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Israel e o novo governo norte-americano

Por Samuel Feldberg
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A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e a guinada à direita logo no início de seu governo, foram vistos em Israel como uma indicação do alinhamento potencial entre os dois governos. No encontro promovido pelo Instituto de Estudos sobre Segurança Nacional (INSS) era nítida a percepção por parte dos ministros israelenses da “carta branca” que devem receber do novo governo norte-americano em relação a sua política frente aos palestinos. A ministra da justiça, Ayelet Shaked, enfatizou a tendência mundial que inclui a eleição de Trump, o Brexit, o recrudescimento da xenofobia e o fortalecimento da direita na Europa e o fortalecimento dos sentimentos nacionalistas, em detrimento da globalização e do multiculturalismo. E instou os israelenses a “abraçar uma reação natural contra o terror islâmico  e a imigração em massa”.

O primeiro-ministro Netanyahu somou-se ao processo, gerando uma crise internacional ao “twitar” um elogio à proposta de construção do muro entre os EUA e o México, citando o exemplo bem sucedido da barreira que hoje separa Israel do Egito. O ministro da educação, Naftali Bennett , não usou meias palavras ao defender sua proposta de anexação da área C da Cisjordânia, onde se encontra a maior parte dos assentamentos israelenses isolados, que deveriam ser evacuados no caso de um acordo para a criação de um estado palestino independente. Segundo Bennett, um estado palestino não é viável, e uma autonomia ampliada seria a solução mais apropriada. E Avigdor Liberman, ministro da defesa, lembrou sua proposta de um acordo com os palestinos, no qual haveria troca de territórios, com as populações que neles vivem, ou seja, a transferência com os territórios de parte da população árabe-israelense.
         
Mas apesar dessas expressões da direita radical israelense, hoje no poder, a democracia e seus “checks and balances” continuam funcionando: nessa mesma semana o soldado Azaria, acusado de matar a sangue frio um terrorista palestino já desarmado, aguarda a definição de sua condenação, reforçando os valores morais da sociedade e das forças armadas. E na Cisjordânia, encerrou-se um longo capítulo de uma disputa entre colonos e palestinos proprietários de terras. A Corte Suprema determinou que o assentamento de Amona, construído ilegalmente, fosse evacuado e assim o fizeram as forças de segurança, apesar da oposição dos setores mais radicais do governo e da sociedade.
           
A discussão em torno de uma solução para a questão palestina também teve novos desdobramentos com a manifestação, através dos mais amplos meios de comunicação, de um grupo de 200 ex-oficiais de alta patente dos mais variados setores da segurança e inteligência de Israel, exigindo o final da presença israelense na área C da Cisjordânia, justamente aquela que Bennett propõe anexar. Segundo eles, tem que haver uma separação da população palestina dos colonos radicais e hostis, que promovem a delegitimização de Israel no cenário internacional. Mas aparentemente, somente se Netanyahu perder o mandato por causa das acusações de corrupção que vem sofrendo, haverá alguma mudança significativa neste cenário.
 


*Samuel Feldberg é professor de Relações Internacionais da USP,  fellow do Instituto Dayan da Universidade de Tel Aviv, e do Institute for Israel Studies da Universidade de Brandeis. Especialista em conflitos internacionais, encontra-se atualmente em Israel realizando uma pesquisa sobre democracia e a população árabe-israelense.


Samuel Feldberg é membro do Conselho Acadêmico do IBI, professor de Relações Internacionais da USP, Research Fellow do Centro Moshe Dayan da Universidade de Tel Aviv e do Israel Studies Institute da Universidade Brandeis

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