O que se desprezou na discussão sobre o nazismo e a esquerda
04 abr 19

O que se desprezou na discussão sobre o nazismo e a esquerda

Rafael Reuben

Quando o presidente Bolsonaro, ecoando um discurso comum na extrema-direita brasileira, posiciona o nazismo na “esquerda” do espectro político, essa não é uma afirmação acadêmica. Não é um chamado para que historiadores e cientistas políticos venham esclarecer o significado do conceito “esquerda”, analisar e interpretar os elementos do nazismo e compará-lo com o comunismo.

Não que eu discorde da necessidade de fazê-lo – pelo contrário, a declaração exige que se ressalte que o nazismo, embora tenha tido semelhanças com ditaduras e regimes totalitários de esquerda, se diferenciou pela exaltação da identidade nacional e cultural, pelo racismo intrínseco, pelo sistema econômico capitalista corporativista com preservação das elites, entre outros.

Deve-se lembrar também que “esquerda” e “direita” são rótulos fluidos, dependentes do contexto – surgiram no processo da revolução francesa para opôr nobres e clérigos a burgueses, e desde então já serviram para comparar trotskistas a stalinistas, democratas a republicanos, e até reformistas a conservadores no regime islâmico do Irã.

Mas, tendo resumido a análise que muitos outros vêm fazendo com maior profundidade, meu ponto é: Bolsonaro e a extrema-direita não estão interessados nesse debate.

Ao apresentar a “tese” de que o nazismo é de esquerda, eles não partem de argumentos históricos, semânticos ou o que seja – e sim de um objetivo ideológico claro: associar o mal absoluto ao campo político oposto. Ao pintar de “esquerdista” o maior símbolo da barbárie e da opressão na cultura ocidental, apresenta-se a direita como pura e imune a qualquer falha.

E o risco que isso implica é maior do que qualquer caos intelectual ou salada conceitual – dos quais um bom curso de história dá conta.

Essa narrativa periga negar o próprio caráter humano do mal: ao invés de reconhecê-lo como resultado do fanatismo, do ódio, da desumanização do outro e do alinhamento de interesses políticos e econômicos com uma maioria indiferente – fenômenos que podem emergir em qualquer sociedade em crise -, o mal é descrito como privilégio de um só campo político (no caso, a esquerda), enquanto o outro é visto como imune à barbárie.

Ao atribuir as atrocidades do nazismo à esquerda, Bolsonaro priva a direita dos instrumentos de combate ao fanatismo e ao racismo que a civilização ocidental precisou do trauma do nazismo para conquistar – a conscientização de que o mal absoluto não vem de monstros ou de alienígenas, mas sim de seres humanos normativos e cultos que, diante de condições extremas, aceitam a selvageria como necessária para a resolução dos seus problemas.

O mal não é monopólio da esquerda ou da direita, de religiosos ou laicos, ricos ou pobres, mulheres ou homens, brancos ou negros, muçulmanos ou budistas, ignorantes ou cultos – e assim, é responsabilidade de todos e de cada um educar suas próprias crianças e jovens a respeitar e valorizar o outro para que o mal não se volte contra ele.

—

As opiniões e análises acima são pessoais, e não representam o ministério do exterior de Israel, o Yad Vashem ou nenhuma outra instituição.

Artigos Relacionados


David Grossman faz discurso para israelenses e palestinos enlutados

Calendar icon 20 de abril de 2018

Escritor, que perdeu filho na guerra, participou de ato alternativo para recordar vítimas do conflito. Confira texto na íntegra.

Arrow right icon Leia mais

Pelas mãos de ministra de origem etíope, etíopes de origem judaica chegam a Israel como cidadãos

Calendar icon 4 de dezembro de 2020

Centenas de imigrantes etíopes chegaram ontem no aeroporto internacional de Israel, com uma ação do governo para cumprir sua promessa de reunir de famílias divididas entre os dois países. A ocasião foi uma cerimônia festiva e emocionante. Uma grande delegação de oficiais israelenses deu as boas-vindas ao grupo, e Pnina Tamano-Shata, a primeira ministra do […]

Arrow right icon Leia mais

O Natal do Coronavírus será de crise em Belém, o berço do cristianismo

Calendar icon 17 de dezembro de 2020

TEL AVIV – Como será o Natal do infame ano de 2020 em Belém, a cidade onde, segundo a tradição cristã, Jesus nasceu? Como serão as festividades na Praça da Manjedoura e na Igreja da Natividade, na Era do Coronavírus? Os palestinos tentam responder a essas perguntas em meio a uma crise sanitária e econômica […]

Arrow right icon Leia mais