesquisar durante uma viagem para Tel Aviv. Conheci Eden Fuchs através de um amigo comum. Posteriormente fui a uma apresentação de Eden e Ibrahim em Nova Iorque para o “Center of Emerging Futures”. Foi quando soube da terceira peça do quebra-cabeças dessa história, que me pareceu fascinante. Um psicólogo de Boise, Idaho, com nenhuma conexão familiar ou pessoal com Israel ou Palestina iniciou uma fundação para unir pessoas e desenvolver parcerias. E aqui estamos.
Senti uma necessidade de transmitir uma fagulha de esperança onde o ódio e o desespero esmagaram a esperança – que é a atual situação em Israel e na Palestina. Desde que iniciamos o trabalho deste documentário, há três anos, o medo e o desespero atingiram níveis esmagadores. Quando a guerra eclodiu em Gaza no verão de 2014, retaliação por atos de violência causaram impactos e ceifaram vidas de muitos, dos dois lados, de uma forma brutal. Esses tempos intensos e difíceis aumentaram o interesse e o foco no conflito israelense-palestino.  Pode haver melhor momento para alavancar essa atenção e mostrar uma realidade mais esperançosa e raramente vista?
Este ano marca o 50º aniversário da Guerra dos Seis Dias. Tempo de questionar, repensar e considerar modelos de coexistência e alguma forma de compromisso.  O que é que queremos para os próximos 50 anos e para as futuras gerações. É preciso que haja uma liderança corajosa de ambos os lados. Infelizmente vivemos uma era de falência de lideranças.
Seis meses após o inicio das filmagens a violência eclodiu e a guerra, medo, desconfiança e desespero caíram pesadamente sobre as vidas dos nossos protagonistas e seu trabalho construtivo pela paz.
Como cineasta essa nova realidade me obrigou a questionar como posso continuar a fazer um documentário sobre a paz em meio a tanta violência. O meu filme poderia transmitir qualquer mensagem autêntica de paz em tempos tão tenebrosos? Me dei conta de que esse cenário terrível apenas reforça a necessidade de dar uma voz ainda mais forte a indivíduos comprometidos com uma realidade alternativa. Havia uma urgência nos seus depoimentos e uma questão central: será que o sonho de nossos protagonistas e seu empenho na paz sobreviveria a condições extremas de frustração e desespero?
Sabemos muito bem como é a guerra, mas sabemos como é a paz? Temos sido inundados há muito tempo por imagens e historias de violência na região. Como desenvolver amizades e parcerias em tal ambiente? Quais são os momentos de transformação desses indivíduos que os tornam agentes da mudança?
Há uma outra questão que emergiu durante a filmagem. De que maneira os protagonistas lidam com a pressão social e o antagonismo por parte de suas próprias famílias e amigos por se envolverem com o “inimigo” (eufemisticamente chamados às vezes como pacifistas ingênuos). Eles enfrentam constantemente as consequências de suas escolhas, na vida pública e pessoal – um preço alto a pagar sem a promessa de uma recompense imediata.



O filme aposta que o diálogo entre as sociedades civis podem aproximar os dois povos. Acha que a paz poderá ser alcançada da mesma maneira? 
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​Não sou especialista no conflito palestino-israelense, nem historiadora ou cientista política. Sou, porém, um​a pessoa que acredita firmemente no ativismo das comunidades de base e no poder destas em causar impacto e mudanças. A mudança é um processo lento e assustador, que requer mútuo apoio e, acima de tudo, confiança. Leva tempo. Há vários exemplos de organizações civis que estão tendo sucesso no estabelecimento de um dialogo e de relações a longo prazo entre israelenses e palestinos que desafiam o status quo. Infelizmente o mesmo não pode ser dito sobre os políticos. De fato, políticos de ambos os lados falharam fragorosamente. Medo e polarização são usados como estratégia para manter o status quo. Patriotismo significa também espirito critico, preocupação e amor pelas pessoas que significam algo importante para você. É mais fácil polarizar a situação e tomar este ou aquele lado, mas para aqueles que acreditam que o direito e a liberdade de um terminam onde começa a liberdade do outro a coisa fica mais complexa e tanto as individualidades quanto a história de cada povo tem de ser respeitada.    Por favor me diga que tempos são esses quando militantes da paz são considerados inimigos do Estado, traidores ou possuídos pelo auto-ódio? Em que  tempos vivemos quando um filme sobre pessoas se reunindo em torno de ideais de paz ameaça a segurança? É complicado, mas na minha opinião isto só reforça a necessidade de amplificar as vozes desses cidadãos comuns e corajosos. 

Em resumo, eu acredito no que testemunhei um forte desejo de mudança de ambos os lados, uma profunda complexidade de emoções em relação à situação atual e pessoas trabalhando dia e noite para construir a base de uma sociedade livre e justa. É importante notar que Ibrahim frequentemente convida políticos para participarem nas reuniões, sem sucesso. Creio também que o nosso papel na diáspora é apoiar o trabalho dessas organizações e indivíduos que nos beneficia a todos e se preocupa com as futuras gerações.
 
Como vê a perspectiva de dois estados para dois povos vivendo lado a lado?  
 
Dois Estados, Um Estado, precisamos de uma solução democrática dos dois lados cujo o intuito é a segurança, direitos e liberdade dos seus cidadãos.  Acredito que é a única maneira. São pequenos passos em direção a um objetivo maior de coexistência e autodeterminação para ambos os povos. Esses grupos têm sucesso onde tantos políticos falharam tristemente. Nosso documentário é uma plataforma para amplificar essas histórias de esperança e encorajar outros a encontrarem a mesma força e inspiração.
 
 Na sua opinião, qual será o futuro daquela região? 
 
Eu aposto no presente… O que estamos fazendo agora é para os nossos filhos e para os filhos dos nossos filhos, para as futuras gerações. ​O processo de mudança é muito lento mas nem por isso podemos voltar as costas e ignorar a situação ou se acomodar. Nossa responsabilidade é para com nossos filhos, netos e bisnetos. A opção de continuar como está não é, nem deve ser, uma opção. Tenho família e amigos em Israel portanto eu escolho continuar otimista e fazer o que posso através do meu trabalho para contar histórias que nos dão uma luz, uma esperança. A continuidade da ocupação afeta não só os ocupados, mas também o ocupante, esgarça seu tecido social, gera ódios mútuos e mancha profundamente sua democracia.

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