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Construção falha de memória nacional: um caso Brasil e Israel

Por Tamara Crespin
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“Um povo sem memória é um povo sem futuro” - Estádio Nacional Julio Martínez Pradanos (Chile)

A questão da memória sempre me pareceu algo pertinente de ser retomada, tanto em minha formação acadêmica quanto pessoal. Algo quase que intrínseco à necessidade da vida humana, da trajetória e da presença. Dessa forma, os longos meses de isolamento social e de pandemia acabaram por se tornar importantes, como uma brecha de tempo disponível para retomar algumas questões as quais me foram apresentadas anos antes, em minha época de ensino médio. Trago essa lembrança de volta por meio desse artigo, como uma tentativa de reviver aquele momento, e uma vontade de dar respostas à algumas indagações que me acompanham.

Assim, em 2015, em uma aula de História Geral e do Brasil do segundo ano do colegial, na qual era discutida memória negra no Brasil e resquícios da escravidão acabei sendo apresentada por intermédio de um de meus colegas de turma, à música do grupo Inquérito; ‘eu só peço à Deus1 . A canção em si é extremamente sensível e relembra por meio de sua letra atos horrendos cometidos na época da escravidão, assim como todo o sistema desumano e precário daquela estrutura social durante o Brasil Colônia e Império. (E que fique claro entre nós, não apenas daquele sistema, mas o mesmo que vemos hoje em dia, apenas reconfigurado).

Caso continue escutando, a canção chegará ao minuto 1’27” no qual o grupo Inquérito traz a seguinte citação; “...bandeirantes, anhanguera, raposo, castelo são heróis ou algoz? vai ver o que eles fizeram. botar o nome desses caras nas estradas é cruel, é o mesmo que rodovia Hitler em israel”. Naquele exato momento em que à ouvi pela primeira vez, essa sequência de palavras me veio de espanto, e na época não consegui achar uma resposta ao nível para entender o meu desconforto com tais referências. Tento, até hoje, buscar possíveis paralelos.

Dessa forma, para iniciar esse raciocínio, se apenas levar em conta as atrocidades causadas à grupos minoritários, entre ambas figuras históricas (bandeirantes X Hitler), essa comparação ainda sim poderia vir a ser problematizada. Mas, ao meu ver, a crítica do grupo Inquérito nessa parte da música se dá, especialmente, em relação à órgãos representativos do governo terem o interesse de nomear ruas, avenidas, praças e rodovias com nomes de personalidades historicamente emblemáticas e controversas. Nesse sentido, tais nomeações não somente negam a existência e importância de grupos indígenas e negros, como também contribuem para que mais uma vez essas mesmas minorias sejam colocadas à margem da história da formação da identidade nacional brasileira. E por conta disso, repenso e coloco em jogo tal questionamento, buscando entender se seria mesmo comparável a nomeação da rodovia dos bandeirantes (e outras) no Brasil e uma possível rodovia Hitler no Estado de Israel?

Já deixo claro a minha posição, afirmando que; ‘não, não seria possível’. Pelo menos não no sentido de comparação proposto pela música; “... uma rodovia Hitler em israel”. Justifico minha afirmação partindo primeiro pelo fato de que a composição histórico-social do Brasil é estritamente marcada pela discriminação e marginalização de populações socialmente minoritárias. E que tal construção e consciência, de um pertencimento nacional dentro de uma composição como o Brasil, acabou por segregar as populações afetadas pelas bandeiras à uma ideia de não-nação e/ou não-cidadão, não possuindo, em sua maioria, direitos pelas narrativas oficiais constituintes de país. Dessa forma, essa mesma construção racista brasileira é a que possibilitou com que tais nomeações fossem aceitas – nitidamente representativo daquilo que a nação considera enquanto herói. Se torna controverso encontrar em um país formado por 56,2% de sua população autodeclarada negra ou parda, segundo dados da PNAD2 , monumentos à figuras históricas como de ‘Borba Gato’ (bandeirante e escravocrata do século XVII) em Santo Amaro, distrito da cidade de São Paulo.

Em contramão, ao debruçar sobre o caso israelense, a formação identitária nacional veio ao contrário. Apesar de um país jovem, a construção e afirmação de uma memória nacional foi essencial para a consolidação do Estado em 1948 - enraizada na memória da Shoá, como uma memória de não apagamento. Dessa forma, Israel nunca possuiria ‘... uma rodovia Hitler em israel’ como a música trás, já que os/as afetados/as pelas perseguições nazistas foram também aqueles e aquelas que fundaram a nação israelense e legitimaram suas presenças enquanto cidadãos. A repulsa pelo nazismo e pela figura histórica de Hitler é uma repulsa identitária de caráter histórico nacional, que se dá por intermédio de construção dessa memória coletiva.

Porém, ao pensarmos Israel, enquanto Estado, outros apagamentos históricos são apresentados. Essa mesma construção histórica de nação que repudia figuras como Hitler é a que permite que em grande maioria das cidades israelenses haja ruas e praças nomeados com grandes figuras do militarismo israelense. Talvez essa seja uma possível comparação entre Rodovia dos Bandeiras no Brasil e ruas e praças com nomes de personagens da alta patente do exército. Claro que novamente não pretendo com tal apresentação a intenção de comparar ambas atrocidades, mas sim repensar possíveis construções das figuras de heroísmos em cada país.

Entendo também que não me é de meu interessante trazer esse tipo de discussão nesse artigo, possivelmente seria mais proveitoso uma segunda leva e, assim, a contínua discussão aprofundada sobre construções identitárias, e como a sua constante tentativa de unificação nacional acaba por criar um roteiro de história única, gerando apagamentos contínuos da multidisciplinaridade e pluralidade de diversas outras narrativas de grupos sociais constituintes de país.

Dessa forma, finalizo da mesma forma que inicio - buscando novamente respostas não conclusivas aos meus questionamentos turvos. Em breves reflexões custosas posso finalmente dar por encerrado meu ano de 2015, ou pelo menos um até logo.


1INQUÉRITO. Eu só peço à Deus: Álbum Corpo e Alma, 2015. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=GJpvK7CjIvo. Acesso em 24 de dezembro de 2020.
2Pesquisa Nacional de Amostras por Domínio, 2019. Disponível em: https://educa.ibge.gov.br/jovens/conheca-o-brasil/populacao/18319-cor-ou-raca.html. Acesso em 24 de dezembro de 2020.


Tamara Crespin é judia e sionista. Estudante de Arquitetura e Urbanismo pela Associação Escola da Cidade, possui produções vinculadas aos campos de design e artes plásticas e pesquisas em arquitetura, cultura e tradição judaica e suas manifestações no cenário atual.

Os textos dos nossos colaboradores não refletem, necessariamente, as posições do instituto.

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