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Parar para lembrar: um olhar sobre Yom Hashoá

Por Michel Gherman
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Nessa crônica conto minha primeira experiência em um Yom Hashoá em Israel. Como D’us está nos detalhes, foram justamente os detalhes que transformaram esse dia em um evento Inesquecível.

Faz exatos 24 anos que tive a primeira experiência em Yom Hashoá de Israel. Foi uma experiência casual. Ela aconteceu por erros e atrasos. Explico o porquê. Em 1994 eu estava no shnat (passando um anos em Israel pelo Movimento Juvenil) e teríamos, todos, uma atividade em conjunto sobre a data. No mesmo dia, entretanto, fui avisado que tinha recebido uma encomenda e que teria que recebê-la no correio central de Jerusalém. Para não me atrasar para a atividade, saí bem cedo. Desci do ônibus e descobri que o correio ainda estava fechado. Acabei me atrasando. Peguei o ônibus de volta às 9:40h, o que significou que às 10:00h da manhã ainda estava no cruzamento das Ruas Bem Yehuda com Yaffo. E aqui começa efetivamente minha experiência.

Repentinamente no meio do centro barulhento de Jerusalém, escutou-se uma sirene. Eu estava no ônibus, o motorista puxou o freio de mão e levantou-se ao lado do banco. As pessoas todas, em silêncio como se obedecendo uma ordem externa fazem o mesmo. Todos em pé no ônibus, na rua as filas nos pontos, o mesmo. Silêncio e respeito. Pessoas olhando pra baixo, como se pensando no que significava aquele momento. 

Eu me dei conta do que havia significado aquele atraso. Olhava ao redor e me via como testemunha de uma “operação de memória” acontecendo. No meio de um dia de trabalho as pessoas simplesmente paravam para lembrar. “Recordar” passava a ser um ato ativo. Passei a observar os passageiros do ônibus, homens jovens, mulheres idosas, religiosos, seculares. Gente carregada de sacolas da feira. Todos parados olhando o horizonte.

Mas, o mais impressionante, estava por vir. No fundo do ônibus havia um senhor com lábios fechados, olhar altivo e, ao contrário de todos os outros, punho fechado no ar. Enquanto a mão esquerda segurava a poltrona do ônibus a direita pendia acima de sua cabeça. Assim, se notava mais claramente que havia um número tatuado em seu braço. O acaso, o atraso e os detalhes tinham me dado a oportunidade de passar meu primeiro Yom Hashoa em Israel ao lado de um sobrevivente de Auschwitz.

Claro que desmontei. Somente eu, aliás. Os outros passageiros permaneceram impávidos e continuaram as suas vidas depois que a sirene parou. Me lembro da senhora sentada atrás de mim falar pra sua acompanhante que o tomate estava caro demais.

A experiência do ônibus em Israel marcou profundamente minha relação com a história e com a memória. Além disso, minha relação com a shoá também não ficou intacta depois daquela viagem de ônibus.

O Dia de Recordação da Bravura e da Shoa, o Yom Hashoá, criado em 1959, por Yitzhak Ben-Zvi, segundo presidente de Israel, tem como referência o Levante do Gueto de Varsóvia, ocorrido em abril de 1943. Não sei se aquele senhor era combatente no levante antes de ser deportado para Auschwitz, mas aquela simples parada com o braço erguido o transformou no símbolo da memória da shoá aos meus olhos. Mas não só ele, a senhora que comentava o preço do tomate depois de prestar homenagem aos mortos do genocídio judeus também.

A luta pela memória do genocídio deve estar conectada ao direitos de todos a terem sua vida vivida. A sirene, o tom solene, quase sagrado, foi substituído pelos sons cotidianos de um ônibus nas ruas de Jerusalém. A mulher voltava a se preocupar com os preços da feira, o sobrevivente da shoá que tinha o braço erguido no momento seguinte voltava a ler o jornal e o dia continuava. Tudo me fazia crer que a maior vitória contra a barbárie nazista era a vontade de seguirmos vivendo, vivendo e lembrando, lembrando e vivendo. Ou nas palavras do poeta Yehuda Amicha, em sua obra “Turistas”:

“Certa vez estava sentado em umas escadas ao lado do portão da fortaleza de David, e coloquei meus dois cestos a meu lado. Estava lá um grupo de turistas em volta do guia e eu lhes estava servindo de ponto de referência. “Estão vendo este homem com as cestas? Um pouco à direita de sua cabeça tem um arco da época romana. Um pouco à direita de sua cabeça”. Mas ele se move, ele se move! Pensei a mim mesmo: a redenção virá apenas quando eles disserem: Estão vendo ali o arco da época romana? Tanto faz. Mas do lado dele, um pouco à esquerda e abaixo dele, está sentado um homem que comprou frutas e verduras para sua casa.”



Michel Gherman é professor convidado da Universidade Hebraica de Jerusalém e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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