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Ciro Gomes desliza e será processado

Por Milleni Freitas
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No dia 20 de abril, Ciro Gomes (PDT-CE), ex-governador do Ceará e terceiro lugar nas eleições presidenciais de 2018, em uma entrevista concedia ao HuffPost Brasil declarou: 

“Agora Bolsonaro diz aos grupos de interesse o que eles querem ouvir. Por exemplo, para os amigos dele aí, esses corruptos da comunidade judaica, que acham que, porque são da comunidade judaica, têm direito de ser corrupto. Corrupto, para mim, não interessa se é curdo ou cearense. Corrupto é corrupto, ladrão é ladrão. Ele [Bolsonaro] disse para eles que ia transferir a embaixada do Brasil [de Tel Aviv para Jerusalém] a custo de grana para campanha” afirmou Ciro Gomes.

Como resposta a essa afirmação, a Confederação Israelita do Brasil (Conib) vai processar o ex ministro Ciro Gomes, alegando que sua fala foi antissemita ao generalizar a Comunidade Judaica quando a descreveu como corrupta. Em nota, a Conib declarou: 

A Conib (Confederação Israelita do Brasil) decidiu tomar medidas legais contra o ex-governador Ciro Gomes por antissemitismo. Em entrevista ao site HuffPostBrasil, Ciro afirmou: ‘Agora Bolsonaro diz aos grupos de interesse o que eles querem ouvir. Por exemplo, para os amigos dele aí, esses corruptos da comunidade judaica, que acham que, porque são da comunidade judaica, têm direito de ser corrupto.”

A Conib, que já havia condenado declaração de Ciro Gomes de que Bolsonaro foi financiado pelo ‘sionismo radical’, acionou advogados para iniciarem processo legal contra o ex-governador.

Mais uma vez, Ciro Gomes nos ataca de forma generalizada, agora chamando membros da comunidade de ‘corruptos’. Não vemos Ciro ligar outras minorias ou grupos à corrupção no Brasil. Se pretende ser visto como um político despido de ódios e preconceitos, cabe ao ex-governador se retratar das infelizes declarações contra os judeus brasileiros.”

Ao se posicionar contra Bolsonaro e suas respectivas alianças, Ciro Gomes foi pouco cuidadoso ao usar uma acusação vazia como a corrupção sem provas  direcionado à comunidade judaica, que foi retratada de maneira uniforme e generalizada. No entanto, uma visão estereotipada e única pode gerar antissemitismos mais graves, mas a princípio não significa reproduzir uma intolerância deliberada ao povo judeu, desse modo, o comentário de Ciro Gomes aparenta ser mais o fruto de um desconhecimento profundo sobre a comunidade judaica. 

De maneira direta, problema da homogeneização da comunidade judaica – tirando como um exemplo recente e que conecta esses pontos – é que parte dela aplaudia Bolsonaro quando ele afirmou que no quilombo um “afrodescendente pesava sete arrobas” na Hebraica do Rio de Janeiro, em abril de 2017, e parte dela estava do lado de fora protestando contra a ida de Bolsonaro. A tentativa de transformar o conjunto em uma coisa só, principalmente no que se refere a um apoio financeiro, associa necessariamente o povo judeu com um controle do poder por meio do setor financeiro e midiático, que dá margem para teorias conspiratórias. O que Ciro Gomes parece não compreender são as divisões internas e acaba por cometer alguns equívocos. 

Alguns setores da comunidade judaica organizadas, não necessariamente estão dentro desses eixos caricatos de Ciro Gomes e Bolsonaro, já que ambos visualizam a comunidade como uma coisa só, mas de pontos de vista diferentes. Há exemplos atuais no Brasil, que fogem ao discurso exclusivo do “judeu no setor financeiro e midiático” e o “judeu religioso de Israel” são: Judeus pela Democracia e juventudes judaicas.

Para além do Ciro Gomes não entender as divisões de classe e de discurso dentro da comunidade judaica, o ex ministro ainda confundiu uma situação específica na relação de Bolsonaro com a comunidade judaica: o projeto de mudança da embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém se deve menos à comunidade judaica mas majoritariamente ao eleitorado evangélico, que determina essa postura de aproximação com Israel facilitada por um governo da direita israelense liderado pelo Benjamin Netanyahu (Likud). 



Milleni Freitas é estudante de História e membro do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (NIEJ) da UFRJ. É militante do Levante Popular da Juventude e participou da viagem de formação a Israel e aos Territórios Palestinos realizada pelo Instituto Brasil-Israel.

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