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As Manifestações da Rua Balfour em Julho de 2020

Por Rodrigo Baumworcel
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Quatorze de julho de 2020, duzentos e trinta e um anos da queda da Bastilha. A praça Paris, esquina com a Rua Balfour, está lotada como não se viu há anos. Manifestantes sobem em prédios e também sobre pontos de ônibus. No palco, rappers e lideranças do acampamento montado na frente da casa do Primeiro Ministro Netanyahu. O som das vuvuzelas (eternizadas na copa de 2010) toma um contexto político, seu objetivo é não deixar Bibi descansar. Jovens e famílias jerusalemitas se misturam com os manifestantes que acamparam em frente à casa do Primeiro Ministro Bibi Netanyahu.

Ok, vamos voltar no tempo dois meses, estamos em maio de 2020. As políticas estatais frente à pandemia do COVID-19 obrigam os bares, os restaurantes, todo o ramo da cultura, a fechar. O terceiro setor, os chamados “independentes”, trabalhadores autônomos, desde advogados até atores, e todo o setor do turismo está naufragando, sem nenhum horizonte de como ou quando retomar os negócios.

O Primeiro Ministro de Israel - Bibi Netanyahu - junto com o Comitê do Coronavírus prometem ajuda financeira para que os autônomos consigam sobreviver. Essa ajuda até que entra na conta de alguns, mas somente uma primeira parcela. Outros,= não viram nem um centavo em sua conta bancária, simplesmente pois o sistema não conseguiu dar conta da burocracia para pagar à todos. Lideranças culturais, entre elas Assaf Amdorski - músico e produtor cultural - montam o acampamento para manifestar contra a falta de liderança frente à crise causada pela pandemia. O personagem Assaf Amdorski se mistura com a história das manifestações no momento em que ele publica um texto conclamando toda a sociedade israelense a comemorar a queda da Bastilha na frente da casa do Bibi. Porque ele publica esse texto?

Por um lado, ele não vê nenhuma ajuda do governo ao terceiro setor no meio da pandemia. Por outro lado, ele quer criar uma junção entre todos aqueles que estão insatisfeitos com as três eleições que tivemos no último ano em Israel - todas para o Parlamento -, com aqueles que criticam a violência policial que matou o jovem Salomon Teka em Kiriat Chaim no último verão e também o jovem autista Ayad Al-Hallak na cidade velha de Jerusalém há alguns meses, com aqueles que pedem o julgamento das pastas de corrupção do primeiro ministro (ao todo Bibi está sendo julgado em 4 casos de corrupção). 

Até então, a praça estava sendo ocupada semanalmente por manifestantes. Esses manifestantes, que se auto intitulam de “o movimento das Bandeiras Pretas”, eram pessoas da classe média, donos de empresas, professores de Universidades, e outros grupos da elite histórica israelense (1). Pessoalmente, essas manifestações não me pareciam convidativas. Eu não me sentia conectado com essa parcela da sociedade israelense. No entanto, os motivos político-sociais deles eram bem claros e aceitos por grande parte da sociedade Israelense. 

A celebração da queda da Bastilha transformou esse cenário. A aglomeração de pessoas de todas as camadas da sociedade israelense, junto com performances artísticas, rappers, fotos de Ayad Al-Hallak e de Salomon Teka mostrava que o convite feito por Assaf Amdorski deu certo. O resultado foi uma noite na qual, após a hora determinada pela polícia para a manifestação terminar, os manifestantes seguiram em seu direito civil de permanecer na rua. Para dispersar a população, a polícia de fronteira (presente na cidade de Jerusalém) trouxe cavalos e jatos d’água. 

No dia seguinte, a violência policial tomou a primeira página dos jornais israelenses.A polícia apareceu pelamanhã para desmontar o acampamento dos produtores culturais e dos autônomos na frente da casa do Bibi. Jovens que até então estavam alheios à sucessão de manifestações meio-cheias/meio-vazias, começaram a sair para as ruas todas as noites. As redes sociais se encheram de vídeos de policiais batendo em manifestantes. O debate público israelense gira em torno do direito de manifestar, sem muito entender quais são as pautas dos manifestantes. A polícia, junto com o ministro da defesa interna, convidaram lideranças das manifestações à sentar em uma mesa redonda para debater o futuro do que se passa na Rua Balfour. Os convidados se negaram, dizendo que não há uma única liderança para toda a sociedade israelense que demanda justiça. 

Um exemplo para a transformação das manifestações da Rua Balfour foi a estudante de cinema Tal Honig e sua irmã estudante de Belas Artes, Michal Honig. Elas criaram uma performance na qual, junto com outras pessoas, saem às manifestações segurando espelhos. Em entrevista as irmãs Honig dizem: 

“Saímos às ruas pela primeira vez com espelhos, no dia 14 de julho, o dia da queda de Bastilha. Houve uma manifestação em Balfour que abriu uma série de grandes manifestações."

O objetivo é colocar um espelho na frente da polícia e revelar mecanismos de poder. O espelho reflete o que está à sua frente; se houver algo bom, aparecerá algo bom; se houver algo ruim, aparecerá algo ruim.

Dos manifestantes, recebemos como reação um senso de entendimento sem palavras.  A mensagem é transmitida com precisão, muitos param de entoar gritos, o ato em si é um reflexo da situação (espelhamento). E isso também é instigante dentro da estrutura do protesto e, assim que os manifestantes se vêem no espelho, isso causa uma expansão da consciência e fortalece o poder da união.

Com relação aos policiais, é muito interessante. A princípio, eles desviam o olhar e não querem olhar uns para os outros depois parecem sentir com raiva. Uma policial ficou nervosa e disse a seu colega: ‘Tire o espelho dela’, este,levantou as mãos em resposta que não havia nada a fazer, ela não podia suportar. A mensagem que (o que?) passa é muito poderosa, mas não é violenta, e esse é o ponto. Outra coisa interessante que acontece é que, na verdade, transferimos a polícia para o nosso lado, pelo menos na imagem, e isso faz parte da mensagem, a polícia faz parte da luta, não deveria ser contra a luta. Infelizmente ainda não estamos lá.

Pensamos que, por causa do poder do espelho, a mensagem passa sem palavras, e também chega a todos, não importando qual idioma ele fala e não importando sua origem.”

Enquanto as irmãs Tal e Michal são um exemplo da geração mais nova, que traz a performance artística como manifestação civíl, é importante ressaltar que existem outras representações nas manifestações. Nesse sentido, o jornalista Uri Misgav, do Haaretz, também escreve sobre a multiplicidade de gerações nas ruas. Ele escreveu sobre as manifestações pós 14 de julho (2): 

“A polícia invadiu uma manifestação na sexta-feira, retirando centenas de manifestantes de caminhão. Seus homens estão armados com armas de fogo, alguns a cavalo. Eles contêm o protesto com autoritarismo e sem dificuldade, até o momento em que o comando no campo decide mudar a imagem de uma só vez. Então, os soldados da tropa de Elite Yasam e da Polícia de Fronteiras, que receberam seu treinamento nos territórios ocupados, entram em ação. Eles empurram, espancam, derrubam e arrastam os manifestantes, fazem detenções falsas e fazem queixas sobre ‘agredir um policial’. Enquanto isso, seus camaradas azuis estão entregando relatórios de máscaras àqueles que não as usam.

Isso não os ajudará a enfrentar a tecnologia da geração mais jovem. Nós esperamos por eles por muitos anos, e finalmente chegou o momento. Esta é uma mudança dramática. Eu o noto na minha área imediata e ouço sobre ele de todos os lados. Os jovens estão indo para Jerusalém, pingando rebelião juvenil, e juntam-se às gerações anteriores. Eles trazem consigo um novo espírito, energia insana e uma combinação avassaladora de raiva, determinação, militância e fé. Eles não têm emprego, não têm futuro, não vêem com os olhos. Levará mais tempo, mas acredito que eles e seus pais derrubarão Netanyahu.”

Essa mistura de gerações que saem às ruas querem um país no qual nós possamos ver um futuro sem corrupção, com os políticos trabalhando para o povo e não para si, sem violência policial, sem assassinatos políticos, com assistência social para os necessitados. Será que o que está acontecendo em Israel é tão diferente das manifestações em Portland (3)? Será que esse desejo é tão diferente do desejo de milhões de brasileiros que se veêm sem futuro em um país descoordenado pelo Bolsonaro e o Bolsonarismo? A rua Balfour hoje é um grito para que entendemos Israel de uma maneira complexa. A rua Balfour hoje é um pedido para que deixemos de lado o romantismo de uma Israel que não existe, nunca existiu.


Tal e Michal em sua performance. Fonte: Facebook - Omer Shemer


Horas mais tarde, as duas irmãs de mãos dadas no meio da reação policial à manifestação. Fonte: Facebook - Yair Meyuhas


(1) Que o sociólogo Baruch Kimmerling chamou de Ashkal - Ashkenazim, Seculares, Antigos socialistas, nacionalistas. Ver mais em: Kimmerling, Baruch. 1983. Zionism and Territory: the Socio-Territorial dimensions of Zionist Politics. Berkley: University of California Press

(2) Clique aqui.

(3) Clique aqui.


Rodrigo Baumworcel nasceu e foi criado no Rio de Janeiro. Fruto da educação judaica comunitária, hoje termina seu Mestrado na Universidade Hebraica em Educação Judaica e é estudante de Rabinato na HUC. Mora em Jerusalém mas ainda escuta Novos Baianos.

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