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O que pensa o público israelense sobre as principais questões da política externa de Israel?

Por Revital Poleg
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Como o presidente eleito Jair Bolsonaro já afirmou que pretende transferir a Embaixada do Brasil em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém, capital de Israel, é interessante notar que, de acordo com a pesquisa conduzida pelo Mitvim - Instituto Israelense de Políticas Externas Regionais, 54% dos israelenses consideram muito ou bastante significativo que países adicionais, além dos Estados Unidos e Guatemala, transfiram suas embaixadas em Israel para Jerusalém.

A pesquisa também mostra que os israelenses estão divididos em relação às principais prioridades da política externa de seu país. Melhorar as relações com os estados árabes e promover o processo de paz entre israelenses e palestinos estão em primeiro lugar, seguidos pela contenção aos boicotes a Israel e pelo avanço dos laços com a Rússia.

As principais conclusões do 6º índice anual de opinião pública sobre a política externa de Israel, realizada por Mitvim, foram publicados recentamente. As perguntas feitas foram agrupadas em quatro categorias: relações exteriores de Israel, o Serviço Exterior de Israel, Israel e regiões vizinhas, e Israel e os palestinos.

Os resultados apresentados neste artigo refletem um interessante panorama de posições sobre questões-chave que são comuns entre o público israelense, e podem ajudar a entender a atitude geral em relação a esses assuntos, quando relevante. Vamos nos aprofundar nisso, então.

Não é nada surpreende que as relações entre Israel e os EUA foram classificadas em 7,75, numa escala de 1 a 10, resultado que reflete uma melhoria crescente a cada ano, desde 2015. Continuando a mesma tendência conhecida, os israelenses vêem a Rússia como o país mais importante para Israel além dos EUA, seguido pela Alemanha, Grã- Bretanha, China, França e Egito.

É muito interessante notar que 47% dos judeus e árabes em Israel acham que, ao tomar decisões, Israel deve levar em conta, em grande medida, as implicações de suas decisões sobre os judeus da diáspora, em comparação com 38% que acham que esta questão só deva ser levada em conta minimamente ou nada. Este é um ponto bem importante, considerando recentes acontecimentos, por exemplo o ataque terrorista na sinagoga de Pittsburgh, e por conta das questões complexas que existem hoje nas relações entre Israel e os judeus da diáspora, como os direitos de rezar no Muro das Lamentações, casamento e conversão.

E o conflito israelense-palestino?

É altamente instigante notar que 49% dos israelenses pensam que um avanço nos laços entre Israel e os estados árabes pode ser alcançado mesmo SEM progresso nos processos de paz israelo-palestino. Apenas 33% consideram que tal avanço depende de avanços nos processos de paz.

Simultaneamente, a maioria dos israelenses deseja que Israel lance negociações com a Autoridade Palestina para um acordo de paz (50% contra 36%), mas não querem que Israel mantenha negociações com o Hamas por um cessar-fogo a longo prazo em Gaza (51% contra 32%).

Um número maior de israelenses consideram que a contínua divisão entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza serve melhor a Israel (38%) do que a uma reunificação entre as localidades (27%). Mais entrevistados preferem que Israel melhore as condições de vida na Faixa de Gaza (43%) em vez de aumentar a pressão econômica nessa zona (38%).

Sobre o papel dos EUA no conflto, 21% dos israelenses acham que a política do presidente dos EUA, Donald Trump, pode promover a paz entre israelenses e palestinos. Enquanto 29% considera que a atual política dos EUA vai distanciar a paz da região, 30% entende que as tomadas de decisão de Trump não afetam os caminhos para a paz.

A qual região Israel pertence foi outra questão interessante, e os resultados mostram que o público israelense está, de fato, dividido nesse aspecto: 28% consideram que Israel faz parte do Oriente Médio, enquanto 23% nos vêem como parte da Europa ou da Bacia do Mediterrâneo (22%).

A maioria dos israelenses (69%) entende que a cooperação regional entre Israel e os países do Oriente Médio é possível, e 19% que não é o caso. O Egito (24%) e a Arábia Saudita (23%) são os países árabes com os quais os israelenses consideram mais importante cooperar. Porém, 28% considera que Israel não deva nem tentar desenvolver cooperação com nenhum país árabe.

Então, você vai visitar os países árabes? Bem, embora a maioria pense que a cooperação é possível, 41% dos israelenses não gostariam de visitar nenhum país árabe, mesmo com laços normais entre Israel e seus vizinhos. Os Emirados Árabes Unidos (13%) e o Egito (12%) são os países que os israelenses demonstraram mais interesse em visitar. Levando em conta a recente e importante visita do primeiro-ministro Netanyahu a Omã, e da equipe de judô israelense em Dubai, este é um resultado interessante.

Outro resultado muito importante refere-se às relações Israel – União Europeia: A maioria dos israelenses pensa que a UE é atualmente mais um inimigo de Israel (55%) do que um amigo (18%). Se levarmos em consideração que a UE é o primeiro parceiro comercial de Israel, com um total de comércio de aproximadamente 36,2 bilhões de euros em 2017, essa conclusão precisa ser mais explorada. 70% dos israelenses acreditam que a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha compõem o grupo mais importante de estados-membros da UE, com os quais Israel deve desenvolver laços mais estreitos.O público israelense está dividido sobre Israel tentar melhorar suas relações com a Turquia (42%) ou não (45%).

Para finalizar, vejamos algumas descobertas sobre o serviço externo de Israel em geral. Bem, os israelenses classificam a política externa do governo israelense em 5,22 numa escala de 1 a 10. Esse ranking vem melhorando a cada ano desde 2015. 58% dos israelenses acreditam que a falta de um ministro de relações exteriores em tempo integral tem impacto negativo nas relações exteriores de Israel, enquanto 5% consideram que tem um impacto positivo.

Vale ressaltar, porém, que 42% dos israelenses não têm opinião sobre quem deve servir como ministro das Relações Exteriores de Israel. Já para aqueles que têm uma opinião e esse respeito, os principais candidatos apontados são Yair Lapid e Benjamin Netanyahu (10% cada).

*** A 6ª pesquisa anual de opinião pública do Instituto Mitvim sobre a política externa de Israel foi realizada em setembro de 2018, pelo Instituto Rafi Smith e em cooperação com Friedrich-Ebert-Stiftung, entre uma amostra representativa da população adulta de Israel (700 homens e mulheres, judeus e árabes) e com uma margem de erro de 3,5%.


Revital Poleg foi diplomata do Ministério das Relações Exteriores de Israel e Representante Geral da Agência Judaica no Brasil de maio de 2013 a agosto de 2018.

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