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Abbas e Netanyahu na ONU: entre pinguins e Balfour

Por Michel Gherman
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Os discursos do primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e do presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, durante abertura da última Assembleia Geral da ONU, foram resumos perfeitos das relações políticas entre os representantes dos dois povos nos últimos tempos. 

O primeiro ministro de Israel subiu ao púlpito da Nações Unidas com um discurso cujas intenções estavam bastante claras. Apesar de sua fala ser orientada a Donald Trump e ao Irã, estava centralmente direcionada ao público interno de Israel. Assim, já no início de seu discurso, Bibi fez lembrar a famosa frase do ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger, a qual dizia que “Israel não tinha política externa, apenas política doméstica”. A crítica representada por essa frase é muito frequentemente retomada pela oposição israelense para condenar o governo Netanyahu. Pois bem, Bibi, com objetivo de contrariar tais críticas ao seu governo, falava diretamente para os representantes ali presentes, mas, indiretamente, contava para Israel que, diferente do que muitos sugerem, ele tem amigos pelo mundo.

Em seu discurso, junto da tentativa de apresentar sua fraternidade internacional, havia também elementos de “Advocacy” (dessalinização do mar, país das start up  etc.). Assim, fazendo-se como o país do futuro, nomeando cada lugar que havia visitado e ressaltando os bons contatos feitos da Índia ao Chile, Bibi esforçava-se para se mostrar internacionalmente querido e importante.

Por que o primeiro ministro de Israel fazia tanta questão de se mostrar querido?

Ora, de maneira semelhante ao que Kissinger dizia sobre a política externa israelense, Bibi estava sendo alvo de múltiplas acusações em seu próprio país, a saber, de corrupção, de isolar-se do resto mundo e de criar uma divisão no Estado de Israel. Assim, de maneira a revidar tais críticas, sua ida à ONU serviu como oportunidade para mostrar à oposição que Israel nunca havia sido tão bem visto no mundo como agora. 

Dado seu primeiro recado às forças da oposição, Netanyahu fez críticas à ONU e, de maneira pouco cuidadosa e sem pesar possíveis consequências de seu discurso, reafirmou o vínculo judaico ao Monte do Templo, a Chevron e a Jerusalém (a toda Jerusalém). A partir de então, fazendo coro com o presidente americano, seguiu centrado quase que exclusivamente na ameaça nuclear iraniana. Quase nada foi falado sobre a Palestina e o conflito palestino-israelense. Para se ter uma ideia do que estou falando, o primeiro ministro de Israel falou mais de pinguins (3 vezes) do que de palestinos (apenas 1 vez), deixando bem claro que tal questão não está no centro de suas preocupações. Lá no final, finalzinho mesmo, e só depois de falar do presidente da Índia, da visita à África e dos Pinguins, é que foram citados, de passagem, os palestinos.

Outro ponto que chamou muito a atenção foi o fato de o primeiro ministro de Israel ter se mostrado extremamente alinhado à “era Trump”. Mesmo depois das declarações dúbias do presidente americano sobre as manifestações de grupos de extrema direita nos Estados Unidos, Bibi não se rogou e rasgou elogios ao “seu amigo” Donald Trump. O antissemitismo, crescente nos Estados Unidos, também não parecia estar em seu radar, algo estranho pra uma liderança sionista. Ou seja, a busca cega por respostas à oposição israelense fez com que Netanyahu deixasse em segundo plano questões que deveriam ser centrais para seu país. 

Mahmud Abbas, por outro lado, não se esqueceu de falar nem de Israel e nem do Movimento Sionista. Não fosse pelas criticas que o presidente palestino fez ao processo de fundação de Israel, condenando sua legitimidade, seu discurso teria sido mais sionista do que o discurso de Bibi. 

Pela primeira vez, um presidente palestino coloca a questão da solução do Estado Binacional na mesa. Como ele fez isso? Dizendo que se não houvesse avanço nas negociações de paz, essa seria sua única opção, isto é, ficaria a cargo de Israel a decisão de transformar-se em um “Estado Apartheid ou fazer a paz com seus vizinhos”. Ao menos em âmbito discursivo, nota-se que Abbas não considera Israel um Estado Apartheid em sua composição atual, contrariando até mesmo alguns dos tradicionais discursos antissionistas.

Abbas disse também que reconhece o Estado de Israel e que pretende constituir o Estado Palestino nos territórios de 1967, juntando Gaza com a Cisjordânia. Ou seja, colocando-se contra a solução do Estado binacional (apesar de tê-la citado) e a favor de dois Estados entre o mar e o Rio Jordão.

Não obstante tais colocações aparentemente favoráveis à solução do conflito, outras declarações foram menos amigáveis nesse sentido. Mahmoud Abbas, fazendo uso político de processos históricos, novamente citou a Declaração Balfour (intenção de se criar um estado nacional judaico na palestina) como a grande responsável pelo conflito entre palestinos e Israelenses. Citar esta declaração (de 1917) sem citar, por exemplo, o Holocausto, é contar o que interessa e esquecer o que não vale. Uma pena. Ele não estava indo mal.

O presidente da Autoridade Nacional Palestina havia começado bem também quando falava da importância do respeito à questão religiosa e do risco (em uma clara referência a explanada das mesquitas) de transformar o conflito nacional em um conflito religioso. Por outro lado, não falou de fundamentalismo religioso. 

Eis a ambiguidade que resume a relação política entre Israel e a Palestina. Se, por um lado, Netanyahu mostrou seu desejo por uma ampla amizade internacional, por outro, praticamente ignorou os palestinos. Mahmoud Abbas, por sua vez, revelou sua abertura aos processos de paz ao mesmo tempo em que colocou em cheque a legitimidade da fundação do Estado de Israel. 

Nada mais revelador das relações políticas atuais entre ambos os povos do que o discurso na ONU de suas atuais lideranças.


Michel Gherman é professor convidado da Universidade Hebraica de Jerusalém e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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