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Victor Klemperer, ontem e hoje

Por Miriam Bettina Bergel Oelsner
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Victor Klemperer

Acredito que a maioria dos leitores deste site do IBI tenha assinado o manifesto colocando-se contra a cobrança do malfadado ‘imposto do livro’, encarecendo-o mais 12%. Se tal imposto for realmente implantado será mais um elemento contra a cultura brasileira. O livro, nosso principal amigo, passou a ser isentado do imposto em 1946 pela ação de Jorge Amado, quando Deputado Federal. A partir de Amado a imunidade fiscal do livro foi garantida. Garantia essa mantida na Constituição de 1988 e corroborada em 2004 por força de lei. 

O tema desta matéria é Victor Klemperer [1881-1960] e seu forte vínculo com os livros, formadores de nossa massa crítica.

Klemperer ontem

Klemperer foi um alemão, judeu convertido ao luteranismo por pressão das circunstâncias. Foi catedrático de Letras Latinas na Universidade Técnica de Dresden, a partir de 1920. Defendeu livre docência sobre Montesquieu, dada sua profunda ligação com o Iluminismo francês. Por essa razão estudou Letras Latinas. Além de Montesquieu, especializou-se também em Voltaire e Diderot. Sua esposa, a pianista Eva Schlemmer [1882-1951] era de origem luterana. Klemperer valorizava sua alemanidade acima de tudo. Em 1935, quando as leis raciais de Nuremberg foram promulgadas, Klemperer perdeu seu cargo na Universidade, assim como todos os demais judeus na Alemanha perderam seus cargos públicos e ficaram desempregados. Para ele, a perda da nacionalidade alemã pelo regime nazista foi algo inimaginável e muito penoso. Quando os judeus foram destituídos de seus cargos pelas raciais de Nuremberg, seus antigos cargos foram ocupados por seus antigos colegas. O preenchimento dessas vagas no serviço público alemão, fator que fortaleceu a consolidação do nazismo, contribuindo para tornar a disseminação do antissemitismo mais eficaz, em especial no campo universitário. A ocupação dos cargos vagos melhorou a qualidade de vida dos novos ocupantes. 

Logo após a ascensão de Hitler ao poder em 1933, Klemperer passou a notar que aos poucos perdia seus alunos. O interesse pelos filósofos do Iluminismo francês estava se tornando um tema anacrônico, pois não condizia com a visão de mundo de Hitler, o ditador. Hitler valorizava o culto ao corpo, à supremacia física, aos esportes bélicos. Ainda a partir de 1933 Klemperer passou a notar que o ministro de propaganda de Hitler, Dr. Joseph Goebbels estava empenhado em inserir a ideologia nazista na mente do povo alemão e difundir o antissemitismo. Uma das formas era por meio da manipulação da linguagem, da distorção do conteúdo das palavras, bem como da tão propalada repetição de mentiras. Klemperer deu o nome de 'LTI', Lingua Tertii Imperii a esse método de infiltrar nazismo e antissemitismo nas mentes do povo, por meio da adulteração da linguagem. Foi uma forma subliminar, em que somente um filólogo atento conseguiria perceber que as mentes estavam sendo manipuladas pela linguagem. Até mesmo judeus, suas principais vítimas, não se davam conta desse processo ignominioso, permeado de sutilezas. A sigla 'LTI' era um disfarce, caso suas anotações diárias fossem descobertas pela Gestapo, a polícia secreta alemã. Essas anotações foram a sua ‘tábua de salvação’, em face do horror em que ele e Eva viviam. Depois de ser detido duas vezes pela Gestapo, uma em que ficou preso por uma semana e outra por um dia, resolveu que anotaria tudo o que estavam vivendo, para ‘prestar testemunho’ para as gerações futuras, caso conseguisse sobreviver. Por diversas razões Klemperer e Eva tiveram algumas oportunidades de fugir da Alemanha. Entretanto, por diversas razões permaneceram.Quando as condições de sobrevivência se tornaram insuportáveis, já não havia mais possibilidades de fugir. Desta forma, passaram por extrema penúria e pavor constante, confinados em Dresden, durante os doze anos do nazismo.

Até 1940, viviam nos arredores da cidade, quando sua casa lhes foi tomada pelo regime. Foram levados para uma espécie de gueto alemão, chamado Judenhaus, casa dos judeus, com cozinha e banheiro coletivos. Moraram em quatro Judenhäuser em Dresden convivendo com o desaparecimento de muitos 'colegas de habitação', de quem haviam se tornados amigos e que na calada da noite eram ‘transportados’ para os campos de extermínio. Eles sempre vislumbravam o risco de que poderiam ser os próximos. E, finalmente, após privações e sofrimentos intensos conseguiram sobreviver aos doze anos de terror. Recuperaram sua casa que fora entregue ao Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. E, voltaram a viver em Dresden, onde ele retornou à Universidade. Como por milagre os manuscritos dos diários também foram recuperados, graças à coragem de Eva e de uma médica amiga, contrária ao regime. A partir dos diários redigiu "'LTI' - anotações de um filólogo", nome original do livro, publicado em junho de 1947. Não desejava publicar seus diários daqueles anos, dado seu cunho pessoal. Na literatura de teor testemunhal da Shoá eles são classificados como o que há de mais tenebroso para se conhecer. Os diários daquele período foram publicados após a queda do Muro de Berlim em 1989, e no Brasil em 1995. 

Histórico

Klemperer escrevia diários desde o final do século 19, até perto de seu falecimento em fevereiro de 1960. Para o 'LTI', escolheu os temas que lhe eram caros de seus diários, detalhando-os de maneira didática, por capítulos. Era-lhe muito importante explicar a seus alunos o quanto tinham sido vítimas de lavagem cerebral, o quanto tudo fora um trágico engano, já que alguns deles ainda sentiam admiração por Hitler. 'LTI', entretanto, foi um livro que não despertou interesse na maioria dos leitores. As pessoas estavam preocupadas com sua sobrevivência. Saber se seus parentes ainda viviam, tentar retornar a seus antigos postos de trabalho. E, o mais importante: não serem lembrados de sua participação na guerra. E, fundamental: poder passar por ‘ficha limpa’, buscando prosseguir em suas vidas. Ou seja, continuar mentindo. 

Os primeiros anos do pós-guerra foram de intensa escassez. Comentava-se que o número de suicídios não era maior devido ao alto preço do gás... Ao mesmo tempo o livro não chegou a circular amplamente. Sabe-se que pensadores da Escola de Frankfurt, refugiados nos EUA, por exemplo, não tinham conhecimento dessa fundamental análise de Klemperer. Caso a tivessem conhecido, é provável que suas análises tivessem sido diferentes. Satisfeitos de terem conseguido retornar à sua própria casa em junho de 1945, o casal não quis mudar-se para a Alemanha ocidental. Sabia-se que lá os antigos nazistas circulavam livremente. Quando a vida foi se normalizando, Klemperer continuou cativado por seus autores franceses iluministas prediletos: Montesquieu, Voltaire e Diderot. A Alemanha oriental tinha deficiência de professores do nível intelectual de Klemperer e ele voltou à Universidade de Dresden e demais universidades da região: Halle, Leipzig e Berlim. Klemperer trabalhou com afinco no programa de ‘desnazificação’ na Alemanha pós 1945.

Klemperer hoje

A percepção de Klemperer de como uma nação pode ser transformada por meio da manipulação da linguagem se antecipou em muito ao seu tempo. É certo que não imaginou o quanto a 'LTI' seria atual em nossos dias, no Brasil e em outros países, pois durante sua vida o livro não recebeu a atenção devida. Após a queda do Muro de Berlim em 1989 a literatura da antiga República Democrática Alemã se tornou conhecida no Ocidente. Em 1925 constava na Enciclopédia Brockhaus um verbete sobre Klemperer e seu estudo sobre o Iluminismo francês. Em 1995 no mesmo verbete a mesma Enciclopédia inseriu o papel fundamental do 'LTI' para a compreensão dos doze anos do terror. A partir de então foram lhe outorgados prêmios póstumos por sua análise fundamental no 'LTI' sobre os doze anos de terror. Em 1997, a psicóloga italiana Paola Traverso, professora de literatura na Freie Universität Berlin, publicou um longo artigo em alemão no Anuário de História Judaica de Tel-Aviv. Traverso escreveu que Klemperer não conseguiu em vida o reconhecimento merecido por seu importante papel sobre os relatos dos anos da guerra, bem como sobre sua obra em alemão referente aos iluministas franceses. Segundo Traverso, a nova geração de pensadores e literatos, dos anos noventa do século passado desejava estar bem com os judeus. Ela afirmou ainda em seu artigo que os jovens autores alemães estavam instrumentalizando a obra de Klemperer ao oferecer-lhe os louros tardios. 

Klemperer não foi de direita, tampouco de esquerda, mesmo tendo pertencido à KPD, Partido Comunista Alemão, por pouco tempo. Ele continuava sendo um seguidor inconteste do Iluminismo francês. 

Hoje Klemperer é tema de debates esclarecedores, pois ele detalha a forma como governantes sabem aliciar a população por meio de afagos, populismo exacerbado, alterações nos significados das palavras, negacionismos, de que nos vemos cansados.

O legado de Klemperer é mostrar que se deve buscar o questionamento da origem dos desconfortos, erros políticos que nos cercam.


Miriam Bettina Bergel Oelsner é Doutora em História Social e Mestre em Literatura Alemã pela Universidade de São Paulo e Pesquisadora do Núcleo de Estudos de Judaísmo Contemporâneo da mesma universidade.

Os textos dos nossos colaboradores não refletem, necessariamente, as posições do instituto.

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