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O Pensamento Político Árabe - Sua Relação com o Caso Palestino

Por Muna Omran
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As transformações que o Império Otomano sofria ao longo do século XIX levaram ao surgimento do pensamento político árabe, que por sua vez formalizaria o nacionalismo, marca deste povo na primeira metade do século XX. O objetivo deste artigo não é discutir em detalhes a história do Império Otomano, mas algumas colocações se tornam fundamentais para que se possa compreender a base deste pensamento.  

A desestruturação do Império se fazia gradativamente. Os países árabes já tinham suas dinastias locais de fato independentes dos Otomanos. Apesar de jurarem fidelidade ao sultão, impunham sua autoridade local.  Com isso, a administração Otomana se fazia presente apenas no campo fiscal, já que politicamente perdia sua autoridade e vivia num profundo atraso econômico. 

Essa autonomia foi possível pois, no final do século XVIII (1798), a missão de Napoleão para o Egito abriu os olhos das elites árabes para as possibilidades de mudança no mundo árabe-islâmico. Assim, posteriormente, essas elites propuseram reformas e começaram a debater sobre as razões do atraso econômico e sobre a desordem política no Império, que já dava sinais de cansaço. Além disto, neste cenário, várias ideias políticas ocidentais começaram a se infiltrar no Império - vindas pelas mãos daqueles que tinham se formado no Ocidente, e aprendiam nesta perspectiva os conceitos de  liberdade, igualdade e nação, que integrariam a forma de pensar deste momento - e a se espalhar entre as elites locais, propiciando uma ocidentalização deste Império ao longo do século XIX. Esses reformadores, não importando sua religião, propunham a preservação da cultura religiosa muçulmana, e ao mesmo tempo justificavam a importância do moderno pensamento europeu para o desenvolvimento local. 

         Gradativamente, a ocidentalização do Império era realizada. Se, por um lado, este começava a dar sinais de fracasso, por outro, os jovens cobravam do governo reformas drásticas para a sua perpetuação. Nesse contexto, o pensamento político árabe começa a ganhar forma com a ideia nacionalista da constituição da Grande Nação Árabe, formada por todos os árabes dentro de um único e grande Estado. O sonho de reconstituir a força da Civilização Árabe, que deixara um rico legado cultural para a Europa, na Idade Média, estava sendo acalentado por cristãos e muçulmanos. No entanto, esse pensamento deparava-se com uma contradição, já que havia uma identificação do mundo árabe com o islã e vice-versa. Se optassem pela modernidade para melhor resistir ao Ocidente, sua identidade ficaria limitada  à pátria territorial e ao idioma árabe. Consequentemente, estaria fadado a se fechar num islã ortodoxo fundamentalista, que já surgia com os ideais salafistas, contestando com isso a noção de nação moderna e secular, afastando os árabes cristãos da luta.

A busca de uma identidade única, a igualdade de todos os cidadãos, independente da sua religião, passa a ser o centro de reivindicação dos árabes no Egito, na Síria, no Monte Líbano, na Palestina e na Transjordânia. Esses países formariam uma única nação. Com isso, cristãos, muçulmanos e judeus estariam todos unidos pelo sentimento de pertencimento ao Watan[1]. Desta forma, para se chegar a esse objetivo, os “súditos” árabes desenvolveriam um pensamento político cujo grande desafio seria envolver todos.

No contexto da formação do pensamento político cristão árabe, temos o Império Otomano, conhecido como “o homem doente da Europa”,  vivendo seus momentos difíceis e procurando medidas rápidas e eficazes a serem  tomadas para combater os movimentos nacionalistas que surgiam em todo o vasto territorial. Assim os reformistas turcos pelo Tanzimat (Reorganização) tratariam a todos os “súditos” igualmente, não importando sua religião. Acreditava-se que, assim, modernizaria-se o Império. No entanto, o projeto fracassou.

Há um recuo nas ações do Império e o Ocidente interfere mais no mundo árabe. Com isso, os cristãos árabes viviam duas oportunidades favoráveis para a sua emancipação.  Começaram, daí, um projeto de construção de identidade cujo resultado imediato originou o sentimento de pertencimento a uma herança cultural e à terra. 

Esse projeto contou com o apoio intelectual e militar do Império Britânico e, posteriormente, desencadeou uma rebelião árabe contra as tropas otomanas durante a Primeira Guerra Mundial. Vários Estados árabes foram fundados como Mandatos sob as ordens da Grã-Bretanha ou da França. Iniciava-se assim, um novo capítulo da história do nacionalismo.

O Ocidente atraia com sua proposta de modernidade. Com ele estavam os ideais da Revolução Francesa, o secularismo e os avanços científicos e tecnológicos da Revolução Industrial. Deparavam-se com um ambiente árabe otomano e muçulmano que acreditava em Deus, como a fonte do poder, em um governador que era a sombra desse Deus na terra e o Alcorão como uma única fonte de conhecimento.  

Dessa forma, os cristãos árabes iniciam um projeto de cidadania calcado no patrimônio linguístico árabe. O idioma seria usado como parâmetro de identidade pelos cristãos, pois, simbolicamente, era visto como portador do rico legado cultural árabe do qual o Islã fazia parte. O pensamento se constrói com base nos ideais ocidentais, com os conceitos de nação, cidadania, direitos humanos, sociedade plural e convivência harmoniosa. Cientes da importância da herança cultural árabe pré-islâmica, islâmica e pós-islâmica, reconhecem a língua árabe como sua identidade, passando ela a ser a base existencial do cristão árabe, e não apenas do islamismo, que é visto como uma religião árabe, mas não a religião da Arabia. Os cristãos, assim, afirmavam uma identidade cultural e cidadania que unia os árabes do Oriente Médio, independente da religião. Essa noção seria percebida e encampada, principalmente, pela intelectualidade cristã libanesa.

Observa-se, portanto, que a comunidade árabe-cristã adotaria a modernidade ocidental sem se apropriar de uma identidade ocidental, enquanto a comunidade árabe-muçulmana veria na modernidade ocidental uma grande ameaça e um grande choque.  

O pan-arabismo é uma das facetas do nacionalismo, cujo o objetivo seria unir todos os árabes dentro de uma única ótica política. Muitos movimentos islâmicos entre as sociedades árabes apropriaram-se do ideal do pan-arabismo como um de seus objetivos, vendo nele um meio para alcançar a unidade de Umma. O discurso de unidade está presente em muitos árabes, no entanto, cada vez menos cristãos se reconhecem nele, na medida em que os movimentos políticos do Islã ganham força, como no caso palestino.  

         Além de a língua árabe ser a marca do pertencimento  a essa  cultura, os pan-árabes consideram o Crescente Fértil ao Oriente Próximo o seu território. Essa identidade promoveria o reconhecimento do outro e pregaria, ao contrário do que os movimentos muçulmanos desejavam, a coexistência de diferentes grupos religiosos dentro uma Grande Nação Árabe Unida.

Esse pensamento foi a bandeira de inúmeros governos da região ao longo do século XX. Aos olhos de muitos árabes, as potências coloniais, a Inglaterra e a França, eram os principais inimigos dos árabes. Durante a Segunda Guerra Mundial, havia um forte sentimento nacionalista árabe, colocando muitos líderes simpáticos à política do Eixo. Após o final da Guerra, o antiocidentalismo no Oriente Médio é acirrado com a criação de Israel. Egito, Síria e Jordânia lançaram-se à guerra contra o recém-criado Estado, em 1948, empunhando a bandeira nacionalista dos povos árabes. Derrotados e humilhados, Israel passa a ser obsessivamente demonizado pelos nacionalistas árabes. Consequentemente,  reafirma-se o nacionalismo palestino, que naquele momento se aproximava da perspectiva pan-árabe mais próxima do Islã, ao rejeitarem  a ideia de conviver com judeus na mesma região. O objetivo primordial era excluir Israel do mapa e garantir todo o território para os palestinos, que eles consideravam os verdadeiros donos da terra. O pan-arabismo, para manter-se e ampliar simpatizantes palestinos, que já viviam em campos de refugiados, para o movimento, afastaria-se também da proposta de coexistência.

A tomada militar de Gamal Abdel Nasser no Egito, em 1952, deu ainda mais ímpeto aos sentimentos nacionalistas árabes e antissionistas, culminando  com o confisco, congelamento de bens judeus no Iraque (desde 1948), Egito (1958) e Líbia (1961). A Liga Árabe, criada com o objetivo de desenvolver relações multilaterais entre os Estados árabes e com o ideal Pan-Árabe como condutor, afirmava que os árabes deveriam unir-se sob uma única unidade política cuja liderança seria Nasser. Os partidos Baath da Síria e do Iraque também apoiaram o ideal pan-árabe no final da década de 1950. Como prova, o Partido Baath da Síria concordou com Nasser em unir os dois países, em 1958, a RAU (República Árabe Unida), para dar o perfil  do que poderia ser a Grande Nação Árabe. Em 1961, após inúmeros desentendimentos, a RAU dissolveu-se.

Porém, o desejo de construir a Grande Nação Árabe não se apagaria. O sonho de um Wattan fundamentado nos ideais do pensamento político cristão do final do século XIX seria acalentado, também, por muçulmanos mais moderados. Ainda hoje, apesar do declínio desse pensamento no campo político, e das diferentes formas de se pensar o nacionalismo árabe, muitos ainda se apropriam dele para justificar, ainda 70 anos depois, a rejeição de Israel.

         Além de levar os conceitos liberais para o mundo árabe e expor a fragilidade política do Império Otomano, a campanha de Bonaparte atinge, também, os súditos muçulmanos, por apontar a incapacidade do Império em garantir a supremacia do Islã sunita. Esses muçulmanos viam, por um lado, a ameaça da chegada da possível invasão ocidental e temiam que a língua árabe, marca da sua identidade religiosa, se tornasse uma língua da ciência popular ocidental.

         A concepção de identidade e a existencial dos muçulmanos árabes diferenciava-se da dos cristãos. Os reformadores islâmicos árabes entendiam que o sentimento de pertencimento não deveria estar ligado a apenas um território, e a língua árabe, outro elo da comunidade, era vista como sagrada, a língua Divina, como também, o idioma deste pertencimento. A unidade deveria não estar vinculada a apenas um espaço territorial, mas a uma Umma (comunidade) baseada no Islã. Um retorno às origens do primeiro momento do Islã objetivava renovar a identidade muçulmana e enfrentava o choque provocado pela modernidade e, com isso, opunha-se ao pan-arabismo cristão liberal.

 Nota-se, assim,  que o árabe muçulmano reconhece um único parâmetro de identidade no início de sua reforma: a religião como elemento da coesão entre todas as comunidades muçulmanas, que não se sobrepunha ao pensamento político dos cristãos árabes. Nessa perspectiva, o pan-islamismo ganharia forma para promover o Islã como a religião da salvação e que reconciliaria a modernidade importada do Ocidente e causadora dos grandes conflitos, sobretudo a criação de Israel. Assim, resistem ao vocabulário que marca o ideal político e democrático ocidental termos como cidadania, liberdade, direitos humanos, igualdade, fraternidade, democracia, dentre outros, que não habitam o discurso pan-islâmico contemporâneo que predomina em todos os movimentos ultra ortodoxos do islã político.

Num primeiro momento, Rifaa Tahtaoui (1801-1883), um dos primeiros pensadores pan-islâmicos, identifica o conhecimento ocidental como não cristão e não muçulmano, mas um conhecimento racional e universal que serviria aos árabes sem alterar a força do Islã. Destacam-se, ainda, Mohhammed Abdo (1849-1905) e Jamal Al Din Al Afghani (1838-1897), que entendiam que a identidade muçulmana uniria todas as comunidades da Umma. Essa identidade seria construída dentro de uma nova interpretação do Alcorão que destacaria a compatibilidade da religião com a razão e o progresso científico.

 A primeira proposta pan-islâmica seria restaurar a Umma muçulmana, Dar El Islam, definir o muçulmano, interrogar e refletir sobre os preceitos da sharia para afirmar sua afinidade com a ciência, distinguir a comunidade muçulmana dos Dhimmis e fortalecer a corrente religiosa reformista. No entanto, o pan-islamismo, na sua origem, ao contrário do pan-arabismo, omitia os fundamentos de uma nação moderna: respeito mútuo, o direito do cidadão e a aceitação do outro, o que justifica os inúmeros conflitos que a região vive.

O chamado nacionalismo palestino, que ainda mobiliza massas, é estimulado tanto por movimentos políticos e seculares quanto por movimentos muçulmanos. Porém, o que observamos é a substituição do nacionalismo árabe, fundamentado no pan-arabismo original,  por uma forma do pan-islamismo mais ligado aos movimentos fundamentalistas muçulmanos (salafismo, irmandade muçulmana, jihadismo etc.). A chegada ao poder do Hamas em Gaza ignora o pan-arabismo e vê o pan-islamismo como um projeto muito maior, pois não se limitaria apenas ao árabes e, sim, a todos os muçulmanos. O projeto pan-islâmico tem sido usado para combater o que é percebido como o projeto colonialista de Israel.

Esse radicalismo islâmico afasta toda e qualquer proposta de universalização que  une a humanidade, como a dignidade da pessoa humana, o respeito pelos outros, a justiça, a equidade, a coexistência, o reconhecimento da diversidade cultural  e a ética. Presenciamos o sepultamento de um nacionalismo liberal e a reafirmação no campo político do radicalismo do islã ortodoxo e ultra-ortodoxo em diversos países árabes, provocando inúmeros conflitos internos e impedindo a formação de uma unidade árabe nos modelos do Wattan.   

Hoje, o pensamento árabe aberto e crítico confronta-se com o fechado, encapsulado no imaginário de um patrimônio político teológico dos primeiros tempos do Islã que querem que seja ressuscitado. A radicalização dos movimentos islâmicos presentes no Oriente Médio enfraquece o sentimento nacionalista dos movimentos liberais árabes. O nacionalismo palestino, como outros,  não será capaz de resistir a médio e longo prazo, uma vez que, no mundo árabe como um todo, a ideia de uma nação árabe única se dilui à medida em que ampliam-se o universalismo islâmico, afastando-se da proposta de coexistência do pan-arabismo.

 

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[1] Ideia de pátria.


Pós-doutora em Estudos Literários na Universidade Federal Fluminense ( UFF) e Doutora em Letras pela UNICAMP.   

Professora Colaboradora na Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal Fluminense e Profa. Visitante na Universidade De Balamand, Líbano.  

Professora no Colégio de Aplicação da PUC-RIO.

Líder do Núcleo de Pesquisa de História Contemporânea, da Universidade Estadual do Maranhão ( UEMA).   

Diretora Geral da Tripoli Cultural. 

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