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Chanucá: dos tempos de Moisés aos nossos tempos

Por Uri Lam
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Conta-nos o Talmud: “Por que Moisés viu por bem fazer doze dias de Chanucá? A fim de compartilhar a honra com os demais líderes.” (Bavli, Horaiot 6b)

Espere, você não leu errado. Sabemos muitos bem que Chanucá dura oito dias. É o próprio Talmud que nos conta: quando os assírios, de orientação helênica, entraram no Templo de Jerusalém, profanaram todos os reservatórios de azeite que ali estavam. Então vieram os Chashmonaim e os derrotaram. NO entanto, ao entrarem no Templo, verificaram que só havia um pote de azeite lacrado, selado com a marca do Sumo Sacerdote. O azeite, porém, era suficiente para apenas manter a Menorá acesa por um dia. Então houve um milagre e, com este pouco de azeite, a Menorá permaneceu acesa por oito dias. Passou-se um ano até que, na mesma data, estabeleceu-se a comemoração e aqueles dias se tornaram dias de louvor e gratidão.

Você pode estar se perguntando: é só isso? Quem eram estes assírios? Por que profanaram o azeite do Templo? Quem eram os Chashmonaim?

A história toda não está relatada no Talmud. Nós a conhecemos de outras fontes: do Livro dos Macabeus – que não faz parte da Bíblia Hebraica; e também das descrições de Flavius Josefus em sua obra “Antiguidades Judaicas”. Destas fontes aprendemos que havia em Israel, por volta do ano 165 aec, um governo influenciado pela cultura grega. Como marca do domínio e da opressão sírio-grega, milhares foram mortos e uma estátua de Zeus colocada no Templo de Jerusalém. Foi quando Yehuda Hamacabí e seus irmãos lutaram e derrotaram os assírios helenizados, restauraram os serviços no Templo e a soberania judaica em Israel.

Este relato histórico não está no Talmud, nem o milagre das luzes que duraram oito dias está no Livro dos Macabeus; aliás o milagre nem era conhecido por Flavius Josefus. Por quê? Há quem diga que quando os rabinos do Talmud deram a sua versão de Chanucá, três séculos depois, já sabiam que o domínio dos chashmonaim havia levado à decadência dos valores éticos judaicos e na consequente destruição do Segundo Templo, no ano 70 ec. Assim, os rabinos decidiram diminuir ao máximo o relato das lutas heroicas dos macabeus – que, ao que parece, continuaram a povoar o imaginário popular – a fim de não provocar novas rebeliões que levassem a mais destruição. Em vez disso, deram peso ao milagre do azeite que teria gerado oito dias de luz.

O relato de Chanucá nos conta, nas entrelinhas, que em Israel os judeus viviam entre outros povos e culturas. O próprio milagre dos oito dias de luz pode ter sido influenciado por outras tradições. Nesta época do ano, em Israel, as noites ficam mais longas e os dias, mais frios, introspectivos e tristes. Alguns povos antigos da região costumavam lembrar por oito dias, com jejuns, a morte do deus Tamuz. Por sua vez, na versão grega, este era Dionísio, deus do vinho e das festas de arromba, por assim dizer; ah, e filho de Zeus – aquele da estátua no Templo. Ao mesmo tempo, nas casas eram acesas velas cuja finalidade era iluminar a aquecer. Esta pode ter sido a inspiração que os rabinos encontraram para a nossa Festa das Luzes – aproveitando um antigo costume popular em Israel e ao mesmo tempo substituindo a lembrança de um deus grego pela afirmação de valores nacionais e religiosos judaicos.

Chanucá é conhecida como a comemoração do povo judeu afirmar o direito de viver suas próprias tradições. Chanucá pode ser, também, a festa que afirma o direito ao pluralismo sem perda de identidade. Grandes sábios como Maimônides, por exemplo, enriqueceram a sabedoria judaica a partir da inteiração com o pensamento grego. Também os diversos movimentos judaicos atuais podem se beneficiar do diálogo entre as releituras diversas de uma mesma tradição.

Quando Moisés comemorou doze dias de Chanucá, eram os dias da inauguração do Mishkán, um precursor do Templo. Segundo a interpretação rabínica, a opção por doze dias foi feita para que o líder de cada uma das doze tribos pudesse igualmente se aproximar do altar para servir a Deus. Que as diversas chamas de Chanucá iluminem a diversidade, o múltiplo diálogo e, principalmente o respeito entre nós. Isso sim, será um grande milagre.


Uri Lam é rabino da Congregação Israelita Beth-El, professor do Instituto Ibero-Americano de Formação Rabínica Reformista e membro do Fórum Nacional do Diálogo Católico Judaico.

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