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Os 70 anos da fundação do Estado de Israel: podemos conversar?

Por Rafael Kruchin
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No aniversário de fundação do Estado judeu, polarização entre direita e esquerda impede um debate produtivo sobre o conflito israelo-palestino no Brasil.

Desde a partilha da Palestina recomendada pelas Nações Unidas, em 1947, e a fundação do Estado de Israel, em 1948, o conceito de sionismo e da autodeterminação dos judeus em sua terra ancestral assumiu novas proporções, e suas interpretações, análises e críticas passaram a circular internacionalmente.

Atualmente, as visões e posições sobre o Estado de Israel e o sionismo têm se configurado de maneira bastante diversa no Estado judeu e fora dele. A sociedade israelense, longe de ser o espaço do consenso, é permeada por muitas disputas internas, envolvendo grupos com perspectivas próprias: ultraortodoxos antissionistas, religiosos nacionalistas, nacionalistas seculares, antinacionalistas, extrema-direita, direita, centro, esquerda, os fartos de tudo isso, e por aí vai. Não obstante, fora de Israel, as visões sobre o tema têm se mostrado tanto menos diversas quanto mais esquemáticas e dicotômicas. 

As ideias que circulam internacionalmente atravessam lugares, continentes, gerações, e não carregam consigo seus contextos, podendo  ser interpretadas de diferentes maneiras conforme os diferentes campos de recepção. Assim, as ideias sobre Israel, sionismo e o conflito israelo-palestino foram importadas mundo afora e ressignificadas conforme os contextos sociais e políticos locais. 

De maneira similar a muitos outros países ocidentais, no Brasil, essas questões foram posicionadas em dois campos opostos de maneira polarizada, à esquerda e à direita. Resumidamente, nas esquerdas, a narrativa predominante (mas não consensual) é a antissionista; já no espaço da direita, o movimento foi o contrário: a bandeira de Israel e o sionismo refletem hoje uma posição dominante (mas também não consensual) defendida por grupos posicionados no campo conservador do espectro político. 

Deste modo, o debate atual envolvendo Israel criou uma batalha épica entre dois polos. De um lado, no imaginário dominante das esquerdas mais radicalizadas, ao sionismo e a Israel foi colada a pecha da colonização europeia ou americana no Oriente Médio. No outro extremo da disputa, Israel representa a vitória da civilização contra a barbárie imputada ao mundo árabe e islâmico. 

Assim, à esquerda e à direita no Brasil, há uma clara dicotomia que opõe aqueles que lutam contra a “barbárie” e aqueles que lutam contra o “colonialismo”. E, por isso, se mantém a condição de dois grupos que não conseguem sair do conflito “porque com esse pessoal, a gente não conversa!”. Esse movimento mais amplo da polarização atual, que avança no maior furor, fortalece as fantasias mais delirantes, desde a ideia da conspiração sionista influenciando as eleições brasileiras até – do outro lado da ponte – o perigo da islamização do Brasil. 

Cada lado dessa realidade binária se enxerga e se reivindica como o locus da excelência e da clareza, e não parece, no presente momento, disposto a repensar suas categorias de classificação. A lógica passa a ser a da totalização do outro e, na crítica totalizante, ambos os lados encontram solo comum e se retroalimentam. A conta, assim, fica simples de fazer: para que um lado vença, o outro tem que perder. Ganham força os discursos que pregam o desaparecimento do outro e fogem às vistas as possibilidades de acordos, debates e ponderações. 

Precisamos furar essa blindagem e começar a afastar os determinismos que tornam a ficção, criada na dicotomia, operante, e não fictícia. É necessário começarmos a falar em alternativas concretas à atual conjuntura apresentada e, quem sabe, sobre a solução de dois Estados, de dois nacionalismos que convivam lado a lado na condição de um Estado Judaico e de um Estado Palestino. 

Apesar de essa possível solução ser controversa na atual condição da polarização, por ser tomada como naturalização, de lado a lado, do “choque de civilizações” ou da “colonização”, ainda assim, é preciso tornar essa discussão mais autorizada no debate político. Precisamos nos esforçar para não universalizar os achados sobre os quais se fundamentam certas visões tidas como verdades. Enfim, precisamos afastar as pré-noções que tornam certos assuntos tabu antes mesmo de esgotadas as análises. 

Podemos falar sobre dois Estados?


Artigo originalmente publicado pelo Jornal Nexo no dia 13/05/2018.


Rafael Kruchin é mestre em sociologia pela USP

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