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O pecado original de Mahmoud Abbas

Por Michel Gherman
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Muito tem se falado sobre o já célebre discurso do presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, no encontro do Conselho Central Palestino, no dia 17 de janeiro de 2018. 

Muito se tem falado no tom agressivo de Abu Mazen, nome de guerra de Mahmoud Abbas, muito se tem escrito sobre a forma como ele se dirigiu ao presidente Donald Trump, com a famosa expressão “que sua casa seja destruída” (em árabe, “Yakhrab baytu”), e muito se tem analisado sobre suas colocações a respeito da decisão do presidente dos Estados Unidos de mudar a embaixada Norte-Americana para Jerusalém.  

Entretanto, considero que tudo isso seja a espuma e não a onda, como dizia Fernand Braudel. Essas declarações são menos importantes no discurso como um todo. São mais retórica do que posicionamento. São mais sinais de desespero do que qualquer outra estratégia. Nas próximas linhas, vou tentar explicar melhor porque penso que isso tudo seja periférico no discurso do líder palestino. 

Considero que Abbas esteja em uma situação insustentável. De um lado, países árabes enfrentam graves problemas internos (guerras civis, crise de refugiados e consequências das primaveras árabes); de outro lado, o presidente Trump dá sinais claros de que pretende deixar de ser um mediador no conflito palestino-israelense e passa a se posicionar, objetivamente, como aliado dos israelense. Por fim, na Europa, vários países parecem se afastar da  mediação do conflito, o que coloca o líder da Autoridade Nacional Palestina em uma situação ainda mais complexa.

Nesse contexto, Abbas tem o direito de denunciar as atitudes de Trump. É questão de sua sobrevivência política. A decisão da mudança da embaixada para Jerusalém precisa, na perspectiva do presidente palestino, ser duramente criticada. Assim, quando ele grita que Jerusalém é Meca, dá sinais claros de resistência, fundamental em um contexto de desespero político. Ademais, quando amaldiçoa o presidente americano (a tal “que sua casa seja destruída”), parece acusar a atual administração de Trump de ter destruído a sua casa - afinal, Abbas apostou em negociações com mediação norte-americana, que agora parecem inviáveis.

Até aí, tudo compreensível. Abbas parece sair da espuma em direção a água justamente quando trata de Israel e do sionismo. Aqui considero que o presidente palestino avançou todos os sinais vermelhos e esclareceu algumas posições tomadas por estruturas palestinas que pareciam enigmáticas. A solução do conflito com Israel é fundamental para a criação de um Estado Palestino e, portanto, colocações sobre Israel e o movimento nacional judaico são fundamentais no discurso de Abbas. E elas existiram, não foram poucas e não foram nada simples.

Abbas, um político considerado moderado no contexto nacional palestino, usa seu discurso para - e isso sim é grave - deslegitimar o sionismo e, por consequência o Estado de Israel. São três os pontos do discurso que me pareceram importantes e que, de forma bem clara, adiam qualquer possibilidade de negociação com os palestinos. Mesmo que o governo de Israel mude nos próximos meses.

No primeiro deles, Abbas declara que o sionismo não tem relação alguma com o judaísmo. No segundo, Abbas afirma que foram os europeus que determinaram que os judeus deviam viver na Palestina (mais uma vez sinalizando a Declaração Balfour como um problema fundacional). Por fim, denuncia uma suposta conspiração sionista para drogar jovens palestinos.

Os três pontos apontam para uma acusação clara: o movimento sionista é apenas um conluio colonial, produto de uma conspiração internacional. Nada mais grave.

Quando Abbas afirma que judaísmo e sionismo não têm relação, ele determina que o nacionalismo judaico não passa de invenção europeia. Ele (como se pudesse) desconsidera processos históricos complexos que fizeram com que judeus assumissem posicionamento nacionalistas legítimos. Ao dizer que o sionismo não é judaico, o líder palestino afirma que Israel não é legitimo. 

Nesse contexto, Abbas faz eco, não por casualidade, com posicionamentos tomados pela UNESCO e por setores pró-palestinos no mundo inteiro. Negar a relação do sionismo com judaísmo possibilita que se negue a relação do judaísmo com o território de Eretz Israel (Terra de Israel). Esses movimentos são típicos do negacionismo histórico, da politização extrema do passado e estavam presentes em discursos esparsos de grupos pró-palestinos e em estruturas internacionais. Agora as pegadas levam à possível origem de tudo, o próprio presidente palestino.

Mas por que isso parece ser tão importante? Por que isso é a onda e não a espuma? Ora, essa posição faz com que qualquer concessão palestina seja demasiada. Se Israel não existe, se o nacionalismo judaico é apenas uma invenção europeia, por que reconhecê-lo? Por que ser possível imaginar a coexistência de dois Estados? Assim, em um discurso feito em árabe, escutado pela população local, Abbas parece desmontar o princípio que poderia levar a um acordo.

Tudo fica ainda mais claro quando Abbas aponta para o segundo ponto: os europeus trouxeram os judeus para a Palestina. Pronto. O presidente palestino desconsidera a luta judaica-sionista contra os britânicos, parece desconhecer que as imigrações sionistas eram ilegais, desconsidera as várias correntes do nacionalismo judaico e, principalmente para esse período, parece não julgar que a situação dos judeus na Europa era dramática. De maneira sintomática, não cita o antissemitismo e nem o holocausto. Para ouvidos palestinos, tudo parece linear e conspiratório. Muito grave. Um grau de deslegitimação de Israel poucas vezes visto.

Ao final, o pior: denúncias da clássica “conspiração judaica” com sua versão palestina. Os sionistas drogaram jovens palestinos. Aqui Abbas se aproxima de discursos antissemitas europeus e assume a ideia de que o Estado de Israel transforma as novas gerações palestinas em zumbis. Para além de usar o discurso antissemita, Abbas retira qualquer protagonismo palestino na história palestina. São vítimas de europeus malvados que os drogaram. Como dialogar com Israel então? 

Abbas parece caminhar para um beco sem saída. Ou pior, Abbas parece assumir o discurso de setores islamistas palestinos, cujos efeito podem ser graves. Se Fatah virar o Hamas, o que o Hamas pode virar?

Por fim, Abbas parece fazer eco com setores da extrema direita sionista. Ao argumentar que Israel é uma invenção, que o sionismo não é judaico e que tudo não passa de conluio sionista, o presidente palestino faz eco (com sinais trocados) com os setores mais reacionários da sociedade israelense. Estes dizem mais ou menos a mesma coisa sobre os palestinos. Assim, Abu Mazen parece querer atropelar os moderados de ambos os lados. Israelenses e palestinos que pretendem se reconhecer e respeitar mutuamente parecem não ter espaço no discurso do presidente palestino. 


Michel Gherman é professor convidado da Universidade Hebraica de Jerusalém e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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