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Por que falar sobre Auschwitz não pode ser um tabu

Por Rafael Kruchin
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“No campo [de concentração] umas das razões que podem impelir um deportado a sobreviver consiste em tornar-se uma testemunha”. É com essa frase que o filósofo Giorgio Agamben começa o livro “O que resta de Auschwitz”. Ela diz respeito aos muitos judeus que foram deportados aos campos de concentração e que lutaram por suas vidas para poderem testemunhar sobre aquilo que viveram. O mundo, para eles, precisava saber o que havia acontecido.

Corre nas redes sociais recente polêmica sobre a possibilidade de comparação entre a conjuntura política brasileira atual, de 2018, e a ascensão do nazismo na Alemanha, na primeira metade do século 20. Os que se arvoram como guardiões da memória do Holocausto, sempre a postos para disciplinar a conversa, denunciam os que falam “indevidamente” sobre aquele período. “Como se atrevem a comparar o discurso político contemporâneo e a violência das ruas com o ideário hitlerista? Vocês estão banalizando o Holocausto e desrespeitando as vítimas”, dizem alguns. Eu, porém, gostaria de propor o exercício contrário. É preciso que falemos sobre o Holocausto e o nazismo sem medo de fazê-lo, inclusive arriscando comparações, quando for o caso.

Isso porque, muitas vezes, somos levados a crer que a ascensão de movimentos autoritários (o fascismo, o nazismo ou a ditadura militar no Brasil) acontece em detrimento da vontade da população, de cima para baixo, recorrendo-se ao uso da força. A história mostra que não costuma ser assim. Frequentemente, tais movimentos são alçados ao governo pela vontade popular, o que implica reconhecer que a expressão autoritária não é prerrogativa dos “outros”, que se impõe a “nós”, mas se faz presente nos círculos mais íntimos de nossa família, de nossos amigos, de nossos vizinhos, quando não de nós mesmos.

Nesse sentido, importantes filósofos do século 20 propunham um olhar para a emergência dos regimes totalitários fora do contexto de exceção. Walter Benjamin, por exemplo, sugere que o fascismo – e/ou o nazismo – não seja pensado como um acidente da história, incompatível com o progresso humano e o avanço da civilização; assim, recomenda uma leitura da história por meio da qual o fascismo possa ser concebido.

Nessa ótica, em vez de nos distanciarmos do Holocausto conferindo-lhe status de excepcional, inimaginável e incomparável, devemos, ao contrário, utilizá-lo como referência para refletir sobre o presente. Isso significa entendê-lo como uma possibilidade real, que nos obriga a debatê-lo, mencioná-lo e, principalmente, compará-lo. E eis que poderemos evitá-lo.

Comparar a situação atual do Brasil com o esfacelamento da República de Weimar e a consolidação do Terceiro Reich na Alemanha, ou a atitude de um candidato à Presidência da República com a de um oficial da SS, em determinados contextos, não implica dizer que estão sendo erguidos campos de concentração no país ou que um candidato à Presidência fará o mesmo que um nazista dos anos 1940, se eleito. Tampouco trata-se, necessariamente, de uma banalização do fenômeno. O que está sendo dito é que deve-se condenar quaisquer coisas que se assemelhem ou que nos lembrem desse período atroz da história. Que devemos proteger minorias de discursos racistas, xenófobos e eugenistas. Pois sabe-se bem até onde a circulação desses discursos pode levar. E se não for para gritar “nunca mais”, de que vale a memória do Holocausto?

Falar sobre o Holocausto, ainda que em contextos distintos, é dar voz às testemunhas que lutaram para contar o que viveram, viram e ouviram. Voz esta que ecoa junto aos gritos abafados dos torturados nos porões do DOI-Codi na ditadura. É fazer soar o alarme dos que sobreviveram para nos dizer o que acontece quando fechamos os olhos para discursos de ódio. Não se trata de desrespeitar a catástrofe. É fazer viva a experiência devastadora, chamando a atenção para as condições que permitiram que o impossível acontecesse.

Entender Auschwitz como a pior experiência já conhecida é fundamental. Mas tratá-la como incomparável não parece ser uma boa ideia. Fazer da unicidade da experiência do Holocausto um tabu, uma verdade separada da realidade, da política e da linguagem, é ser solidário ao silenciamento nazista que desejava tornar os campos da morte também fábricas do esquecimento.

Quando fui a Auschwitz, voltei com a certeza de que não poderíamos nos distanciar do problema representado por sua memória relegando-a ao impensável. Como bem definiu Agamben, muito comumente o massacre dos judeus na Segunda Guerra Mundial é tomado por indizível, sendo empurrado para uma zona de adoração mística, de uma observância silenciosa que se faz como quando adora-se a um deus. “Proteger” o Holocausto nesses termos é, na verdade, encarcerá-lo, reproduzindo a própria lógica nazista: anular a memória. Se a shoah é o ponto cego de nossa consciência, é sobre isso que devemos falar.


Artigo originalmente publicado pelo Jornal Nexo no dia 23/10/2018.


Rafael Kruchin é mestre em sociologia pela USP

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