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Esfaqueada e queimada, Mireille Knoll viveu a Shoah no seu apartamento

Por Mônica Raisa Schpun
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A frase é de Marceline Loridan-Ivens, cineasta, roteirista, atriz e autora de duas narrativas sobre sua deportação, em 1944, com 15 anos, e a experiência vivida em Auschwitz-Birkenau, Bergen-Belsen e Theresienstadt (Et tu n’es pas revenu, de 2015,e L’amour après, de 2018). Marceline acrescentou, em entrevista publicada pelo jornal Le Monde que “[q]uando você conheceu as câmaras de gás, assistir a esse tipo de crime setenta anos depois é um horror. Depois da guerra e na volta dos campos [de extermínio], sonhei que se acabasse com o antissemitismo, mas ninguém tirou as lições do que ocorreu”.

Mireille Knoll, assassinada aos 85 anos em seu apartamento do 11° distrito parisiense, no dia 23 de março, era pouco mais jovem do que Marceline e teve melhor sorte durante a Ocupação nazista na França. Nascida em 1932, conseguiu fugir da capital francesa com a mãe, pouco antes da grande ação policial que capturou mais de 13.000 judeus em julho de 1942, internando-os no antigo Velódromo de Inverno, o Vél d’Hiv. Munida de um passaporte brasileiro herdado do pai, conseguiu atravessar a linha de demarcação em direção da Zona Sul do país, não ocupada, antes de refugiar-se em Portugal. Após a guerra, Mireille casou-se com um sobrevivente de Auschwitz, com quem teve seus dois filhos. Depois de um período passado no Canadá, o casal voltou a Paris, onde seu marido montou um ateliê de fabricação de casacos impermeáveis no bairro judaico do Sentier. Sofrendo de mal de Parkinson, Mireille não saía mais desacompanhada e deslocava-se em cadeira de rodas. Viúva há cerca de quinze anos, ela vivia sozinha no apartamento modesto onde foi encontrada morta, vítima de onze facadas.

Os assassinos provocaram um incêndio visivelmente para encobrir os golpes deferidos contra Mireille que, segundo a autópsia, foram a causa de sua morte. O incêndio alertou um vizinho e permitiu a intervenção dos bombeiros. Estes encontraram o corpo parcialmente calcinado e “dilacerado” pelos golpes.

Dois culpados foram rapidamente identificados e detidos. Yacine M., de 27 anos, era vizinho da vítima, que o conhecia desde a infância. Condenado em 2017 por ter agredido sexualmente a filha de doze anos de uma cuidadora de Mireille, dentro da casa desta última, cumpriu pena de prisão até setembro do ano passado. Entretanto, Yacine ainda estava proibido de entrar no edifício de Mireille, interdição que desrespeitou. Alex C., de 21 anos, foi detido no final de semana perto da Ópera Bastille, graças à mobilização de um importante dispositivo de vigilância policial na cidade. Trata-se de um sem-domicílio- fixo suspeito de participar do crime. Também conhecido da polícia por atos de violência, ameaças e roubos com arrombamento, Alex saíra da prisão em meados de janeiro e estava proibido de pisar no 11° distrito da capital. Os dois suspeitos teriam se conhecido na prisão. Ambos estão em detenção provisória.

O Ministério Público de Paris reteve o caráter antissemita do caso e determinou abertura de inquérito por “assassinato em razão da pertença verdadeira ou suposta da vítima a uma religião e contra pessoa vulnerável”. As motivações precisas do crime ainda não foram desvendadas, mas os investigadores privilegiam a tese de um roubo, tendo os acusados se aproveitado do estado de fragilidade de Mireille (“roubo qualificado”) – apesar de sua situação socioeconômica modesta. Caso a hipótese do roubo se confirme, o caráter antissemita do crime não será abalado, inclusive porque  Yacine sabia que a vítima era judia. Aliás, isso fez com que o Ministro do Interior Gérard Collomb denunciasse, diante do Parlamento francês, os “estereótipos” que estariam na base do homicídio de uma octogenária: “o que é terrível, é que um dos autores [do crime] disse ao outro ‘é uma judia, ela deve ter dinheiro’” – ainda que, na fase atual das investigações, nada possa provar que os acusados tenham feito tal declaração.

O assassinato de Mireille aconteceu um ano depois da morte de Sarah Halimi, jogada da janela de seu apartamento, no mesmo distrito parisiense, por um vizinho aos gritos de “Allahou akbar!”. No caso Halimi, porém, a Justiça só reconheceu recentemente o caráter antissemita do crime.

O número de atos antissemitas tem diminuído na França. Contudo, se a comunidade judaica não chega a compor 1% da população do país, seus membros são alvo de cerca de um terço dos “atos que exprimem ódio”, segundo um relatório de 2013 do Serviço de Proteção da Comunidade Judaica (SPCJ). O órgão, criado pela comunidade judaica francesa em 1980, após o atentado da Rua Copérnic, contabiliza, juntamente com o Ministério do Interior, as queixas de atos e ameaças antissemitas registradas pelo Estado (https://www.antisemitisme.fr/dl/2013-FR.pdf).

E, ainda que os atos antissemitas estejam em baixa, as violências antissemitas têm aumentado. Desde 2006, data do assassinato do jovem Ilan Halimi – barbaramente torturado e abandonado, quase morto, perto de uma estação de trens –, onzepessoas foram mortas na França pelo fato de serem judias.

Uma manifestação pacífica em homenagem à memória de Mireille Knoll foi realizada em Paris e em outras cidades da França no dia 28 de março. O cortejo parisiense contou com a participação de milhares de pessoas que desfilaram da Praça da Nation até o edifício onde morava Mireille. Membros da União dos Estudantes Judeus da França (UEJF) carregavam faixas com os dizeres “Na França mata-se vovós por serem judias”. O cortejo contou com a presença de ministros e políticos de todas as tendências. Francis Kalifat, presidente do CRIF, o Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França (criado na clandestinidade, em 1943, ainda sob a ocupação nazista), declarou que Marine Le Pen, do partido de extrema direita Front National e Jean-Luc Mélenchon, do partido de extrema esquerda La France Insoumise, eram persona non grata na manifestação. O fato criou polêmica e alguns incidentes no cortejo, ao qual compareceram tanto Le Pen quanto Mélenchon. O último partiu antes do final da “marcha silenciosa”, protegido por policiais, após ter sido abordado por membros da Liga de Defesa Judaica, uma organização de extrema direita que garantiu justamente a proteção de Marine Le Pen no cortejo; ela também enfrentou vaias e protestos. A posição do CRIF foi criticada por diversas vozes, notadamente a de um dos filhos de Mireille que afirmou, em tom pacificador: “Penso que hoje a França inteira deveria estar unida. Não importa de que partido sejam, eu não dou a mínima. [...] Todo mundo tinha o direito de participar.” Vale notar, quanto a isso, que as declarações de Jean-Luc Mélenchon e Marine Le Pen sobre o caso não foram absolutamente equivalentes, contrariamente ao que parece pensar o presidente do CRIF. Enquanto Mélenchon insistiu sobre “ a necessidade de mostrar que toda a comunidade nacional está unida”, para que “cada judeu saiba que está sob a proteção da comunidade nacional”, Marine Le Pen, aproveitou a oportunidade para repetir o mote habitual de seu partido, afirmando que “faz anos que nós denunciamos e que nós lutamos contra o antissemitismo islamista”. A herdeira e dirigente do Front National encobre facilmente, com essa afirmação, as raízes colaboracionistas do partido, ainda hoje vivas, e as repetidas provocações de seu pai, sobre as câmaras de gás como “detalhe da história”, que lhe valeram uma condenação definitiva pelo Tribunal de Cassação no último dia 27 de março.

O afastamento recente do pai Le Pen do partido não basta para apagar esse traço fundador e estruturante do lepenismo. No mesmo dia da marcha silenciosa, Emmanuel Macron prestou homenagem a Mireille Knoll durante o funeral do coronel Arnaud Beltrame, decapitado após oferecer-se para substituir um dos reféns de um terrorista islamista na cidade de Trèbes. O Presidente francês, que também esteve presente no enterro de Mireille, soube se exprimir sobre os dois aspectos centrais da questão. De um lado, não deixou de lembrar a especificidade do crime contra a “vovó” parisiense, cujo assassino “matou uma mulher inocente e vulnerável por ela ser judia”. De outro, afirmou a pertença da vítima à comunidade nacional, que foi assim atingida, ao lembrar que os dois mortos – Arnaud Beltrame e Mireille Knoll – foram vítimas do mesmo “obscurantismo bárbaro”. Resta saber se esse esforço em ultrapassar as fissuras da sociedade francesa atual trará frutos efetivos diante do antissemitismo, da barbárie e de discursos ambíguos e perigosos como os da extrema direita.

Fontes consultadas: Le Monde, L’Obs, LCI, France 24, Franceinter, Franceinfo.


Historiadora, pesquisadora (livre-docente) do Centre de recherches sur le Brésil colonial et contemporain (CRBC) da Ecole des hautes études en sciences sociales (EHESS), Paris.  Professora visitante da FAU-USP.

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