O que se desprezou na discussão sobre o nazismo e a esquerda
Rafael Reuben
Quando o presidente Bolsonaro, ecoando um discurso comum na extrema-direita brasileira, posiciona o nazismo na “esquerda” do espectro político, essa não é uma afirmação acadêmica. Não é um chamado para que historiadores e cientistas políticos venham esclarecer o significado do conceito “esquerda”, analisar e interpretar os elementos do nazismo e compará-lo com o comunismo.
Não que eu discorde da necessidade de fazê-lo – pelo contrário, a declaração exige que se ressalte que o nazismo, embora tenha tido semelhanças com ditaduras e regimes totalitários de esquerda, se diferenciou pela exaltação da identidade nacional e cultural, pelo racismo intrínseco, pelo sistema econômico capitalista corporativista com preservação das elites, entre outros.
Deve-se lembrar também que “esquerda” e “direita” são rótulos fluidos, dependentes do contexto – surgiram no processo da revolução francesa para opôr nobres e clérigos a burgueses, e desde então já serviram para comparar trotskistas a stalinistas, democratas a republicanos, e até reformistas a conservadores no regime islâmico do Irã.
Mas, tendo resumido a análise que muitos outros vêm fazendo com maior profundidade, meu ponto é: Bolsonaro e a extrema-direita não estão interessados nesse debate.
Ao apresentar a “tese” de que o nazismo é de esquerda, eles não partem de argumentos históricos, semânticos ou o que seja – e sim de um objetivo ideológico claro: associar o mal absoluto ao campo político oposto. Ao pintar de “esquerdista” o maior símbolo da barbárie e da opressão na cultura ocidental, apresenta-se a direita como pura e imune a qualquer falha.
E o risco que isso implica é maior do que qualquer caos intelectual ou salada conceitual – dos quais um bom curso de história dá conta.
Essa narrativa periga negar o próprio caráter humano do mal: ao invés de reconhecê-lo como resultado do fanatismo, do ódio, da desumanização do outro e do alinhamento de interesses políticos e econômicos com uma maioria indiferente – fenômenos que podem emergir em qualquer sociedade em crise -, o mal é descrito como privilégio de um só campo político (no caso, a esquerda), enquanto o outro é visto como imune à barbárie.
Ao atribuir as atrocidades do nazismo à esquerda, Bolsonaro priva a direita dos instrumentos de combate ao fanatismo e ao racismo que a civilização ocidental precisou do trauma do nazismo para conquistar – a conscientização de que o mal absoluto não vem de monstros ou de alienígenas, mas sim de seres humanos normativos e cultos que, diante de condições extremas, aceitam a selvageria como necessária para a resolução dos seus problemas.
O mal não é monopólio da esquerda ou da direita, de religiosos ou laicos, ricos ou pobres, mulheres ou homens, brancos ou negros, muçulmanos ou budistas, ignorantes ou cultos – e assim, é responsabilidade de todos e de cada um educar suas próprias crianças e jovens a respeitar e valorizar o outro para que o mal não se volte contra ele.
—
Artigos Relacionados
Israel e o novo governo norte-americano
9 de março de 2017
A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e a guinada à direita logo no início de seu governo, foram vistos em Israel como uma indicação do alinhamento potencial entre os dois governos. No encontro promovido pelo Instituto de Estudos sobre Segurança Nacional (INSS) era nítida a percepção por parte dos ministros israelenses da “carta […]
Ação diplomática do Brasil com Israel deu lugar a uma demanda interna, afirma Casarões
12 de junho de 2019
O Oriente Médio é um ponto “incontornável” no que se refere às questões políticas mundiais e à economia global. Daí a atenção para a região ser cada vez maior, nas últimas décadas. Seja por interesses comerciais ou diplomáticos, diversos países vêm buscando estreitar laços com aquele território, entre eles o Brasil. As recentes tentativas de […]