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Quando a Nova Esquerda e a Nova Direita Encontram o Israel Imaginário, no Brasil

Por Michel Gherman
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Acredito que este texto deva começar lembrando de um evento que se tornou famoso, no Rio de Janeiro, chamado “A Noite da Infâmia”. Tal evento aconteceu no tradicional bairro de Laranjeiras, em frente ao não menos tradicional, embora decadente, Clube Judaico “A Hebraica”.

Os que estiveram por lá ou viram fotos ou ouviram falar do ocorrido e sabem que estamos nos referindo a uma manifestação que ficou marcada na memória da cidade. Essa manifestação contou com uma considerável presença judaica (o que pode ser confirmado pelas bandeiras, os uniformes e os cartazes), embora não houvesse apenas judeus participando dela e foi organizada principalmente por movimentos juvenis sionistas judaicos. Neste evento – e acho que esse é um ponto muito interessante –, os manifestantes se posicionaram de costas para a rua da Laranjeira (em frente ao clube) e se posicionam de frente para a entrada do clube. Comentarei mais sobre isso mais adiante, na conclusão do texto.

Esse protesto ocorreu em abril de 2017, no Rio de Janeiro, e trouxe resultados dramáticos e reais para a vida judaica no Brasil e para o debate sobre Israel e o sionismo também fora do ambiente judaico brasileiro. Nós seguimos alguns desses resultados e nossa intenção aqui é propor uma reflexão inicial sobre suas consequências sociais e políticas.

Antes disso, é importante notar que a presente pesquisa é parte de uma parceria desenvolvida por Misha Kelin, professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Oklahoma e o Núcleo Interdisciplinar de estudos Judaicos da UFRJ.

De fato, nosso foco de pesquisa é mais amplo do que o caso da chamada “Noite da Infâmia”. Nos últimos três anos, temos observado processos políticos e as mudanças bruscas sofridas pela sociedade brasileira. Nosso principal interesse neste trabalho é entender como (e se) essas mudanças afetaram grupos ligados à esquerda e à direita brasileiras, especificamente em questões relacionadas ao Sionismo, a Israel e a questões judaicas.

Neste contexto, nossa principal intenção era entender os usos políticos dos símbolos judaicos e israelenses nas manifestações políticas ocorridas principalmente na cidade do Rio de Janeiro, nos últimos três anos. Desde o início de nossa pesquisa, ficou claro que tanto os elementos judaicos quanto israelenses faziam parte das atividades políticas, tanto nos Grupos da chamada “Nova Direita” brasileira, como também nos protestos de setores da esquerda local.

Em ambos os casos, a direita e a esquerda, referências a Israel, aos judeus e ao sionismo foram facilmente encontradas em protestos e discursos políticos. Esses discursos políticos justificam, por exemplo, os usos de bandeiras israelenses e palestinas em manifestações nas ruas, ou mesmo a presença de símbolos religiosos judaicos em cerimônias cristãs públicas.

Como apontado pelo historiador Rejane Hoeveler, grupos de direita brasileiros alinhados a posições da chamada “nova direita brasileira” apoiam uma agenda fortemente conservadora em questões morais e econômicas. Para eles, ainda conforme sustenta Hoeveler, grupos sociais, políticos e culturais específicos representam ameaças e riscos em relação a valores “ocidentais”, como esquerdistas, homossexuais, muçulmanos e feministas, entre outros.

É muito comum encontrarmos entre os novos discursos de direita brasileiros também referências conspiracionistas. Por isso, para eles, é importante denunciar e confrontar a conspiração islâmica, a Conspiração Gay, a conspiração marxista e muitas outras formas de conspiração. Todas essas parcelas estão sempre relacionadas a “grupos perigosos”, como os apresentados acima.

Se por um lado existe um senso de existência de “grupos negativos”, que são sempre vistos como corporações uniformes e homogêneas do mal, por outro lado, existem “coletivos positivos”. Se o mal é visto como grupos uniformes e homogêneos, as entidades "boas" também são vistas como grupos uniformes.

Para a “nova direita brasileira”, não há espaço para contradições; grupos ruins são ruins, enquanto bons elementos são bons. Na sua totalidade, sem diferenças internas ou contradições. Por isso, eles serão entendidos como aliados ou como inimigos, sempre dependendo da vontade que o observador político vai ver e não como as dinâmicas internas desses grupos se apresentam.

Portanto, esses grupos supostamente trazem maldições ou bênçãos. Pelas posições da “Nova Direita Brasileira”, as conexões com a cultura islâmica, por exemplo, são maneiras de se receber maldições. Assim como as relações com gays ou "esquerdistas" (o que quer que isso signifique). Para a nova direita brasileira, as bênçãos são trazidas pelo ocidente, pelos Estados Unidos e pelos judeus ou pelo Estado de Israel (a diferença não é tão clara aqui).

Nesta perspectiva neo-orientalista, o mundo está enfrentando um novo choque civilizacional. Neste novo confronto, no entanto, não só o leste, o mundo árabe ou a religião islâmica são apresentados como as grandes ameaças, mas grupos locais, minorias e elementos ideológicos são vistos como uma ameaça perigosa também.

Para a nova direita brasileira, Israel é visto como um muro, uma barreira de defesa contra a expansão da cultura islâmica, mas também contra os riscos da política local, como o movimento gay, contra a expansão do movimento LGBT, contra grupos de esquerda, o movimento feminista, o doutrinamento nas escolas e um cardápio de ameaças que só aumenta.

Se Israel é entendido como um grande defensor do ocidente, os judeus (os judeus brasileiros, no caso) são vistos como grandes aliados locais. De fato, a nova direita brasileira vê o judaísmo (ou Israel, não importa) como parte de uma maior civilização judaico-cristã, ou nas palavras do “filósofo” Olavo de Carvalho, uma espécie de líder intelectual de “Nova direita brasileira”, Israel (ou os judeus, nenhuma diferença está clara) é parte de uma “muralha judaico-cristã  de defesa” contra a conspiração do leste (uma conspiração gay-esquerdista-feminista-islâmica) para conquistar o oeste.

Os cristãos – e, portanto, a cultura cristã –, enfrentam uma espécie de ameaça geral: o secularismo. Nesta perspectiva, os judeus (ou Israel, a diferença nunca é clara) lutam (ou devem lutar) contra grupos não religiosos. Ateus, esquerdistas, gays e outros são inimigos comuns. Aqui, um discurso cristão (muitas vezes um discurso evangélico brasileiro) produz um judeu imaginário e, ao mesmo tempo, produz também um Israel imaginário.

Ponto de vista externo: os judeus como ultraconservadores

Não há, portanto, lugar para contradições ou rupturas dentro dos grupos. Para ser mais específico: para constituir aliados cristãos, os judeus (ou Israel) são vistos através de um ponto de vista externo. Há lugar apenas para judeus religiosos, judeus conservadores, judeus de direita. Além disso, Israel (um Israel imaginário) é visto como um representante de tais valores. Judeus (e, por que não dizer, Israel?) passam a ser vistos também como um dos principais símbolos dos cristãos brasileiros ultraconservadores.

Por outro lado, para a nova cosmologia da direita brasileira, não há lugar para os judeus seculares, para os judeus de esquerda, para os judeus liberais. Para a agenda da direita brasileira, se você é um judeu secular ou judeu ateu, você não é um judeu de verdade. Você não é, pelo menos, parte do "bom coletivo". Você faz parte da ameaça, do perigo; você é o problema, não a solução.

Em outras palavras, as perspectivas políticas do cristão brasileiro conservador criam seu próprio judeu real, construindo os limites de identidade do outro, a partir de uma agenda conservadora muito específica. Os limites da Identidade Judaica são estabelecidos, portanto, desde a perspectiva da agenda evangélica, neopentecostal ou nova direita.

As identidades históricas judaicas modernas constituídas (judeu de esquerda, judeu liberal, judeu sionista, judeu revisionista, judeu socialista etc.) são relativamente ignoradas ou quase não consideradas no processo de percepção e construção da identidade judaica. Importante notar: tais identidades são relativamente ignoradas, e não completamente ignoradas, exatamente porque a presença desses conceitos aparecerá no novo discurso brasileiro correto. As referências ao sionismo e a Israel são facilmente encontradas em suas narrativas, mas aparecem em significados políticos completamente diferentes. Quando os novos líderes da direita brasileira usam tais conceitos, propõem novos usos, uma “nuova lingua”, não conectada aos significados clássicos e históricos dos mesmos conceitos.

Todo esse complexo processo pode explicar a forte presença de símbolos israelenses e judeus em manifestações públicas conservadoras e evangélicas no Brasil. Eles representam a luta contra o secularismo, o esquerdismo, o islamismo, os movimentos LGBT e tudo o que eles precisam.

No entanto, novamente, os usos judaico e sionista estão ancorados em significados evangélicos neopentecostais e ultraconservadores, embora alguns setores da comunidade judaica brasileira também adotem esses usos como seus próprios usos.

Portanto, nesses casos, a bandeira de Israel não está conectada de forma alguma à perspectiva histórica do Estado de Israel, mas, ao contrário, a bandeira israelense representa, para esses grupos, perspectivas a-históricas. Exatamente como um ocidente imaginário, há um judeu imaginário, ou para usar o termo proposto por Baumann, um Judeu Conceitual que lutará contra os perigos e as ameaças enfrentadas pela religião, pelos valores tradicionais e pelo ocidente. Israel, desta maneira, torna-se a personificação deste oeste, e os símbolos de Israel são seu escudo contra os inimigos.

As perspectivas de conspiração não são exclusivas, no entanto, apenas aos movimentos da nova direita brasileira. Fenômenos similares também podem ser observados em grupos ligados a movimentos de “novos brasileiros à esquerda”. Para esses grupos, a situação é bem inversa, mas... É a mesma coisa.

Para eles, uma coalizão progressista de “movimentos não-brancos”, de grupos periféricos, deveria ser estabelecida para combater a hegemonia dominante. Nesta perspectiva, os judeus (ou Israel – a diferença entre ambos não é tão clara aqui) são percebidos como cultura branca por excelência, eles são uma espécie de “brasileiros muito brancos”. Em uma espécie de “agenda neo-anti-ocidentalista”, os judeus brasileiros (ou Israel, também não há diferenças neste caso) são notados como parte da classe dominante no Brasil. Os judeus são membros de grupos uniformes, ideologicamente e socialmente falando.

Não há como ver rupturas e contradições no interior desse grupo. Ser judeu (ou israelense para alguns dos novos grupos de esquerda) significa ser capitalista, ser conservador, ser racista e ser imperialista. Portanto, não há como entender (ou aceitar), por exemplo, um sionista de esquerda (essa expressão pode, em alguns casos, substituir a palavra judeu), ou um sionista socialista ou mesmo um sionista secular. Este judeu imaginário será, nessas novas perspectivas brasileiras de esquerda, religiosas, conservadoras e ricas. Para esses grupos, os judeus sionistas são vistos como um elemento imaginário que representa o outro lado, o inimigo, a contradição de classe.

Importante observar: Para eles, ser esquerdista é contraditório com a possibilidade de ser pró-Israel ou sionista. Se você tem laços com Israel, simplesmente não pode ser ativista nos movimentos de esquerda brasileiros. De Israel e para Israel nunca virá qualquer apoio, apenas opressão.

Jogo de espelhos: Israel e Palestina como entidades imaginárias

Nas manifestações do novo movimento de esquerda brasileiro, é quase impossível encontrar uma bandeira israelense, somente se ela for queimada ou rasgada por alguns ativistas. Por outro lado, é muito comum encontrar bandeiras palestinas.

Numa espécie de jogo de espelhos, Israel e Palestina são construídos como entidades imaginárias, sendo a primeira negativa e a última sempre positiva. Neste setor, por exemplo, não há uma Palestina de direita ou uma Palestina conservadora. Sem ruptura ou contradição, ser a Palestina é ser aliado, ser progressista, ser anti-imperialista.

Como já dito, o Brasil está no meio de uma “forte onda conservadora” nesse contexto. Setores da comunidade judaica brasileira veem o primeiro fenômeno como uma experiência positiva ou como uma oportunidade muito boa para se conectar com grupos poderosos no Brasil. No Rio de Janeiro, a segunda maior cidade do Brasil, por exemplo, o prefeito da cidade é membro da Igreja Universal e é considerado um importante aliado da federação israelita – embora tenha fortes desentendimentos com outros grupos religiosos da cidade.

E aqui não podemos retornar nenhuma história mais “quente” do Clube Hebraica: possivelmente, não há nenhum caso mais simbólico do que a palestra proferida por Jair Bolsonaro (então apenas um pré-candidato à presidência do Brasil) em um clube judaico no Rio de Janeiro. Nesta ocasião, os elementos vistos acima foram sentidos de uma maneira muito poderosa e convincente. O político de extrema-direita foi convidado para uma palestra em um clube judeu decadente, no bairro de Laranjeiras, na capital fluminense. Quem convidou Bolsonaro? Judeus muito conservadores e grupos de ativistas da direita. Os membros neo pentecostais evangélicos também participam desses grupos.

Centenas de evangélicos e judeus conservadores estavam dentro do clube, na palestra em apoio a Bolsonaro. Na frente do Hebraica havia, também, centenas de judeus e ativistas de esquerda protestando contra a palestra.

Como já informado, a demonstração acontece na entrada do Hebraica. Os manifestantes, como disse no início do texto, estão de costas para as ruas. Seu objetivo é o embate com a estrutura formal da comunidade que apoiava a palestra no Hebraica. Aqui, o ponto importante: eles não estão interessados em demonstrar ao grande público sua posição. Trata-se, portanto, de um embate e não estritamente de uma manifestação. Mais do que isso, o protesto em frente ao clube e a palestra de Bolsonaro no Hebraica Rio representam uma ruptura sem precedentes dentro da comunidade judaica carioca.

Importante notar: fora do clube estavam membros de movimentos sionistas da Juventude. Muitas bandeiras israelenses podiam ser vistas e o principal slogan dessas pessoas era “Judeu Sionista não apoia fascista”. Dentro do Hebraica, judeus membros da Federação Israelita celebravam o discurso extremista de Bolsonaro, juntamente com pastores, bispos e outros líderes evangélicos.

Acredito aqui que seja possível notar uma espécie de dupla conversão acontecendo nesta situação: os judeus liberais, gritando do lado de fora, eram vistos como assimilados e até como elementos não-judaicos, por pessoas dentro da palestra. Enquanto isso, os líderes evangélicos foram convertidos a uma espécie de "judaísmo político" através do contato com judeus conservadores.

Mais do que isso, fora da bandeira de Israel eram vistos como “falsos” como “treife”, usados ​​por judeus anti-semitas, por judeus traidores, por kapos (termos usados nas entrevistas que estamos fazendo).

Embora muitos dos manifestantes fossem judeus sionistas, membros de movimentos juvenis, muitos deles cidadãos israelenses, para o público dentro do clube, eles não poderiam mais fazer parte da mesma comunidade política.

O judeu imaginário: o Israel imaginário fala mais alto que os verdadeiros judeus sionistas do lado de fora de hebraica.

A comunidade judaica do Rio pode estar enfrentando um complexo processo de desconversão e reconversão. Reconversão política e desconverção política que produzem novas comunidades políticas e religiosas.

Líderes evangélicos “converteram” judeus conservadores a uma “nova comunidade cristã-judaica”. Por outro lado, os líderes evangélicos brasileiros estavam substituindo os sionistas de esquerda que estavam do lado de fora do Hebraica.

Por outro lado, e não podemos esquecê-los, “novos movimentos de esquerda”, e os defensores do BDS não entenderam as manifestações como legítimas. Em sua perspectiva, os judeus sionistas do lado de fora da Hebraica simplesmente não podiam ser apoiados.

Aliás, mais do que isso, para eles, principalmente para grupos anti-sionistas defensores do boicote, a manifestação em frente ao clube judeu não poderia existir, as pessoas ali não poderiam existir. Como vemos nesta imagem da caricatura abaixo, entre os judeus vivos, de carne e osso, e os mortos na shoá, parece importante fazer desaparecer os primeiros e reafirmar, em forma de fantasmas os segundos:



 O “pogrom das Laranjeiras”, como foi chamada a manifestação em frente ao Hebraica, marca uma ruptura na comunidade judaica, mas representa mais do que isso. O evento simboliza uma imagem de “conversão política” em que judeus regulares e judeus imaginários mudam de posição, onde Israel e o sionismo se tornam parte da vida política brasileira local.


Há também outro lado da desconversão política: os judeus que lutavam contra a extrema direita brasileira em Hebraica, no início, não eram notados como judeus pelos líderes dentro do clube. Mas, da mesma forma, não eram notados como grupos de esquerda por um setor específico de movimentos de esquerda brasileira.

Em um processo dialético muito interessante, os judeus sionistas de esquerda em frente ao Hebraica foram ignorados e excluídos por ambos os grupos presentes no novo cenário da democracia brasileira. A nova direita brasileira (e, por que não dizer, a nova extrema direita brasileira?) parece abraçar grupos da nova esquerda. E num abraço de urso, que acaba por matar ambas, já que o mais importante é sufocar os que desmentem as versões de lado a lado, no caso judeus progressistas, liberais, sionistas de esquerda. Esses é melhor que não existam e, se existirem, é melhor que sejam apagados nas narrativas dos lados extremos no novo mapa político brasileiro.


Michel Gherman é coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da Universidade Federal do Rio de Janeiro e colaborador do Instituto Brasil-Israel

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