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Os Panteras Negras Israelenses

Por Rafael Kruchin
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No último dia 30 de junho, Salomon Teka, um jovem negro de apenas 18 anos, foi assassinado pela polícia. Para quem vive em São Paulo ou em Baltimore, fatos como esse já não surpreendem e são frequentes no noticiário, causando indignação cotidiana, especialmente entre os grupos mais vulneráveis. O caso, porém, não aconteceu no Brasil e nem nos Estados Unidos. Teka era um judeu de origem etíope que, há seis anos, emigrou para Israel. Ele foi morto em Kiryat Haim, perto da cidade de Haifa, na porção norte do país. Houve revolta. Líderes de movimentos contra a discriminação racial denunciaram o ocorrido afirmando que policiais brancos têm facilidade demais de puxar o gatilho diante de um cidadão negro.

Há hoje, em Israel, 120 mil pessoas de origem etíope. 40 mil delas são nascidas no país e têm o hebraico como língua materna. A chegada dessa comunidade teve início em meados dos anos 80, pouco depois que o rabino Ovadia Yossef reconheceu seus membros como judeus, encerrando um debate controverso no seio da comunidade judaica.

O translado desses imigrantes não foi nada fácil. Israel não mantinha relações diplomáticas com a Etiópia, o que inviabilizava a emigração direta. Mas à medida em que as condições de vida no país se deterioravam, principalmente por conta da guerra civil e da fome, aumentava a pressão das comunidades judaicas pelo mundo pelo resgate dessa população e sua transferência ao Estado judeu. Em 1984, com o apoio do Mossad, o serviço secreto israelense, agentes sudaneses atuaram para levar, clandestinamente, milhares de judeus etíopes ao Sudão. A saga era penosa e muitos morreram no caminho. Aqueles que sobreviveram foram transportados para Israel em mais de 30 vôos. A “Operação Moisés”, como ficou conhecida, foi a primeira de uma série que trouxe ao país dezenas de milhares de judeus negros de países africanos.

A despeito de os etíopes, em muitos casos, terem acessado melhores condições de vida em Israel do que em seu país de origem, o processo de absorção não os introduziu plenamente nos “sistemas de aceitação social”. Até hoje, encontram mais dificuldade de participação e representação na vida pública, bem como para conseguir empregos. Habitam as periferias e, com alguma frequência, são alvo de racismo e da violência policial.

A situação não raro desencadeia protestos. Logo após a morte de Salomon Teka, milhares de judeus etíopes organizaram manifestações contra a brutalidade da polícia, ecoando o movimento norte-americano Black Lives Matter. Ruas e estradas foram bloqueadas e o país, em toda sua extensão, sentiu os seus impactos. “Nem brancos, nem negros, somos todos seres humanos!”, gritavam os manifestantes.

A história da imigração de grupos marginais, que não correspondiam ao ideal dos judeus oriundos da Europa central e oriental (ashkenazim), laicos, veteranos, socialistas e nacionalistas (ou sionistas) - os WASPs de Israel, majoritários e hegemônicos nas primeiras décadas do Estado -, e os limites de sua absorção são fundamentalmente importantes para a compreensão da complexidade da sociedade israelense, muitas vezes ofuscada pela divisão étnico-religiosa entre árabes e judeus ou pelo conflito nacional entre israelenses e palestinos. A morte de Teka e os protestos que se seguiram, por exemplo, tiveram pouquíssima visibilidade fora do país, seja na imprensa, seja entre os ativistas pró-Israel ou pró-Palestina.

Antes dos etíopes, centenas de milhares de judeus sefaradim e mizrahim, oriundos do norte da África e de países do Oriente Médio, desembarcaram em Israel após terem sido obrigados a deixarem seus países em meio à violência antijudaica que acompanhou a ascensão dos nacionalismos árabe e islâmico nos anos 40 - e, em alguns casos, o alinhamento de setores dessas sociedades com o nazismo. No Iraque, por exemplo, em 1941, 137 judeus foram mortos, casas e lojas destruídas, no que ficou conhecido como o pogrom de Bagdá. Em 1948, ano da fundação do Estado de Israel, um homem de negócios foi enforcado na cidade de Basra e, em seguida, servidores públicos judeus foram exonerados. Dois anos depois, foi aprovada uma lei que restringia direitos da população judaica. Em 1951, dezenas de milhares de judeus já deixavam o Iraque. Fenômenos similares aconteceram em outros lugares no norte da África e no Oriente Médio, de onde muitos judeus saíram rumo a Israel.

A chegada de religiosos, tradicionalistas, falantes da língua árabe e de pele mais escura do que os judeus ahskenazim, alterou as feições da sociedade israelense e produziu um primeiro choque cultural. Vistos como atrasados e estranhando os costumes do novo país, foram alvo de políticas de integração que buscaram neles incutir valores tidos como mais elevados. Nomes árabes foram substituídos por nomes hebraicos e famílias foram separadas, no intuito de controlar a educação das crianças. A maioria passou a ocupar os bairros periféricos das zonas metropolitanas. Tudo isso com o governo trabalhista no poder, que se reivindicava socialista.

Da mesma forma como os etíopes, judeus sefaradim e mizrahim se insurgiram contra políticas consideradas discriminatórias. Evocando os movimentos pelos direitos civis e antirracistas nos EUA, alguns deles autointiulavam-se “Panteras Negras”, como o partido norte-americano.

Ainda que não tivessem a pele negra, o nome do grupo fazia alusão ao modo como eram percebidos e mesmo à sua autopercepção como “não brancos” na sociedade israelense.

O movimento surgiu na periferia de Jerusalém, a partir do encontro de pessoas que se reuniam para discutir as condições de vida dos judeus de origem oriental, provenientes de países como Iraque, Marrocos e Curdistão. A desigualdade no acesso a empregos de qualidade, à moradia e à educação, a exclusão e a falta de representação política no governo e a repressão policial eram temas frequentes.

A revolta atingiu seu ápice em no ano de 1971, quando o grupo ameaçou fazer uma greve de fome no Muro das Lamentações caso não fosse recebido pela Primeira-Ministra Golda Meir para apresentar sua reivindicações. Em abril, Meir encontrou o grupo e disse que seus líderes não eram “bons meninos”. No dia 18 de maio, entre 5.000 e 7.000 manifestantes reuniram-se em Jerusalém, num grande protesto contra a discriminação racial que ficou conhecido como “A Noite dos Panteras”. O movimento perdeu força nos anos seguintes, especialmente devido ao início da Guerra de Yom Kipur, na qual Israel teve que lutar contra uma coalizão de países árabes, enfrentando o risco existencial que o conflito impunha.

Ainda assim, a insatisfação dos judeus de origem oriental trouxe consequências na arena política, tendo sido, pelo menos em parte, responsável pela primeira derrota do partido trabalhista na história de Israel, nas eleições legislativas de 1977.

Os protestos dos judeus sefaradim e mizrahim, e os dos judeus etíopes parecem trazer um elemento importante para a compreensão de dinâmicas presentes não apenas na sociedade israelense, mas também nos EUA e em países europeus. Nos dois casos, a insatisfação ganhou a arena pública poucas décadas depois da chegada dos primeiros imigrantes e reforçaram os indícios de que são as gerações seguintes, as primeiras nascidas no país, com maior domínio dos códigos culturais e, ao mesmo tempo, sentindo os entraves derivados de sua condição, que cobrarão o preço pelas políticas discriminatórias de origem e pela fragilidade, insuficiência e enganos das políticas sociais.


Artigo originalmente publicado na terceira edição da revista Pop-se.



Rafael Kruchin é mestre em sociologia pela USP

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