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Não basta rememorar: é preciso o comprometimento com os aprendizados de Tisha Beav

Por Salomão Nicilovitz
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Em Tisha Beav se lembra, se permite à memória tornar-se protagonista do dia. Se evocam marcas indeléveis tatuadas na história dos judeus, rastros de um passado atroz, distante e ao mesmo tempo presente, morto mas também ativo.

O 9º dia de Av - 5º mês do calendário judaico - é um dia aberto ao lamento. Se relembra a destruição do Primeiro e do Segundo Templo de Israel, nos anos 586 a.C e 70, respectivamente. É um dia de jejum, seja de comida ou da rotina. Momento do ano em que se olha para si e para quem está a sua volta, meditando sobre quem somos e como chegamos até onde hoje estamos; reclamamos a opressão e a tristeza, nos indignamos com injustiça e com a indiferença, reconhecendo que ambas são causadas por nós, gente humana, extremamente humana.

Mas atenção! Relembrar não é ressentir: o ressentimento é o pai do ódio, e foi justamente este, o ódio gratuito, o responsável pela destruição de Jerusalém. O ódio é afeto impotente, pois oriundo da tristeza, da falta, da mágoa. O ódio é reativo, vingativo, destruidor. O ódio não cria, mas devasta. 

A memória que ativamos em Tisha Be’av deve seguir em outra direção, no caminho da construção e da alteridade. Neste dia, devemos olhar para nós e enxergar o outro: afinal, não existem nas vozes que escutamos, ecos das vozes que emudeceram? É nosso dever realizar estas conexões. Um dia os que gritaram fomos nós, e hoje? Quem grita pela vida e se vê sendo atropelado por ela própria?

Em Tisha Be’av contamos a história de Kamtza e Bar Kamtza.

Certa vez, um homem deu um banquete e pediu para que convidassem seu grande amigo Kamtza. O convite, porém, foi enviado por engano a Bar Kamtza, seu maior inimigo. Quando Bar Kamtza chegou a festa, o homem mandou-o embora. Bar Kamtza implorou para ficar, chegando a sugerir que pagaria o jantar de todos os convidados, mas o homem, inflexível, mandou-o para rua. 

Como vingança, Bar Kamtza tramou contra a cidade, levando a sua destruição. 

Que neste Tisha Beav não tenhamos que escolher entre Kamtzas e Bar Kamtzas. Que optemos pela afirmação da vida e do diferente, não sucumbindo ao ódio gratuito que em nossos tempos transborda. Que sejamos capazes de fugir dos erros que praticamos e tantas vezes insistimos em seguir praticando.


Salomão Nicilovitz é estudante de História da UFRGS e colaborador do IBI em Porto Alegre.

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