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Erdogan e Gaza

Por Monique Sochaczewski
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Em maio de 2005, o então primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdoğan (lê-se Redjep Tayyip Erdoan), visitou Israel por dois dias, acompanhado de grande delegação empresarial. Na ocasião, encontrou-se com o então primeiro-ministro israelense Ariel Sharon e com o presidente da época Moshe Katsav. Buscou apresentar-se como possível mediador da paz no Oriente Médio e interessou-se em estreitar relações comerciais e militares com Israel. 

Naquela ocasião, Erdoğan também visitou o Yad VaShem, o Museu do Holocausto, em Jerusalém, e ali colocou uma tradicional coroa de ramos . Quando do encontro com a mídia local, o primeiro-ministro turco frisou vir de um país com cultura de paz e comentou que seu partido, o AKP, via o antissemitismo como crime contra a humanidade . 

Erdoğan também frisou a relação histórica da Turquia com os judeus desde o século XV. Referia-se ali ao fato de o Império Otomano, do qual a Turquia nasceu de seu núcleo duro, de fato ter recebido milhares dos judeus expulsos da Península Ibérica em 1492 e 1496. Estes se juntaram aos judeus romaniot e mesmo ashkenazim que ali já viviam, integrando o millet judaico, com grande representatividade em cidades como Istambul, Salônica e Izmir. Os judeus viveram razoavelmente bem sob o domínio dos sultões e, quando do estabelecimento da República da Turquia, em 1923, mais de setenta mil judeus se tornaram seus cidadãos. 

De maio de 2005 para abril de 2018, a posição de Erdoğan mudou drasticamente. O agora presidente da Turquia usou termos muito duros contra a ação israelense na Faixa de Gaza, no dia 30 de março, que levou a 16 mortos e dezenas de feridos. Chamou Israel de “estado terrorista e invasor”, segundo termos publicados no jornal turco Hurryiet. O primeiro-ministro israelense reagiu com termos igualmente pesados e a briga saiu das redes sociais para a grande mídia. O que interessa ressaltar aqui, porém, é que na realidade, a fala dura de Erdoğan contra Israel não é nova. A mudança de sua posição a respeito de Israel data em grande medida de 2009, e vale breve recapitulação aqui para que se tenha melhor ideia da escalada retórica. 

A virada se dá, em certa medida, no inverno de 2008 para 2009, quando da chamada Operação Chumbo Fundido. Israel alegou que seu interesse era acabar com lançamento de foguetes da Faixa de Gaza contra seu território, bem como com contrabando de armas. A operação deixou centenas de palestinos mortos e uma grande grita internacional contra Israel. O governo turco ficou especialmente irritado, não só porque tinha na melhora de vida dos palestinos tema importante da agenda com os israelenses, como porque dois dias antes do início da operação, o então primeiro-ministro israelense Ehud Olmert havia visitado Ancara. A Turquia tentava então mediar as relações dos israelenses com os sírios, num claro esforço de busca por protagonismo na região, mas Olmert não comentou nada sobre a operação que se organizava. Não deu nenhuma pista. 

Pronto. Começava a descida das relações bilaterais. Pouco depois, no Fórum Econômico Mundial em Davos de 2009, Erdoğan bateu boca com o presidente israelense Shimon Peres, criticando o tratamento dado aos palestinos, e mesmo abandonando o evento irritado. Em 2010, uma organização humanitária turca alegou mandar ajuda humanitária para Gaza então sob bloqueio, mas as forças israelenses abordaram a flotilha exigindo que fizessem uma inspeção previa. Ocorreu uma confusão e oito turcos, e um turco-norte-americano, foram mortos. A retórica de Erdoğan tornou-se profundamente dura contra Israel, chegando a dizer na ONU em 2013 que sionismo era um crime contra a humanidade. E, mesmo com pedido oficial de desculpas israelenses pelo caso Mavi Marmara e reparação em dinheiro acertada, houve poucos avanços. Em 2017, quando o presidente Trump reconheceu Jerusalém como capital de Israel, Erdoğan conclamou encontro emergencial da Organização da Cooperação Islâmica em Istambul, para tratar do tema. O resultado é que desde então, sumiram os israelenses que lotavam as cidades e resorts turcos, as embaixadas ficaram vagas por muitos meses, as relações se mantém muito protocolares e mesmo os judeus turcos – que atualmente somam cerca de 17 mil – vem crescentemente optando por deixar o país, seja indo para Israel e EUA, ou demandando as cidadanias espanhola e portuguesa, de onde foram expulsos no século XV. 

Fica claro que houve o sentimento por parte de Erdoğan de quebra de confiança em relação a Israel no contexto da crise em Gaza de 2009. O desencanto se juntou a um desejo crescente de se consolidar não só em termos da política interna da Turquia – numa época de muitas eleições – como mesmo em termos regionais. Em ambos os casos, ser assertivo e mesmo crítico em relação a Israel gera dividendos políticos. A causa palestina atrai a direita e a esquerda turca e eu mesma pude testemunhar em 2010, quando fazia o meu “sanduíche” do doutorado na Turquia, como o caso Mavi Marmara uniu esses grupos tão antagônicos, em amplas manifestações públicas, a favor de Erdoğan e contra Israel. E numa região carente de líderes que se posicionassem publicamente sobre a questão palestina, Erdoğan passou a ter tratamento quase que de estrela de rock em alguns países árabes. 

***

Enfim, vimos aqui que a retórica recente de Erdoğan anti-Israel não é nova e a mudança se encontra ali no início de 2009. Vale, porém, entender esse esfriamento de relações que foram tão importantes para Israel ao longo do século XX, no âmbito da chamada Doutrina da Periferia, como mais um elemento da extrema mudança política por que passa a região. Turquia e Israel, países que já foram aliados importantes no passado, podem crescentemente atrapalhar os interesses um do outro. O afastamento da Turquia, por exemplo, vem permitindo que, em Israel, temas como o genocídio armênio ganhem espaço, assim como uma retórica pró-curda e mesmo articulações estratégicas com Chipre e Grécia. No lado turco, cresce sua articulação com a causa palestina e, sobretudo, uma crescente aproximação com o Irã são ruins para Israel. 

Uma análise fria indica que ambos só têm a perder se distanciando. Ocorre, porém, que no Oriente Médio, a temperatura é em geral quente, e uma aliança estratégica que poderia continuar a ser útil para ambos em diversos temas essenciais, simplesmente se esvai. 





Monique Sochaczewski é doutora em História, Política e Bens Culturais pelo CPDOC/FGV e autora de “Do Rio de Janeiro a Istambul: Contrastes e Conexões entre o Brasil e o Império Otomano (1850-1919)” (Brasília: FUNAG, 2017).


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