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A mobilidade social em Israel não é apenas um slogan

Por Revital Poleg
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O brilho em seus olhos, o entusiasmo e a  energia positiva  que fluem desse grupo de jovens estudantes, todos membros da comunidade etíope israelense, estimulam qualquer um que entra na sala de aula do programa de treinamento Tech Career. Eles me saudaram calorosamente e eu fiquei completamente cativada. "Qual é o seu sonho?" perguntei.

"Abrir uma startup" alguns responderam imediatamente, sem sequer hesitar. E eles vão! Posso prometer a todos que é apenas uma questão de tempo e não muito. Na verdade, eles já estão a caminho. Eles têm o desejo, estão cheios de motivação e determinados a se tornarem bem-sucedidos. Como eu sei? Simplesmente porque posso sentir isso no ar. Simples? Bem, não tanto. Os membros da comunidade etíope são, estatisticamente e factualmente, uma das comunidades mais fracas e vulneráveis da sociedade israelense, cujos processos de mobilidade social são os mais complexos e desafiadores. O programa Tech Carreer está mudando a regra do jogo e facilita a esses jovens, homens e mulheres, a entrada para o setor de alta tecnologia, não só para o centro da sociedade israelense, mas ao seu topo, ao coração da Nação Startup e às posições mais prestigiosas, gratificantes e ambiciosas. O Tech Career faz isso através de treinamento profissional apropriado. Mais de 800 graduados já estão integrados em posições qualificadas e enriquecedoras de alta tecnologia, e esse número continua crescendo.

Takele Mekonen, CEO da Tech Carrer, que me convidou para conhecer a organização, é mesmo um exemplo de líder que se dedica ao avanço de sua comunidade. Já aos 16 anos na Etiópia, Takele participava de atividades de missões secretas lideradas por Israel para salvar os membros de sua comunidade que sofriam fome, doenças e violência, e os trouxe para Israel. Ele tomou parte ativa na Operação Moisés (1984), fez aliá sozinho e construiu sua vida e família em Israel, começando do zero. Embora tenha ingressado no mundo da alta tecnologia, ele optou por se engajar em educação e desenvolvimento de liderança, e assim tive a sorte de conhecê-lo e cooperar com ele, há mais de uma década, quando ele dirigiu um programa de estudo acadêmico exclusivo para membros da sua comunidade. “Então,” perguntei a ele, “por que precisamos de um programa especial e separado para os membros da comunidade etíope, para que possam se integrar ao mundo da alta tecnologia?”

“Para a maioria dos jovens etíopes-israelenses, o setor de alta tecnologia é inacessível, uma vez que as lacunas sociais e econômicas que os caracterizam impedem que eles alcancem o ensino superior apropriado e se integrem na área” explicou Takele. E continuou, "além disso, de acordo com o Índice de Diversidade de 2017, realizado pela Comissão para Igualdade de Oportunidades no Ministério da Economia e apresentado ao Presidente do Estado, a comunidade etíope sofre de extrema diferenciação ocupacional. As diferenças salariais entre os israelenses etíopes ainda são os mais altos de todas as diferenças salariais dos grupos examinados. Os membros da comunidade não estão integrados em muitos ramos do mercado de trabalho e estão inseridos em indústrias nas quais o nível de renda é baixo.”

Qual é o modelo de treinamento no qual Tech Career se baseia? “Este é um programa integrado que inclui seis componentes principais” diz Takele, “treinamento vocacional nos campos mais sofisticados e necessários para a indústria de alta tecnologia, como cyber, QA, análise de sistemas e muito mais, o que leva entre 6-10 meses, dependendo do assunto. Soluções de alojamento perto do campus para garantir total dedicação e proximidade ao laboratório de computadores, que permanece aberto 24 horas por dia a serviço dos estudantes, 200 horas de desenvolvimento de carreira, incluindo oficinas sobre o processo de colocação, simulações para entrevistas de emprego, visitas a empresas de alta tecnologia etc. Um serviço de orientação é oferecido por executivos da indústria de alta tecnologia (mais de 200 empresas apoiam o programa, e muitos dos graduados integram-se lá eventualmente). A colocação é naturalmente o principal objetivo do programa, com 92% de sucesso e crescimento profissional contínuo. Por último, mas não menos importante, é o voluntariado e o envolvimento social, que todos os alunos estão incumbidos de participar, seguindo a ideia de que, se você quer ser um cidadão bom e contribuinte, você não apenas recebe da sociedade, mas também deve retribuir.”

O programa é subsidiado, com o apoio combinado do governo e doadores generosos, mas os próprios alunos, cuidadosamente selecionados, também participam dos custos. Esta é uma parte importante do conceito do programa e do senso de responsabilidade pessoal que os líderes do programa desejam fortalecer entre os participantes. É ainda mais inspirador saber que a iniciativa nasceu de um membro da própria  comunidade etíope-israelense. Foi Asher Elias, um empreendedor social, engenheiro de computação, membro de uma família que imigrou para Israel da Etiópia, que experimentou pessoalmente, já em 2003, as barreiras enfrentadas pelos jovens de sua comunidade a serem integrados na indústria de alta tecnologia. Ele tomou a iniciativa e decidiu assumir a responsabilidade e mudar essa realidade difícil. Exatamente como foi dito no Pirkei Avot (a compilação dos ensinamentos éticos judaicos), pelo sábio Rabino Hillel: “Se eu não sou por mim, quem será por mim?”

Esta incrível história de sucesso certamente fornece muitas ideias interessantes para pensar e aprender. Diversidade, igualdade de oportunidades e mobilidade social não são apenas slogans, mas desafios que podem ser alcançados. É um processo, e ainda há um longo caminho pela frente, mas cada estrada começa com um desejo de fazer diferença, e com um primeiro passo. O Tech Career está definitivamente nessa estrada, e a sociedade israelense já ganha com isso.

O modelo pode até ser adotado em outros países. Será que o Brasil seria o próximo?


Revital Poleg foi diplomata do Ministério das Relações Exteriores de Israel e Representante Geral da Agência Judaica no Brasil de maio de 2013 a agosto de 2018.

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