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Pluralismo em Israel

Por Michel Schlesinger
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A recente detenção do rabino conservador da cidade de Haifa, Dov Haiyun, em função de ter celebrado um casamento não-ortodoxo associada à decisão do parlamento que define Israel como “Estado-nação do povo judeu” nos convoca a uma reflexão sobre o pluralismo em Israel e nas fontes judaicas.

Já em 2017, o primeiro ministro israelense, Benjamim Netanyahu, tomou algumas iniciativas que enfraqueceram a diversidade judaica daquele país. A primeira delas foi o arquivamento, depois de quatro anos de discussão, de proposta para a criação de um setor igualitário no Muro das Lamentações (Cótel). Depois de se comprometer com a abertura oficial de um local onde homens e mulheres pudessem rezar juntos, como fazem em 80% das congregações da diáspora, o primeiro ministro israelense capitulou às pressões da ultra-ortodoxia e engavetou o projeto de democratização da ruína ocidental do antigo Templo de Jerusalém.

Ato contínuo, Bibi também protagonizou um retrocesso no reconhecimento das conversões realizadas pela ortodoxia moderna, movimento conservador e movimento reformista, excluindo centenas de milhares de judeus da possibilidade de adquirirem cidadania israelense por meio da Lei do Retorno. 

Antes da criação de Israel, o rabinato ortodoxo da Palestina havia celebrado um acordo com Ben Gurion para manter sob sua supervisão as questões religiosas do futuro Estado de Israel. Em troca, apoiariam aquele que se tornaria o primeiro primeiro-ministro do estado judeu. Com o passar do tempo e diversas ações judiciais, as demais denominações judaicas conquistaram alguma legitimidade naquele Estado. A recente decisão retrocede nesses avanços.

Finalmente, foi publicado pelo rabinato de Israel uma “lista negra” com nomes de 160 rabinos de diferentes países da diáspora e diversas linhas religiosas cujas conversões deveriam ser consideradas suspeitas.

No que tange a seus posicionamentos perante questões de gênero, conflito palestino-israelense, conversão, inclusão de portadores de deficiências física e mental, diálogo com a sociedade maior, acolhimento de refugiados e engajamento político, a comunidade judaica, assim como o restante da humanidade, parece estar se dividindo em dois acampamentos, um inclusivo e outro de exclusão. Embora o sectarismo pareça estar mais presente no campo da ortodoxia e a inclusão no campo liberal, existem liberais que excluem e ortodoxos que convivem em paz com as diferenças. A superação do anseio primitivo de exclusão é um desafio comum a todos os seres humanos, mas apenas alguns decidem dar este passo. O fato é que o acirramento das relações pode gerar uma ruptura irreconciliável.

Como representante da Conib para o diálogo inter-religioso, mantenho encontros com católicos, evangélicos, muçulmanos, membros de religiões afro-descendentes, ateus, espíritas e budistas. Como se pode imaginar, discordamos em quase tudo. Temos visões distintas não apenas sobre homossexualidade, mas também em temas como celibato, aborto, vida após a morte, messianismo, eutanásia, entre outros. Nossa discordância, no entanto, não nos impede o encontro. 

Fosse a concordância um pré-requisito para o diálogo, este nunca aconteceria. Dialogamos justamente porque vemos na conversa, uma oportunidade de aperfeiçoar nossas convicções. No encontro com o outro, compreendemos de maneira mais profunda quem somos e aquilo que nunca seremos.

Urge a necessidade de reanimar o diálogo intra-religioso, mais desafiador que o inter-religioso. Quanto mais próximo o outro, maior é a ameaça que representa ao que sou. Aquele que difere de mim totalmente me assusta menos, pois as fronteiras entre nós estão mais claramente demarcadas. Aquele que se parece comigo sem ser igual, todavia, representa uma ameaça muito maior porque desafia constantemente cada uma de minhas posições e práticas.

O número de judeus no mundo equivale à margem de erro do censo da China. Somos apenas 15 milhões de indivíduos, 100 mil no Brasil. Não podemos nos dar ao luxo da divisão porque ela gera nosso enfraquecimento físico e moral. Nossa diversidade é bem-vinda desde que não se transforme em ruptura. As recentes decisões do gabinete israelense colocam em risco uma tradição cuja pungência histórica está justamente na capacidade da união sem, no entanto, o apego fanático à uniformidade.

Essa perspectiva pluralista acompanhou o judaísmo desde sua gênese. O judaísmo clássico convivia muito bem com a noção de uma fé que tem espaço para diferentes pontos de vista, por vezes contraditórios. Para Max Kadushin, autor judeu do século 20, os sábios do Talmud estavam equipados para trabalharem com a noção de muitas verdades complementares, sem a necessidade de que uma se sobrepusesse à outra.

No século 19, as correntes judaicas liberais resgataram a noção de uma religião capaz de conviver em paz com a dúvida. A ideia de que nosso conhecimento é sempre parcial e provisório, característica do pensamento científico, foi reincorporada ao campo do pensamento religioso judaico.

Quando acredito haver apenas uma resposta correta para cada pergunta de fé, me aproximo de uma postura intransigente, preconceituosa e excludente. No momento em que admito existir um único caminho correto, passo a deslegitimar toda decisão diferente da minha.

Precisamos reforçar a noção de dúvida dentro do campo da religião. Devemos admitir que existem muitas formas de ser judeu e que não existe uma hierarquia entre elas. Este será o único caminho para reconciliar as diferentes correntes judaicas. 

O momento é de moderação. Existem judeus que praticam seu judaísmo sem deslegitimar a prática de outros judeus. No entanto, existem aqueles que sentem a urgência de desclassificar o outro para se afirmar como judeu. Esta não é a postura judaica que prevaleceu ao longo dos séculos e deve ser superada também em nossos dias.

Devemos exercitar o pluralismo em todas as direções. Devemos reconhecer o direito do ortodoxo de seguir de maneira rígida as regras rituais religiosas; admitir a prerrogativa do secular de encontrar sua inspiração judaica na música, no teatro, na história, na língua ou na poesia. Mas nosso pluralismo tem limite. O limite está justamente na impossibilidade de incluir aquele que, para ser incluído, exija a exclusão do outro. Em relação a este, não pode haver coexistência porque a deslegitimação do outro é a origem do fanatismo.   

Enquanto a unidade nos fortalece como comunidade, a uniformidade limita a religiosidade e fomenta o fundamentalismo. 

Justamente porque amamos Israel, queremos que este seja fator de aglutinação entre os judeus. Recomendo desenvolver uma cultura de que aqueles indivíduos e instituições que forem capazes de trabalhar conjuntamente, de cooperar entre eles, sejam recompensados com legitimidade política e verba para seus projetos. Por outro lado, aqueles que forem incapazes de atuar em rede, recebam um sinal cristalino de que não terão o apoio necessário para prosperar.

Não podemos admitir listas negras. No muro da existência judaica, precisa haver espaço para as diferentes manifestações culturais, sejam elas religiosas ou não.

Que saibamos recuperar nossa capacidade de conviver com o dissenso. Que a provisoriedade de nossas respostas seja vista como uma vantagem. A comunidade judaica e o Estado de Israel serão tão fortes quanto for sua capacidade de união sem, no entanto, buscar a uniformidade característica dos fanatismos. 



É bacharel em direito pela Universidade de São Paulo. Realizou seus estudos rabínicos e seu mestrado em Jerusalém, no Instituto Schechter. Desde 2005 é rabino da Congregação Israelita Paulista (CIP). 

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