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O drama dos refugiados, o retrocesso social e as leis religiosas em Israel: a disputa no partido Shas

Por Michel Gherman
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No decorrer dos últimos anos, o público ultra ortodoxo sefaradi vem passando por uma radical mudança em seu perfil político-ideológico em Israel. Enquanto o rabino Ovadia Yossef era vivo e saudável podia-se dizer que o partido Shas, que representa os sefaradim ultra ortodoxos no país, assumia um discurso popular que se aproximava da centro esquerda israelense. Foi o rabino Ovadia, líder espiritual do Shas, que apoiou a ideia de que a paz era mais importante do que a manutenção dos territórios no governo Rabin (1993). Foi o mesmo rabino que determinou, em meados de 1973, que os bet israel da Etiópia eram judeus e que, portanto, tinham pleno direito à imigração para o Estado judeu. Mais ainda, foi ele também que vinculou o Shas a uma agenda mais distributiva e social na formação de coalizões.

Quando, em 2013, a liderança espiritual do Shas adoeceu e morreu, aos 95 anos, depois de um longo período doente, o partido de centro esquerda desapareceu também. Nos últimos anos, o partido tem testemunhado uma guerra entre duas lideranças pela tomada da herança do rabino Ovadia: Elie Yshai e Arie Derie passam a protagonizar uma guerra pelo controle da máquina partidária que se consolida como uma das mais importantes forças políticas do país.

Elie Yshai, jovem líder, tem um perfil político mais conservador. Quando escolhido liderança do Shas, em 2003 (período em que Yossef estava adoecido), e indicado a ministro do interior, passou a flertar com posições de extrema direita. Passou a fazer campanha pela expulsão de imigrantes africanos, utilizar discursos racistas (em 2009 ele acusou imigrantes africanos de trazerem tuberculose e AIDS para Israel) e mobilizou populações sefaraditas empobrecidas do Sul de Tel Aviv. São essas populações que disputam os subempregos com imigrantes ilegais. Além disso, passou a defender que o governo lide com mais violência e força diante dos palestinos (durante a campanha militar de 2012, pilar de defesa, Yshai propôs que a aviação israelense fizesse “Gaza voltar à idade média”.) e iniciou campanha por leis religiosas que alterem o status quo da sociedade israelense.

Do outro lado, Arie Derie - saído da cadeia em 2013, depois de cumprir pena por corrupção, e livre para voltar à vida pública depois de der os direitos políticos suspensos por 10 anos -, representava posições mais tradicionais do Shas e disputava com Yshai a liderança do partido. O público sefaradi ultra ortodoxo se dividiu em dois campos e o Shas testemunhou uma guerra entre seguidores de Yshai e de Deri. Yshai foi humilhado e, em 2014, se retirou do partido para fundar outro, de extrema direita (YACHAD), que não conseguiu entrar no parlamento. Enquanto isso, Deri consolida sua liderança e reaproxima o Shas de suas bandeiras históricas. Aos poucos, entretanto, Deri se vê enfraquecido. Nota que seus eleitores estão mais à direita do que estavam antes e percebe que é necessário assumir as bandeiras de Yshai, sob o risco de levar o partido a bancarrota.

É justamente isso que estamos vendo agora. Deri, atual ministro do interior, tenta se mostrar à direita de Yshai. Assim, o atual  líder do Shas assume um discurso racista para justificar a expulsão dos imigrantes africanos que estão em Tel Aviv e passa a defender leis mais religiosas que alterem o status quo da sociedade israelense. É de sua autoria, por exemplo, a lei que proíbe o funcionamento dos mercadinhos no Shabat, lei que acaba por transformar a coerção religiosa em um tema de discussão relevante em uma sociedade já bastante dividida. Deri disputa seu público interno e encontra eco no governo. Bibi, sempre preocupado com a manutenção do poder, incorpora as agendas ultra conservadoras do "novo Shas". Deri passa a lutar por sua sobrevivência e Bibi, em nome de manter o Shas na coalizão, transforma o público de Israel em refém de um debate interno de um partido ultra ortodoxo.

As manifestações contra a corrupção e contra a coerção religiosa que começam a ocorrer em Israel mostram que o primeiro ministro pode ter errado no cálculo. Pode ser que, para manter o poder, ele tenha aberto uma caixa de pandora, que será difícil de ser fechada.

Ou será uma caixa de Ovadia.


Michel Gherman é professor convidado da Universidade Hebraica de Jerusalém e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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