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Está na moda ser sectário

Por Michel Gherman
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Os tempos que correm são tempos de extremos.

Vemos emergir, continuamente, posições extremadas que surgem em lugares distintos do espectro político. Surgem, grosso modo, da extrema direita e da extrema esquerda. À direita, por exemplo, os discursos circulantes apontam para um perda da polidez em relação a discursos que há pouco seriam tidos como preconceituosos, racistas e xenófobos.

Na verdade, em alguns casos, parece ser até cool manifestar-se contra o politicamente correto e evidenciar posições que, outrora, seriam impublicáveis.

À esquerda aparecem referências essencialistas de raça e identidade. De uma hora para outra, junto ao universalismo historicamente reivindicado pelas esquerdas, começou a aparecer também pensamentos enquadrados nos estreitos limites do sectarismo: mulheres, e apenas mulheres, podem falar sobre feminismo; negros, e apenas negros, podem entender e refletir sobre racismo. E assim por diante. As novas disputas nas esquerdas têm criado cisões internas em que o maior inimigo passou a ser o universalismo e a própria esquerda, e não a direita.

Está na moda ser sectário?

O extremismo se alimenta dos abusos. Tem-se abusado de textos de história, de textos de sociologia, de textos de opinião. Enfim, a leitura (rápida e pouco comprometida) passa a servir para justificar posições pré-existentes e não para refletir sobre elas. Opinar rapidamente, e sem comprometimento algum, passa a ser uma afirmação de existência. Opino, logo penso. Daí surgem informações de que o “nazismo é de esquerda”, de que o “feminismo é heterofóbico”, de que “há uma conspiração islâmica-esquerdista, ou maçônica- judaica, para dominar o mundo” e de que “o sionismo é igual ao nazismo”.

Tudo isso é abuso da história. Violação da história. Diz-se história, mas é fake news. Está na moda a robotização de certezas, em que repete-se, à exaustão, supostas verdades sem sequer verificar suas viabilidades. É assim e pronto. Tá duvidando? Te mando por zap.

Se isso é relativamente novo em alguns campos, em outros não é. Em debates super complexos e controversos sempre houve tentativas de simplificação e de produção de fake news, mesmo antes do termo existir. Um exemplo? O conflito palestino-israelense. Nada mais falso do que a ideia de que os palestinos viviam em paz com os judeus até que vieram os sionistas europeus, com o apoio da Inglaterra, e destruíram o paraíso, expulsaram os palestinos, tomaram suas terras para satisfazer anseios coloniais.

Essa perspectiva ignora o desenvolvimento do nacionalismo judaico na Europa, as imigrações judaicas antes do Estado de Israel, as perseguições aos judeus europeus, os massacres perpetrados por palestinos contra populações judaicas na Palestina (para citar dois apenas: 1923-1929), a resistência judaica contra os britânicos, a rebelião árabe na Palestina (1936-1939), a proibição britânica de imigração judaica, o Holocausto, a guerra civil (1947-1948) e a invasão dos países árabes ao recém fundado Estado de Israel.

Tudo isso com o objetivo de forjar continuidades históricas que “provariam” um plano europeu-colonialista-sionista de dominar a Palestina. Quando ele teria começado? Com a declaração Balfour, em 1917. Quando teria terminado? Com a fundação do Estado de Israel, em 1948. Ignora-se todo o resto, esquece-se as contradições inerentes ao processo histórico e retira-se qualquer agência do povo palestino.

Em tempos de extremos, o que serve pra um lado, muitas vezes serve para o outro. Se há setores da esquerda que promovem a ideia de que o sionismo é o mal a ser combatido, a extrema direita diz o mesmo do Islã. Nessa perspectiva, os palestinos e suas demandas tornam-se uma invenção, apenas parte de um plano secreto para destruir o ocidente. A mesma coisa, mas ao contrário.

É chegada a hora de escolhermos um lado: o lado da reflexão e da honestidade intelectual. Somente assim podemos responder as ameaças de violadores, que usam fatos inventados para justificar agendas excludentes.


Michel Gherman é professor convidado da Universidade Hebraica de Jerusalém e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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