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Jovens - 70 anos depois

Por Vittorio Corinaldi
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Israel comemora 70 anos de sua fundação. A ocasião desperta inúmeras justificadas manifestações de orgulho e regozijo, ao lado de gestos de exagerado teor “patriótico” e nacionalista.

A orientação de direita que há anos dirige os destinos do país faz com que se ponha mais ênfase nas conquistas econômicas e científicas, no poderio militar considerável numa concepção populista e vulgarizante da cultura, com inclinações preferenciais das comunidades oriundas do oriente. E uma parte deste quadro denota uma tendência de re-interpretação histórica, na qual se procura sufocar a essencial contribuição do movimento obreiro e da corrente Sionista-Socialista no estabelecimento do Estado.

Falar dessa corrente é falar da Histadrut, a poderosa central dos trabalhadores, e de sua vital importância na formação de uma economia sólida ainda antes da proclamação da independência. É falar dos kibutzim e de seu exemplar contingente de ação voluntária sobre o qual se apoiou o esforço de construção das primeiras bases do Estado.

E é falar dos movimentos juvenis sionistas-socialistas, que foram a fonte quantitativa e qualitativa da reserva humana daqueles tempos de penúria e de luta; da Haganá e da Palmach, que lançaram o alicerce do Exército de Defesa de Israel; de veneráveis figuras como A.D.Gordon ou Berl Katzenelson, inspiradores de uma moral de comportamento social anti-retórico e baseado na ação e no exemplo pessoal; ou de Ben Gurion, o incansável líder da ressurreição  e o grande promotor da unidade nacional, pela qual não hesitou em dissolver mesmo setores de sua própria formação partidária. E é falar do estabelecimento de Ishuvim que marcaram as fronteiras do país frente às muitas propostas internacionais de partilha da Palestina e à agressão dos exércitos árabes hostis.

Neste capítulo, destaca-se o papel dos movimentos juvenis sul-americanos, e dentre eles os brasileiros. Entre outras muito válidas e importantes, sua função foi e continua sendo imprescindível na criação de uma barreira perante o território de Gaza, do qual exatamente nestes dias está mais uma vez se lançando uma onda de provocação e destruição, impelindo uma população em estado de desespero mas incitada por uma liderança fanática, a atos de protesto e de terror dirigidos contra Israel.

Os noticiários se concentram muito mais nos aspectos da tática militar diante da atual situação, do que na valente não rumorosa resistência da população civil – em sua grande parte dos kibutzim. E a atitude do governo tem sido de uma atenção mínima para as necessidades dessa população,  que evidentemente não compartilha das aspirações eleitoreiras de seus ministros e deputados, nem subscreve cegamente o entusiasmo com que políticos israelenses observam os passos imprevisíveis do Presidente americano Trump.

Neste ponto, forçoso é também dedicar algum comentário quanto à repercussão dos acontecimentos sobre o judaísmo mundial. O governo de Netanyahu procura inculcar o conceito de que o judaísmo da Diáspora deve aceitar silenciosa e automaticamente sua política (que no caso do maior setor do judaísmo americano é francamente discriminatória)

E no caso do judaísmo Brasileiro, quem como nós observa seu comportamento frente aos problemas desta região, mas também da cena política brasileira – não pode deixar de sentir essa tendência, que, ao par do receio de provocar abalos na delicada estrutura da prosperidade econômica da comunidade, envia injustificados ataques a opiniões de “esquerda”, que na visão do establishment comunitário é sinônimo de anti-sionismo e de identificação com correntes hostis.

 Vítimas desta injusta e irresponsável visão são – mais do que quaisquer outros – os movimentos juvenis. Oxalá fossem eles realmente um fator de maior peso no panorama geral da comunidade. Oxalá as posições de solidariedade humanitária expressas por jovens sinceramente empenhados, quanto a acontecimentos polêmicos dentro da sociedade brasileira, tivessem uma repercussão que pudesse gerar uma maior compreensão da problemática de Israel e do povo judeu, junto a largas camadas do público brasileiro. Oxalá seus pronunciamentos pudessem alterar o foco do efêmero prazer proporcionado pela frequência a luxuosos e caros clubes esportivos e recreativos, em direção a um frutífero intercâmbio de idéias e opiniões, cuja síntese só pode ser benéfica para a sobrevivência de nossa cultura: uma sobrevivência que muito se apoia no fazer educativo voluntário, sincero, autêntico e convincente dos jovens provenientes dos movimentos juvenis.

Atentos como somos a tudo o que se refere ao judaísmo brasileiro do qual nascemos; e aos autênticos interesses da existência judaica na Diáspora e em Israel – esperamos poder encontrar na imprensa judaica brasileira; na constituição humana das camadas dirigentes e educativas da comunidade; no apoio solidário à atividade dos movimentos – a esperada mudança de rumo que seja um anúncio de abertura democrática da opinião pública judaica. E o retorno a uma orgânica ligação do ishuv brasileiro com sua  Aliá em Israel e seus pioneiros representantes desde os primórdios: uma Aliá que embora reduzida numericamente, já pode se gabar de passos e pessoas significativos no panorama social israelense.


Nasceu em Milão, Itália, em 1931. Em 1939 emigrou com a família para o Brasil, em consequência das leis antissemitas do regime fascista. Formou-se em arquitetura pela FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo) em 1954. Mudou-se para Israel em 1955, estabelecendo-se no Kibutz Bror Chail, do qual foi membro por 40 anos. Executou numerosos projetos destinados às funções dos Kibutzim nos setores de moradia, educação, edifícios públicos, esporte etc. Atualmente vive em Tel-Aviv.

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